Sempre fui um admirador declarado de Napoleão Bonaparte, por suas inúmeras e multifacetadas virtudes, mas principalmente pela precocidade quase desconcertante de seu talento. Ainda adolescente, destacou-se em matemática e ingressou na École Militaire de Paris, especializando-se em artilharia. Concluiu em apenas um ano um curso que normalmente levava dois e, aos 16 anos, já era oficial. Quase dois séculos depois, fascinaria Stanley Kubrick, que dedicou anos à preparação de uma biografia cinematográfica de Napoleão que jamais realizaria. Sua ascensão foi extraordinariamente rápida. Aos 24 anos, o Cerco de Toulon foi decisivo para sua promoção a general. Aos 26, assumiu o Exército da Itália e transformou tropas mal equipadas numa sucessão de vitórias. Depois vieram Marengo, Ulm, Jena e, sobretudo, Austerlitz. Sua enorme confiança no próprio julgamento não poderia ser simplesmente confundida com arrogância. Era uma confiança reiteradamente validada pela performance. Mas uma sequência tão extraordinária de acertos cobra seu preço. Napoleão passou a confiar cada vez mais no próprio julgamento e na lealdade daqueles que escolhia, mesmo quando a performance já não justificava essa confiança. Familiares foram transformados em reis, e homens de confiança receberam responsabilidades desproporcionais à sua capacidade. Espanha e, sobretudo, a Rússia mostrariam os limites dessa fórmula. Em 1814, derrotado, Napoleão abdicou e foi enviado a Elba. Menos de um ano depois, escapou, retomou Paris e voltou ao poder praticamente sem disparar um tiro. O maior general de sua geração estava de volta. A questão era se sua capacidade de produzir resultados também estava. Dois séculos depois, uma outra volta improvável ao poder torna difícil ignorar um paralelo. Não entre personagens de dimensões e trajetórias tão distintas, mas entre os erros de seus últimos atos e a forma como chegaram ao fim. Lula deixou o poder em 2010 com enorme popularidade, esteve preso e inelegível e, aos 77 anos, voltou ao Planalto. Mas voltar não significa voltar igual. Os números ajudam a separar a memória de Lula da performance de Lula 3. A dívida bruta estava em 71,7% do PIB quando ele voltou. Em agosto deste ano, chegou a 82,9%, o maior nível desde março de 2021. O déficit nominal saiu de 4,7% para 9,5% do PIB, e os juros consumiram R$ 1,18 trilhão em 12 meses. A taxa de investimento, de 17,8% do PIB em 2022, chegou a 16,1% no segundo trimestre. Nas famílias, 82% estavam endividadas em julho, um recorde da série da CNC. Em junho, 28,9% da renda estava comprometida com o serviço das dívidas, outro recorde na série. A renda real cresceu e atingiu máximas históricas, mas uma parcela recorde dela passou a servir dívidas. Há ainda uma dimensão menos mensurável, mas talvez mais reveladora: a escolha de pessoas. Nos Correios, uma presidência de indicação política terminou depois de a estatal registrar prejuízo de R$ 2,6 bilhões em 2024 e mais R$ 1,7 bilhão apenas no primeiro trimestre de 2025. No INSS, uma indicação política para a presidência terminou em demissão em meio ao escândalo dos descontos associativos que movimentou bilhões de reais e passou a ser investigado pela Polícia Federal. As responsabilidades individuais ainda dependem da Justiça, e parte dos problemas das duas instituições antecede essas gestões. Mas os episódios expõem o risco que interessa aqui: confiança política não é garantia de capacidade de execução, controle ou resultado. Talvez exista aí um “museu de grandes novidades”. A volta ao poder pode criar a ilusão de que métodos, pessoas e convicções que funcionaram em outras circunstâncias continuarão produzindo os mesmos resultados. Mas experiência não garante performance, e confiança pessoal não substitui resultado. Napoleão descobriu isso em Waterloo. Ao retornar de Elba, encontrou uma Europa novamente unida contra ele. Precisava derrotar britânicos e prussianos separadamente antes que forças superiores se reunissem. Venceu os prussianos em Ligny, mas não os destruiu. Dois dias depois, encontrou Wellington entrincheirado em Waterloo. A chuva atrasou os franceses, o terreno dificultou sua artilharia, e Napoleão precisava vencer antes que os prussianos chegassem. Eles chegaram. Pressionado por dois exércitos, lançou sua Guarda Imperial numa última tentativa. A Guarda recuou e o exército francês desmoronou. Waterloo não apagou Austerlitz. Apenas mostrou que o passado, por mais extraordinário que tenha sido, não garante o presente. Lula 3 também nasceu de uma volta improvável. Mas voltar ao mesmo lugar não significa voltar ao mesmo tempo. O País já era outro, as circunstâncias eram outras, e as entregas ficaram a desejar. Pedro Thompson é fundador e CEO da Tuesday Capital.
WATERLOO-LA? Os riscos de voltar ao Poder depois do topo
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Brazil Journal
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