Você confunde introversão, introspecção e interioridade?

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Gostar de ficar sozinho, pensar antes de agir, selecionar vínculos e sentir-se bem com os próprios pensamentos significa ser introvertido? Não necessariamente. E o que isso tem a ver com nossa capacidade de criar, inovar e renovar?

Vivemos períodos de dissensos políticos, sociais e ambientais, com decisões cujas consequências alcançarão quem ainda nem nasceu. Como encontrar caminhos novos quando nossas convicções dificultam a escuta do contraditório?

Estamos confundindo introversão, introspecção e interioridade. São conceitos relacionados, mas diferentes.

Introversão é um traço de personalidade: não significa timidez, isolamento, falta de empatia, maior inteligência ou criatividade, nem aversão às pessoas. Introspecção é observar pensamentos, sentimentos e motivações; introvertidos e extrovertidos podem praticá-la.

Interioridade é mais ampla: a capacidade de reconhecer e integrar corpo, emoções, pensamentos, memórias, valores e experiências antes de agir. Requer atenção, reflexão e método.

Interiorizar não é obedecer ao que sentimos. Sentimentos informam, mas não precisam comandar.

Um pensamento não precisa virar ação. Um desejo não exige satisfação imediata; necessidades essenciais exigem cuidado.

Uma provocação não obriga resposta. Entre perceber e agir existe um espaço para perguntar: o que sinto? Por quê? O que meu corpo sinaliza? Reajo ao acontecimento ou ao que despertou em mim? Ter saúde é essa coerência entre pensar, sentir e agir.

Quando um deles está desalinhado, adoecemos e sofremos. E, algumas vezes, deprimimos.

Vivemos sob exigências de desempenho: produzir, responder, alcançar, acumular, conhecer, aparecer, ser reconhecido. O risco surge quando já não sabemos de onde vêm nossas escolhas.

Quero isso ou aprendi que deveria querer? Essa meta ainda importa? Estou satisfeito ou apenas interrompendo uma sensação de insuficiência? O que é essencial e o que é supérfluo na minha vida? Desempenho não é satisfação.

Podemos realizar muito sem experimentar o suficiente. Reconhecer a suficiência não é acomodar-se: podemos estar satisfeitos e continuar evoluindo.

É perceber quando a busca deixou de corresponder ao que valorizamos e virou hábito. Vale para trabalho, dinheiro, consumo, relações, sexualidade, prazer, conhecimento e reconhecimento; também para organizações que repetem estratégias apesar dos resultados.

O corpo também participa das escolhas. Não decidimos apenas com pensamentos.

Percebemos as mudanças internas: respiração, batimentos, tensão, conforto, fome, saciedade, excitação. A interocepção envolve perceber e integrar sinais corporais que participam das emoções, da percepção de nós mesmos e das decisões.

É como um “GPS biológico”: uma metáfora para mecanismos de regulação da vida, percepção, emoção, memória e aprendizagem desenvolvidos ao longo de bilhões de anos de evolução, muito antes de nossa biografia civilizatória. Estados corporais ajudam a orientar escolhas, mas não determinam qual será a melhor.

Nem todo desconforto indica que devemos recuar, para isto precisamos de uma educação dos sentidos. Perceber, interiorizar, avaliar e escolher exigem discernimento.

Não há atalhos confiáveis. E quando a tristeza pede uma pausa? Há uma confusão prejudicial: tristeza não é sinônimo de depressão, condição clínica que requer avaliação e cuidados.

E para quem confunde tristeza, recolhimento com adoecimento ou depressão, proponho outra palavra: quietude. Tristeza – ou quietude – é uma emoção legítima, assim como alegria, raiva e medo: pode sinalizar perdas, frustrações e contrariedades que merecem atenção.

A quietude corporal, respiração tranquila, e a mental, atenção e clareza de pensamentos, favorecem a concentração para sustentar dúvidas, buscar informações e avaliar alternativas antes de decidir. Estudos sobre regulação emocional e tomada de decisão e a rede cerebral de modo padrão fundamentam a participação da memória, reflexão e empatia nesses processos.

Não precisamos de silêncio nem de felicidade para decidir bem e inovar, mas de interioridade: reconhecer o que sentimos, distinguir emoções de acontecimentos e examinar possibilidades. Sustentar uma dúvida sem responder imediatamente a ela pode abrir novos caminhos.

Nesse sentido, interioridade é uma estratégia para a inovação. A criatividade não surge do vazio: combina experiências biográficas, memórias, conhecimentos e cultura, além da capacidade de rever preconceitos, convicções e regras morais.

A neurociência do pensamento espontâneo investiga os processos cerebrais envolvidos na elaboração de novas possibilidades. Quando confiamos em nossas capacidades sem perder a disposição para aprender e corrigir caminhos, configura-se o que denomino autofé.

Confiar em si não é acreditar na própria infalibilidade, mas ter a segurança existencial necessária para mudar. O termo resgata e inverte o antigo ‘auto de fé’ da Inquisição: em vez de uma fogueira para queimar quem pensa diferente, a autofé é o ato de queimar as nossas próprias certezas obsoletas ao conversar com o outro.

Não se trata de teimosia, mas da paz mental necessária para reconhecer limites, acolher a alteridade — escutando o outro — e evoluir. Esse exercício alcança diretamente quem está sob nossa responsabilidade.

Pais, líderes, educadores e governantes devem favorecer autonomia e participação, para que cada pessoa assuma a sua parte em um accountability existencial — ou seja, na prestação de contas de si mesmo. Respondemos por nossas escolhas e consequências na família, nas organizações, no país e no planeta.

Afinal, inovar não pode ser um privilégio de quem detém a autoridade; diferentes vozes precisam ter o poder de contribuir, discordar e propor. Mas como construir uma comunidade quando alguns permanecem em mentalidades rígidas, outros procuram compreender o presente e terceiros já elaboram o futuro?

A resposta começa em priorizar a paz, em vez de perseguir continuamente a felicidade. Nem toda felicidade traz paz: um chocolate pode proporcionar prazer momentâneo, mas não restitui a doçura de uma relação rompida.

A pacificação exige reconhecer conflitos, discordâncias, consequências e limites. Não exige concordância cega, mas maneiras de conviver e decidir sem transformar toda diferença em ameaça.

Também nisso há criatividade. Inovar também é aceitar quando a solução desejada não está disponível.

Ajustar expectativas, reduzir danos e mitigar sofrimentos já são avanços. Para renovar caminhos, mude o olhar: de qual ponto de vista estou olhando? De qual preciso para evoluir? Parar, focar ou ler sinais sutis importa para a saúde mental coletiva.

Sustentabilidade, educação política, consciência ecológica, convivência, tecnologia e preservação do Estado de Direito e do desenvolvimento, dependem de instituições, mas também de nossa capacidade de sustentar diferenças, com responsabilidade cívica, sem impulsividade ou imaturidade.

Interioridade não é fechar os olhos para o mundo, mas retornar a ele sabendo de onde partimos. Em tempos de polarização nas relações pessoais, familiares, organizacionais e políticas, dissenso traz informações para rever escolhas.

Por mais diferentes que sejam nossos olhares, compartilhamos o mesmo barco: o planeta Terra. E é na interioridade que renovamos o olhar, as escolhas e os caminhos para um futuro comum.

Exercite-a com quatro perguntas: Que contrariedade você precisa compreender? Que tristeza pede sua atenção? Que olhar precisa renovar? Que supérfluo precisa deixar para dar lugar ao essencial?

Rubens Harb Bollos é médico, PhD em Ciências da Saúde e counsellor em gestão de crise e saúde, e presidente-fundador da ABMPP (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão). Mais Lidas

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