Você é adepta da

Você é adepta da 'clean beauty'?

 

Fonte: Bandeira



Existe um novo tipo de nécessaire surgindo e conquistando espaço entre as mulheres. Menos lotada e menos guiada pela ideia de que precisamos comprar um lançamento atrás do outro para dar conta da própria aparência. Em meio a um mercado bilionário de cosméticos e cuidados pessoais, o movimento "clean beauty", ou beleza limpa, cresce como um contraponto ao excesso.

O Brasil hoje é o terceiro maior mercado consumidor de produtos beleza do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. E basta abrir qualquer rede social para perceber a velocidade dessa indústria: são séruns, ácidos, rotinas com dez etapas, promessas instantâneas e padrões inalcançáveis. A lógica parece ser consumir mais para se sentir melhor.

Mas cada vez mais gente questiona essa conta. A beleza limpa propõe outra relação com a beleza e os cosméticos. Mais consciente, mais desacelerada e também mais crítica em relação aos ingredientes usados nas fórmulas e ao impacto ambiental dessa indústria.

— Os cosméticos chamados clean label derivam de um movimento que surgiu nos anos 2000 propondo uma relação mais gentil e natural com a beleza — explica a jornalista especializada em bem-estar sustentável e beleza limpa Marcela Rodrigues, idealizadora do hub A Naturalíssima e autora do livro “Guia da beleza consciente”.

Ela faz questão de lembrar que o conceito vai muito além do skincare.

— Gosto de pensar mais em beleza consciente do que apenas em beleza limpa. Estamos falando de uma relação mais saudável, minimalista e autônoma com o próprio cuidado.

Na prática, o movimento estimula a substituição gradual de produtos com substâncias suspeitas para a saúde humana e para o meio ambiente, como sulfatos, parabenos, ftalatos e triclosan. Muitos desses ingredientes são alvo de debate científico por seu potencial alergênico ou por atuarem como disruptores endócrinos, compostos capazes de interferir no sistema hormonal.

— O tema fica ainda mais complexo quando falamos de fragrâncias, pois a palavra “perfume” no rótulo pode esconder dezenas de substâncias que não precisam ser detalhadas pelas empresas por questões de segredo industrial. Os ftalatos, por exemplo, estão entre os ingredientes mais preocupantes. Por isso a indústria natural costuma usar óleos essenciais ou fragrâncias sintéticas consideradas seguras e livres desses compostos — explica.

Outra área delicada é a proteção solar. Ingredientes como octocrileno e benzofenonas já enfrentam restrições em alguns países por possíveis impactos ambientais e na saúde, embora ainda sejam permitidos no Brasil.

Mas talvez o aspecto mais interessante desse movimento não esteja apenas na composição dos produtos e sim na crítica ao modo como a beleza vem sendo vendida. A beleza limpa questiona a ideia de que autocuidado precisa ser consumo constante. Questiona também a pressão estética acelerada pelas redes sociais e o sentimento permanente de inadequação que move parte dessa indústria.

Ninguém precisa jogar tudo fora e virar “natureba” da noite para o dia. Marcela defende justamente o contrário, que a transição dos cosméticos convencionais seja feita de “forma gradual”.

Ela sugere começar pelos produtos usados em grandes áreas do corpo e com alta frequência, como hidratantes corporais. Depois, desodorantes.

— A indústria fez a gente acreditar que transpirar é errado. Mas o suor é uma função natural e importante do corpo e há muitas fórmulas naturais eficientes contra o mau odor. Perfumes e sabonetes entram na sequência. Pequenas trocas podem reduzir bastante a exposição acumulada a determinadas substâncias.

Talvez a questão não seja apenas o que passamos na pele, mas que tipo de relação estamos construindo com a própria imagem. Porque beleza limpa fala menos sobre perfeição e mais sobre consciência.