O ex-banqueiro e dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, negou à Polícia Federal fraude de R$ 12 bilhões no Banco de Brasília (BRB), afirmou que a operação com o banco público deu lucro e sustentou a versão de que mantinha negociações com outras instituições financeiras como o Banco BTG.
Em depoimento prestado de uma sala na Papudinha, onde está preso preventivamente, Vorcaro e seus advogados conversaram com a delegada da PF Janaína Palazzo. As imagens da oitiva, que ocorreu em 15 de outubro, foram liberadas para o acesso do ministro relator do caso André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta quinta-feira (29/10), e estão no inquérito.
Nas imagens, Daniel Vorcaro refere-se às negociações com o BRB como “normais” e cita como exemplo as tratativas com com o banqueiro André Esteves, do BTG Pactual, sobre compra de ativos. Ao responder perguntas da delegada sobre a legalidade das carteiras usadas, Vorcaro disse: “Eu ajudei o BRB.
Não tem nada de errado. Tanto que o BRB teve lucro”.
Ao citar que os ativos negociados eram saudáveis, Vorcaro fala que mantinha negociações com o BTG: “Inclusive com o BTG que a senhora parece gostar. Tô brincando….”, disse a delegada que respondeu ser servidora pública durante toda sua carreira e ter conta no Banco do Brasil.
Veja vídeo: ➡️ Vorcaro diz à PF que BRB teve lucro e brinca que delegada “parece gostar” do BTG
Saiba mais na coluna @manualcantaraa O vídeo gravado do depoimento de Vorcaro tem 2 horas e 27 minutos, embora todo o processo de oitiva tenha durado cerca de 4 horas.
Vorcaro foi indiciado neste caso em relatório parcial da PF como líder da organização criminosa, que cometeria crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Segundo à PF, caberia a ele a centralização “das decisões relacionadas à produção, aquisição, cessão das carteiras de crédito utilizadas para captação de recursos”.
Por isso, a delegada pergunta diversas vezes a Vorcaro se era ele quem decidia os ativos negociados com o BRB. Além de Vorcaro, outros 14 foram indiciados por crimes como gestão fraudulenta, prestação de informação falsa e fraude.
Além de organização criminosa e lavagem de dinheiro. Após o depoimento, a defesa de Vorcaro afirmou que não houve fraude R$ 12 bilhões no BRB e que não há comprovação disso.
“O negócio envolvendo as carteiras da Tirreno não foi concluído, nem gerou qualquer prejuízo ao BRB ou a seus clientes. Ao contrário do que se especulou, a troca de ativos realizada demonstra que os negócios entre o Banco Master e o BRB geraram resultados positivos para o Banco de Brasília”, afirmou o banqueiro em seu depoimento à PF.
Daniel Vorcaro cumpre prisão preventiva desde 4 de março deste ano. Em junho, ele foi transferido para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, local conhecido como Papudinha, em Brasília.
A delegada responsável pelo caso foi até o local para ouvir o ex-banqueiro e gravou o depoimento por celular. Os outros depoimentos do banqueiro vinham sendo prestados por videoconferência.
A PF deflagrou a Operação Compliance Zero, em novembro de 2025, para apurar a compra de R$ 12 bilhões em carteiras de crédito do Master supostamente falsas. O ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa está preso desde 16 de abril deste ano.
Ele é suspeito de receber propina de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. Dario Oswaldo Garcia Júnior, ex-diretor executivo financeiro e de controladoria do BRB também foi alvo de mandado de busca e apreensão no âmbito da Compliance Zero.
Ele foi afastado do cargo em novembro de 2025. Em relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal (STF), a PF destacou que, em outubro de 2024, em troca de mensagens com Daniel Vorcaro, Paulo Henrique Costa, manifestou preocupação com a repercussões no mercado sobre o aumento de capital do BRB para comprar o Master e enfatizou a necessidade de “dar sinais ao mercado”.
As mensagens são trocadas em proximidade temporal com a autorização, pelo acionista controlador, do aumento de capital de R$ 750 milhões já submetido ao Conselho de Administração. Para a Polícia Federal, o conjunto dos elementos indica que, já em outubro de 2024, a aquisição e a integração do Master ao BRB estavam definidas no plano estratégico decisório, com o aumento de capital e o desenho acionário funcionando como etapas preparatórias para a consolidação futura.
Segundo as investigações, após o ingresso do grupo Master na base acionária do BRB, o banco passou a adquirir, “em volume expressivo, carteiras de crédito, instrumentos estruturados e outros ativos originados do próprio grupo investidor, totalizando bilhões de reais em operações concentradas em curto intervalo temporal”.
“Tal dinâmica evidencia circularidade econômica e dependência financeira artificialmente construída, criando incentivo direto para internalização de ativos de maior risco, com impacto relevante sobre a solidez financeira da instituição pública”, diz trecho do relatório da PF enviado ao STF.
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