Waltercio Caldas reúne obras históricas e recentes em individual na Casa Roberto Marinho

 

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“O compositor tem sete notas que pode trabalhar de várias maneiras, criar intervalos dos mais variados. Talvez eu tenha agido como quem compõe uma sinfonia, algo em que todas as partes são fundamentais para o conhecimento do todo”. É assim que Waltercio Caldas explica como selecionou as obras da exposição “o (tempo)”, que abre nesta quinta (14) na Casa Roberto Marinho. Aos 79 anos, o escultor, desenhista, artista gráfico e cenógrafo, discípulo de Ivan Serpa (1923-1973) e expoente da geração pós-neoconcreta surgida nos anos 1960, reuniu na mostra, pensada especialmente para as onze salas do centro cultural no Cosme Velho, cerca de cem obras produzidas entre 1967 e 2025, num mergulho por seu pensamento refinado.

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Marcada por traços precisos e economia de elementos, sua produção usa materiais como aço inoxidável, pedras, espelhos, vidros e fios de lã e algodão para tensionar forma, espaço e percepção. Entendendo tempo como linguagem, Waltercio propõe diferentes relações com o conceito, do tempo histórico — evocado nas homenagens a outros artistas, de pianistas a escritores — ao tempo de contemplação que cada obra exige.

— Como aqui era uma residência, esses vários ambientes me ajudaram na concepção de um ritmo em que cada sala parece ser uma constelação. Tem obras de várias épocas, unidas por algo invisível que não sei o que é — e até gosto de não saber. Mas quando elas ficam lado a lado, algo acontece entre elas — afirma.

Em uma mesma sala, ele reúne os estojos “Condutores de percepção” (1969) e “Eu sou você. Eu não sou você” (1972), peças-chave de seu projeto artístico, e trabalhos recentes. Para o crítico Paulo Venancio Filho, autor do texto de abertura da exposição, os trabalhos iniciais sintetizam elementos centrais de sua obra pela forma como convidam o espectador a questionar a percepção diante de objetos comuns.

"Condutores de percepção", obra-chave da produção de Waltercio Caldas, feita em 1969

Divulgação/Jaime Acioli

— Se voltássemos da atualidade a essas peças dos anos 1960 e 1970, encontraríamos as mesmas características: essa clareza, limpeza e precisão do pensamento plástico.

Para o artista, os trabalhos seguem uma conversa infinita. O tempo, então, aparece não como linha reta, cronológica, mas como espiral.

— Um trabalho muitas vezes deve muito a outro feito 20 anos antes. Até penso que cada um tenha a consciência de que conhece os outros — brinca. — Sou um artista de uma fase só, apenas tomo cuidado para que ela esteja sempre no princípio.

O percurso

Ao entrar na exposição, o visitante se vê dentro da instalação “Quarto azul”, em que paredes opostas são ligadas por linhas da mesma tonalidade. Do espaço tomado por um azul céu, chega-se a uma sala com obras que tratam do universo, entre elas a maquete “A noite” e o estojo “As sete estrelas do silêncio”.

Na sequência, surgem homenagens a diferentes artistas, de Caravaggio a Oswaldo Goeldi. Destaca-se “Espelho para Velázquez”, em que um espelho e uma linha, elementos seminais em suas obras, ampliam as camadas do célebre quadro “As meninas”, do espanhol. No mesmo ambiente, uma pintura de Giorgio de Chirico integra o acervo da Casa selecionado pelo artista para dialogar com sua obra, prática recorrente nas mostras locais. Ao longo do percurso, há peças de Ismael Nery, Loio-Pérsio e Fernand Léger.

"Espelho para Velázquez", de Waltercio Caldas, exposta na Casa Roberto Marinho

Divulgação/Sérgio Araújo

Ocupando uma sala inteira, a obra “Velocidade” é uma das que melhor traduzem a ideia de tempo que perpassa a mostra. Pequenas caixas de chiclete dos anos 1980 cobrem do chão ao teto as paredes do corredor que liga o cinema aos jardins.

— Uso a caixa de chiclete como uma vertiginosidade, e o ambiente como aceleração do olhar. É quase impossível falar de espaço sem falar de tempo — afirma.

É com o olhar e o corpo em movimento que o visitante deve percorrer as salas do segundo andar. Esculturas em aço e fios; mais homenagens a nomes como o pintor Rembrandt, o pianista Thelonious Monk e o escritor Franz Kafka; e espelhos, em diferentes escalas, suportes e materiais, reforçam tensões entre presença e ausência, peso e leveza, transparência e opacidade.

— A tridimensionalidade é a minha questão. Gosto de coisas que as pessoas andem ao redor. Por isso digo que é uma exposição radicalmente presencial — resume.

Outro aspecto marcante é o uso das palavras. Quadrinhos com a frase “Mas agora não”, uma estrutura em aço, acrílico e vidro com os dizeres “Not now” e os estojos do início da carreira denotam o humor discreto e sua precisão em articular forma e sentido.

"Not now": obra feita em vidro, aço inoxidável e acrílico traz o tempo em frase "agora não"

Guito Moreto/Agência O Globo

Pensando em cada detalhe, Waltercio inseriu em algumas salas uma trilha sonora sutil: a cada 45 minutos, recomeça baixinho o ábum “The Copland Piano Collection”, do pianista Aaron Copland.

— A música ajuda a pessoa a se distrair, o que é importante na exposição. Já dizia Fernando Pessoa: “Sentir é estar distraído”.

Serviço

Onde: Casa Roberto Marinho, Cosme Velho.

Quando: Ter a dom, das 12h às 18h. Até 27 de setembro. Abertura quinta (14), às 18h.

Quanto: R$ 10. Aos domingos, R$ 10 para grupos de quatro. Grátis às quartas.