A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, defendeu nesta quarta-feira (16) a criação de um Conselho de Segurança Europeu, que reuniria líderes da União Europeia, do Reino Unido, da Noruega, da Ucrânia e do Canadá, ao alertar para o aumento das ameaças à paz no continente.
Von der Leyen também propôs um novo sistema para coordenar respostas aos chamados incidentes híbridos, frequentemente atribuídos à Rússia, que ficam abaixo do limiar de ataques militares convencionais, mas ameaçam a segurança europeia — como sabotagens, incêndios criminosos e incursões de drones.
“A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia continua. E as ameaças estão aumentando em nosso próprio território”, disse von der Leyen, chefe do braço Executivo da União Europeia, formada por 27 países, em seu discurso anual sobre o Estado da União ao Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
Ao citar episódios como uma tentativa de ataque com drones contra o aeroporto de Leipzig no mês passado, atribuída à Rússia pelas autoridades alemãs, von der Leyen afirmou que a doutrina, as instituições e os processos de tomada de decisão da Europa não acompanharam a nova realidade.
“A Europa precisa de seu próprio manual para enfrentar ameaças híbridas”, afirmou, propondo um “protocolo de segurança de emergência” que poderia ser acionado por qualquer país da UE para coordenar uma resposta europeia.
As iniciativas refletem o desejo crescente de autoridades europeias de assumir maior responsabilidade pela segurança do continente, em meio a dúvidas sobre até que ponto podem contar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para socorrê-las por meio da aliança militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).
No entanto, diante da escassez inicial de detalhes, alguns analistas alertaram que as iniciativas poderiam duplicar estruturas já existentes na Otan, provocando possíveis confusões, e acabar se resumindo a pouco mais que fóruns de discussão.
A Rússia rejeitou as acusações da Alemanha sobre o episódio em Leipzig e acusou países da Otan de responsabilizar falsamente Moscou por outros incidentes com o objetivo de aumentar as tensões entre os dois lados.
Von der Leyen afirmou que a Comissão apresentará propostas para tornar realidade a criação de um Conselho de Segurança Europeu.
Ela não detalhou como esse conselho funcionaria. Seu comissário de Defesa, Andrius Kubilius, porém, sugeriu que o órgão poderia, em algumas ocasiões, envolver apenas países da UE e, em outras, incluir países de fora do bloco.
Em um documento publicado em janeiro deste ano, Kubilius sugeriu que o conselho tivesse uma combinação de membros permanentes — grandes países como Alemanha, França, Itália, Espanha e Polônia — e outros integrantes em sistema de rodízio.
Von der Leyen mencionou o Canadá entre os países que poderiam participar. No mesmo discurso, destacou os estreitos laços da UE com o país e afirmou que pretende abrir caminho para que o Canadá se torne um “membro associado” do bloco.
Noruega e Finlândia receberam positivamente a proposta de segurança. “A Europa precisa ser capaz de assumir mais responsabilidade por sua própria segurança e fortalecer sua própria defesa”, publicou no X o primeiro-ministro finlandês, Petteri Orpo.
Outras autoridades, porém, foram mais cautelosas. O ministro das Relações Exteriores da Estônia, Margus Tsahkna, afirmou: “A Otan continua sendo a pedra angular da segurança europeia, e os esforços da UE em segurança e defesa devem complementar e fortalecer a Aliança.”
Marta Prochwicz, especialista em defesa do Conselho Europeu de Relações Exteriores, afirmou que a proposta do Conselho de Segurança é “um passo na direção certa”. Mas acrescentou: “Se continuar sendo apenas um fórum de discussão, sem uma cooperação mais profunda na indústria de defesa, projetos conjuntos, equipamentos interoperáveis e treinamento conjunto das forças, isso não tornará a Europa mais segura.”
Oana Lungescu, pesquisadora sênior do centro de estudos britânico de defesa RUSI e ex-porta-voz da Otan, afirmou ser difícil imaginar como um conselho desse tipo poderia dissuadir a Rússia.
“O que dissuade a Rússia é uma produção de defesa em grande escala e a disposição de impor custos”, publicou Lungescu no X.
Valor