Vinicius, nesta sexta-feira de outubro, voltei ao seu poema “Pátria minha”. Li devagar, como quem abre uma carta recebida há muito tempo e encontra nela alguma coisa que ainda precisa ser respondida.
Você estava em Los Angeles, distante do Brasil, olhando o filho adormecido. Na respiração daquela criança, descobriu uma imagem da pátria.
Imagino a solidão daquele quarto, a saudade do Rio de Janeiro e você, homem feito, chorando por um país. Sempre me comoveu sua maneira de amar o Brasil.
Enquanto outros o celebravam com palavras grandiosas, você desejava acariciar-lhe os cabelos, beijar-lhe os olhos, niná-lo como uma filha pequena. Sua pátria tinha corpo, sentimentos, necessidades.
E aquela pobreza que nos acostumamos a traduzir em estatísticas aparecia em três versos de uma delicadeza quase insuportável: “De minha pátria, de minha pátria sem sapatosE sem meias, pátria minhaTão pobrinha!”
Preciso lhe contar uma lembrança, poeta. Dessas que os anos preservam com tamanha nitidez que parecem ter acontecido ontem.
Era quarta-feira, 9 de julho de 1980. Eu dirigia um departamento do Banco do Nordeste, na Rua do Rosário, no centro do Rio de Janeiro.
A Rádio JB anunciou sua morte. A notícia percorreu as mesas, interrompeu conversas, alcançou os corredores.
Recordo a tristeza nos rostos, o silêncio inesperado, aquela sensação de perda que nos aproxima mesmo quando mal nos conhecemos. Naquele dia, o banco pareceu fechar para balanço.
Um balanço diferente de todos os outros. Contas, saldos, títulos, aplicações e relatórios perderam a importância habitual.
Era um balanço emocional. Nenhum número conseguiria expressar o que sentíamos.
Nenhuma rubrica permitiria registrar o tamanho daquela ausência. A morte de um poeta havia conseguido suspender, por algumas horas, a rigorosa disciplina de uma instituição financeira.
Na manhã seguinte, mais da metade dos meus colegas apareceu vestida de preto, num luto ostensivo. Outros prenderam à roupa, com pequenos alfinetes, pedaços de pano negro.
Vivíamos ainda sob a ditadura militar. Aqueles sinais de pesar, discretos em alguns, eloquentes em tantos outros, constituíam uma homenagem que nenhum cerimonial poderia reproduzir.
Ali estavam funcionários, chefes, auxiliares, pessoas habituadas a conversar sobre juros e negócios, reunidas pela tristeza de perder alguém que lhes ensinara a amar através das palavras. Esqueci centenas de documentos que passaram por minhas mãos.
Mas nunca esqueci aqueles retalhos pretos. Hoje compreendo melhor o que testemunhei.
Havia entre nós uma espécie de fraternidade nascida da admiração, uma consciência compartilhada de que perder um poeta significava perder também uma maneira singular de compreender a vida. Pois bem, Vinicius.
Preciso atualizar suas notícias do Brasil. A menina cresceu.
Aprendeu a fabricar aviões, transplantar corações, produzir ciência respeitada internacionalmente e desenvolver tecnologias que você dificilmente conseguiria imaginar. Somos uma das dez maiores economias do planeta, com a oitava posição projetada para 2027.
Entretanto, continuamos convivendo com crianças famintas, mulheres agredidas, trabalhadores humilhados e famílias que precisam escolher quais necessidades poderão atender com o dinheiro disponível. Há uma perversidade nessa convivência entre abundância e privação.
A riqueza nacional avança pelos gráficos enquanto milhões de brasileiros ainda aguardam sua parte nas promessas de prosperidade. Como jornalista, conheço a linguagem dos relatórios econômicos.
Sei quanto uma porcentagem pode esclarecer. Sei também quanto sofrimento humano consegue esconder.
E há uma coisa que gostaria de lhe dizer com especial orgulho. O Brasil é cobiçado por ser raro, Vinicius, e não apenas por possuir terras raras.
Há minerais estratégicos no subsolo, rios imensos, florestas preciosas e riquezas naturais disputadas por interesses poderosos. Mas nosso maior patrimônio inclui a diversidade dos povos, a sabedoria indígena, a herança africana, a música, a literatura e a criatividade de uma população que conseguiu construir uma cultura extraordinária.
Somos um país de singularidades que nenhum inventário mineral conseguiria descrever. Talvez por isso me cause tanta indignação perceber quantas vezes nossas riquezas despertam mais atenção que nossos habitantes.
Disputam nossas reservas naturais, nossos mercados, nossa capacidade de produzir alimentos e energia. Entretanto, o valor de uma criança brasileira continua sendo frequentemente esquecido nos cálculos daqueles que decidem sobre o futuro.
Você também encontraria um mundo estranho, poeta.Agora temos redes sociais. Milhões de pessoas podem conversar simultaneamente, publicar opiniões, compartilhar conhecimentos, atravessar fronteiras sem sair de casa.
Parecia uma oportunidade extraordinária de democratizar a palavra. Mas parte desse território foi sequestrada por uma epidemia de estupidez, intolerância e violência.
Ali prosperam manifestações de inspiração fascista, ataques misóginos, ameaças e humilhações públicas. A mentira circula com impressionante velocidade.
A crueldade encontra seguidores. Há quem confunda agressividade com inteligência e preconceito com liberdade.
Mulheres são perseguidas por manifestar opiniões, jornalistas recebem ameaças, pessoas comuns tornam-se alvos de campanhas de difamação. Imagino você diante dessas telas, tentando compreender por que tantos seres humanos passaram a sentir prazer em ferir desconhecidos.
Você, que conheceu as contradições do amor, as fragilidades humanas e a beleza das imperfeições, encontraria uma época em que a delicadeza frequentemente precisa defender-se da brutalidade. Não quero, contudo, entregar-lhe apenas notícias tristes.
A alegria brasileira continua vivendo nas canções, nas festas populares, nos encontros familiares, nas crianças que inventam brincadeiras em qualquer pedaço de chão. Conheço professores que compram livros para seus alunos, vizinhos que dividem o almoço, mulheres que sustentam famílias inteiras trabalhando até a exaustão.
Mas aprendi a desconfiar de quem transforma a resistência dos pobres numa virtude nacional. Ninguém deveria precisar demonstrar heroísmo diariamente para exercer direitos elementares.
Tenho netas, Vinicius: Cecília, Lua, Nina, Jade, Clarissa, Eva. Conheço a emoção de sentir a mão pequena de uma criança procurando a minha.
Aprendi que uma pergunta infantil pode ser mais exigente que muitos tratados de filosofia. Talvez por isso me doa tanto pensar nas meninas brasileiras que crescem aprendendo a distinguir o que lhes é permitido sonhar daquilo que suas condições de vida lhes oferecem.
E agora chegamos à notícia que mais gostaria de lhe contar. Aquela menina que você encontrou descalça tornou-se avó.
Tem 77 anos. Imagine-a, poeta.
Os cabelos embranqueceram. O rosto conserva as marcas de alegrias e sofrimentos.
Os pés guardam cicatrizes de uma caminhada difícil. Ela conheceu o medo da repressão, assistiu ao retorno da democracia, viu nascer novas gerações e descobriu que algumas conquistas exigem vigilância permanente.
Carrega fotografias antigas, lembranças de pessoas queridas e a saudade particular de quem já viveu o bastante para compreender a fragilidade das coisas. Pois neste domingo, 25 de outubro, imagino essa menina-avó caminhando em direção às urnas, trazendo pela mão seis netas, com idades entre 16 e 25 anos.
Gostaria que você pudesse vê-las. São jovens que nasceram cercadas de tecnologias, cresceram ouvindo discussões sobre direitos humanos, mudanças climáticas, democracia e inteligência artificial.
Possuem ideias próprias, fazem perguntas difíceis, discordam umas das outras. Conhecem um mundo que seria quase irreconhecível para sua geração.
Mas continuam desejando aquilo que sempre moveu os seres humanos: liberdade, segurança, respeito, oportunidades e o direito de construir a própria felicidade. A avó caminha devagar.
Uma das moças lhe oferece o braço. Outra pergunta se trouxe o documento.
A mais jovem se adianta para verificar onde fica a seção eleitoral. Gosto de imaginar esses pequenos gestos.
Há neles uma ternura que dispensa discursos. E uma continuidade entre gerações que me comove particularmente.
Dentro da cabine, cada uma escreverá uma nova estrofe do seu belo poema. Serão versos diferentes, nascidos de consciências livres.
Não precisam rimar entre si. A democracia permite que pessoas que se amam discordem profundamente sobre o futuro.
E talvez uma de suas maiores exigências seja justamente aprender a preservar o afeto sem exigir a renúncia às convicções. A velha menina conhece o preço dessa liberdade.
Sabe o que significa viver numa sociedade em que o medo alcança as palavras, as reuniões, os livros e até as conversas familiares. Suas netas receberam uma herança que precisam compreender para poder preservar.
Nenhuma delas deveria conhecer a experiência de ter os próprios pensamentos submetidos à autorização dos poderosos. Queria conversar com você sobre isso, Vinicius.
Sobre a responsabilidade de transmitir às novas gerações alguma coisa além de nossas decepções. Sobre a necessidade de ensinar-lhes que a dignidade humana vale mais que qualquer vitória circunstancial.
E sobre o perigo de permitir que o ódio se torne uma linguagem habitual entre pessoas que continuarão vivendo no mesmo país depois das eleições. Fico imaginando o instante em que a avó terminará de votar.
Retirará os óculos, guardará o documento e procurará as netas. Por alguns segundos, talvez recorde outras eleições, antigas esperanças, rostos que desapareceram de sua vida.
Depois seguirá em direção à porta, onde as moças estarão esperando. Gostaria que você estivesse ali, sob a claridade de uma tarde brasileira, para reconhecer a criança dos seus versos naquela mulher envelhecida.
Eu me aproximaria discretamente. Contaria que estava no Banco do Nordeste no dia de sua morte, que nunca esqueci os colegas vestidos de preto, que sua poesia continuou me acompanhando durante décadas.
Talvez conversássemos sobre nossas famílias, sobre o Rio de Janeiro, sobre essa estranha capacidade que temos de amar profundamente um país que tantas vezes nos entristece. Então as sete mulheres seguiriam pela calçada.
Uma delas contaria alguma coisa engraçada. A avó sorriria.
Outra lhe seguraria a mão. Você observaria aquela pequena família afastar-se e compreenderia que sua menina havia atravessado o tempo conservando alguma coisa da infância.
Lembro que você desejava beijar os pés da pátria. Penso nos pés cansados daquela avó, nas longas distâncias que percorreu, nas feridas que ninguém tratou.
E penso nas netas, que agora podem ajudá-la a caminhar. Vinicius, naquele julho distante, nós vestimos preto porque havíamos perdido um poeta.
Neste outubro, desejo que as novas gerações encontrem razões para vestir o Brasil com as cores da esperança, sem esquecer as injustiças que ainda precisam enfrentar. E se você me perguntasse o que mais desejo para nossa menina, responderia sem hesitar: que um dia possa envelhecer sem assistir à fome de seus filhos, à humilhação de suas mulheres e ao desperdício do futuro de suas crianças.
Porque, poeta, a menina do seu poema já envelheceu. O que ainda nos falta é crescer à altura dela.
Brasil 247