Entre as cidades de Cabreúva e Itupeva, no interior paulista, um empreendimento rural pretende inaugurar uma nova categoria de moradia de campo para consumidores de alta renda no Brasil. Batizado de Vinhas da Invernada, o projeto une vinhedos privativos, produção de vinhos autorais e clube do vinho em uma fazenda histórica datada de 1860, situada na região da Serra do Japi. A iniciativa nasceu da visão de um grupo de cinco amigos paulistanos apreciadores de vinho, da vida no campo, e com visão apurada de negócios imobiliários. Segundo o idealizador e gestor de operações do projeto, Guilherme Sahade, a proposta busca resgatar o conceito da casa de campo como espaço de convivência, desaceleração e conexão com a produção agrícola – em especial, o cultivo de uvas. O empreendimento fica na Fazenda São Simão, antiga propriedade cafeeira com cerca de 110 hectares, adquirida pelos cinco amigos em 2024. “A escolha da área foi baseada, antes de tudo, em seu potencial para a vitivinicultura”, afirma Sahade. No Vinhas da Invernada, as terras foram divididas em 100 glebas, onde cada propriedade contará com áreas entre 20 mil e 35 mil metros quadrados, permitindo a implantação de vinhedos particulares e a participação dos proprietários em todas as etapas da produção, do cultivo à elaboração do vinho. O modelo de negócio funciona como uma espécie de cooperativa privada. Os proprietários podem optar por cultivar seus próprios vinhedos e produzir vinhos exclusivos ou terceirizar toda a operação agrícola para a equipe da vinícola central do empreendimento. Também existe a possibilidade de vender a produção de uvas para a marca do condomínio. A expectativa é que a infraestrutura principal, incluindo a vinícola e o restaurante, seja concluída entre 2028 e 2029. Até lá, a produção de vinhos ocorre em parceria com vinícolas da região. Guilherme Sahade, sócio e idealizador do Vinhas da Invernada Maria Emília Zampieri/Globo Rural O administrador de empresas Renan Marreiros Hazan, que é de Santos (SP), adquiriu um dos terrenos para construir uma casa de campo para reunir a família aos finais de semana e cultivar um vinhedo próprio. “Conheci a a ideia quando o projeto estava sendo delineado, há dois anos, e já decidi que investiria em uma propriedade, pelo conceito diferenciado e potencial de produção de vinho. Provavelmente, seguirei com produção de vinhos orientada pela equipe do condomínio, integrando a produção do que chamams de pool de produtores”, conta. O projeto do condomínio como um todo será implantado em duas fases, totalizando 100 glebas rurais. “Cerca de 30% dos lotes já foram comercializados por meio de indicações e relacionamento direto dos sócios com potenciais compradores”, diz Guilherme Sahade. Gabriela Moreno Sanches, também sócia do projeto, explica que o condomínio foi pensado a partir do conceito inédito de Terroir Living. “o termo terroir é amplamente usado no meio do vinho, definir a influência do solo, clima e relevo sobre a qualidade da bebida. A proposta aqui é ampliar essa influência também para a moradia e estilo de vida”, define. Segundo o viticultor Daniel Micheletto, consultor do projeto e profissional que fornecerá o apoio aos novos produtores, a iniciativa também contribui para o desenvolvimento da pesquisa vitícola regional, testando variedades e manejos em uma área que busca consolidar sua vocação para os chamados vinhos de inverno. “As cidades de Itupeva e Cabreúva integram a Rota do Cristalino Paulista, uma iniciativa de quinze municípios vitivinícolas paulistas que começa a se estruturar para mostrar ao público a qualidade dos produtos artesanais da região, com características específicas dessa terroir especial”, afirma Micheletto, que já presta consultoria agronômica para vinícolas da região. Ele próprio é dono de uma vinícola na cidade de Louveira. Os resultados obtidos até agora indicam boa adaptação de algumas variedades ao terroir local. Atualmente, 14 variedades de uvas estão plantadas em caráter experimental, com previsão de expansão para 20 cultivares.
O empreendimento fica na Fazenda São Simão, antiga propriedade cafeeira com cerca de 110 hectares Divulgação Localização privilegiada para uvas Localizada na área de influência da Serra do Japi, a propriedade reúne alguns dos elementos mais valorizados na vitivinicultura moderna. A altitude varia entre 850 e 900 metros, proporcionando temperaturas mais amenas e maior amplitude térmica entre dias e noites, fator importante para o desenvolvimento equilibrado das uvas e para a preservação de aromas e acidez natural. O solo, de origem granítica e rico em minerais, apresenta boa drenagem, característica que favorece o aprofundamento das raízes e evita excesso de umidade. Outro diferencial é a atuação da Serra do Japi como uma barreira natural à umidade proveniente do Oceano Atlântico. Esse efeito climático contribui para um ambiente mais seco durante os períodos críticos da maturação, condição considerada estratégica para a produção de vinhos finos de inverno. Para potencializar essas características, o projeto adota a técnica da dupla poda, também conhecida como poda de inverno. O manejo inverte o ciclo produtivo da videira, deslocando a colheita para os meses mais secos e com maior amplitude térmica, cenário que favorece a concentração de açúcares, compostos fenólicos e aromas nas uvas.
Globo Rural