247 – Um grupo formado por institutos de proteção aos direitos humanos, centros de apoio a migrantes e coletivos feministas protocolou nesta quarta-feira (21) uma notícia-crime na Procuradoria-Geral da República (PGR) contra Daniel Vorcaro. O documento, endereçado ao procurador-geral Paulo Gonet, acusa o dono do Banco Master — preso desde março de 2026 — de envolvimento em graves crimes internacionais, incluindo tráfico de pessoas para fins de exploração sexual, rufianismo, estupro de vulnerável, corrupção de menores, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
A mobilização das entidades foi motivada por uma reportagem do portal UOL, publicada em 13 de outubro, que revelou a suposta existência de uma estrutura milionária de recrutamento, deslocamento e exploração sexual de mulheres estrangeiras financiada por Vorcaro. Segundo a matéria jornalística, o banqueiro teria investido pelo menos R$ 4,3 milhões a partir de 2023 para manter a rede, que envolvia intermediários, viagens internacionais luxuosas e a compra de 50% de uma agência de modelos, a Allure Eventos, utilizada como fachada legal para blindar o recrutamento e facilitar a emissão de vistos.
A instrumentalização da vulnerabilidade – A denúncia detalha que o grupo criminoso tinha predileção por mulheres estrangeiras em situação de extrema vulnerabilidade socioeconômica, incluindo refugiadas de países como Ucrânia, Rússia e Venezuela. Em um dos casos mais alarmantes citados nas mensagens interceptadas, os agenciadores discutem o controle sobre uma jovem ucraniana de 19 anos, que havia viajado 14 horas de ônibus para fugir de bombardeios. O promotor de eventos de Vorcaro chega a afirmar que a segurou no Brasil e comemora: “Ela não tem para onde ir”.
As comunicações entre Vorcaro e seus intermediários — que incluíam o dono de uma consultoria de luxo na Flórida e um promotor de eventos em São Paulo — expõem um tratamento desumanizador. As mulheres eram frequentemente chamadas de “escravas”, “kengas” e “flores”. Meninas mais novas recebiam apelidos como “creche” e “Mucilon”. Segundo a notícia-crime, embora a reportagem original não comprove a presença de crianças, a terminologia adotada exige uma verificação rigorosa da idade das vítimas envolvidas.
Havia também um forte esquema de controle. Mensagens apontam que os intermediários retinham os celulares das mulheres durante viagens à Europa (Londres, França e Roma) e ao Oriente Médio (Dubai), além de submetê-las a um processo que chamavam de “doutrinação” para que formassem uma “Famiglia obediente” ao banqueiro.
Perspectiva de gênero e amparo legal – A peça jurídica, assinada por renomadas advogadas internacionalistas e constitucionalistas, fundamenta-se em uma vasta legislação nacional e em convenções internacionais ratificadas pelo Brasil, como o Protocolo de Palermo e a Convenção para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW).
As juristas argumentam que o aparente “consentimento” das mulheres para participar de festas ou viajar é juridicamente irrelevante diante da exploração de sua vulnerabilidade — agravada por guerras, deslocamento forçado e dependência econômica. A denúncia exige que o caso seja investigado com perspectiva de gênero e raça, rechaçando estereótipos que criminalizam a mulher ou normalizam a exploração sexual.
As entidades solicitam à PGR a abertura imediata de uma investigação de ofício, com a identificação e proteção das possíveis vítimas. O pedido enfatiza que o Estado brasileiro deve garantir assistência habitacional, médica, psicológica e de regularização migratória, sem condicionar esse amparo à colaboração penal das mulheres.
Tramitação – A notícia-crime pede ainda que a investigação seja eventualmente encaminhada ao Supremo Tribunal Federal (STF), a fim de unificar as apurações em andamento e anexá-la à Petição nº 16.662/DF, já em trâmite na Corte. O objetivo é garantir economia processual e aprofundar a investigação sobre a engrenagem financeira que sustentava o esquema, cujas faturas de consultoria chegaram a movimentar cerca de US$ 70 milhões sob a rubrica de “hospitalidade e eventos”.
Assinam o documento as advogadas Caroline Proner, Charlotth Back, Larissa Odreski Ramina, Juliana Neuenschwander, Helena Pontes, Amanda Luize Nunes Santos, Bianca Galvão Marques, Eliza Odila Conceição Silva, Gabriela Rondon Rossi Louzada e Letícia Ueda Vella.
A ação é apoiada por organizações como o Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), ANIS – Instituto de Bioética, Associação Elas no Poder, Associação Grito dos Excluídos Continental, Centro de Apoio e Pastoral do Migrante (CAMI), Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, e Instituto Edesio Passos.
Brasil 247