Um homem foi mordido ao tentar capturar um jacaré com uma corda em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, neste domingo (1º). A tentativa de imobilização foi registrada em vídeo publicado nas redes sociais.
O episódio é mais um entre recentes registros de jacarés circulando por áreas urbanizadas da cidade. Para especialistas, a frequência desses encontros está relacionada, entre outros fatores, à pressão sobre os ambientes naturais onde os animais vivem.
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As imagens mostram o jacaré andando por uma rua residencial, enquanto moradores acompanham a movimentação. Crianças aparecem de bicicleta nas proximidades, e cachorros também circulam pelo local.
Em determinado momento, um homem se aproxima e tenta prender o animal pelo pescoço com uma corda. O jacaré reage e morde a vítima, que recua para escapar.
A direção do Hospital Municipal Pedro II confirmou que atendeu o homem no domingo. O paciente recebeu os cuidados indicados e teve alta médica, com as devidas orientações.
Já a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima (Smac) informou que a Patrulha Ambiental foi acionada, esteve no local e realizou o resgate do jacaré. O animal foi devolvido ao seu habitat natural.
Homem é mordido por jacaré no Rio; biólogos alertam para aumento de aparições Por que tantos jacarés em áreas urbanas?
Segundo o biólogo Ricardo Freitas Filho, especialista em crocodilianos e presidente do Instituto Jacaré, há dados que indicam aumento dos avistamentos de jacarés em áreas urbanas. Para ele, a redução dos ambientes naturais é um dos fatores que ajudam a explicar a circulação dos répteis por ruas e áreas residenciais.
— Se você reduz cada vez mais a área dos animais, sem espaço não há outra opção a não ser atravessar a área urbana em busca de um ambiente mais favorável, menos competitivo, com mais recursos e com menos perturbações — explica. Freitas Filho afirma que os jacarés não estão necessariamente desorientados quando aparecem em ruas e condomínios.
Na avaliação dele, os animais procuram ambientes que antes faziam parte de seu habitat e que foram modificados pela ocupação urbana. Durante o deslocamento, podem encontrar abrigos temporários sob árvores, veículos e arbustos ou até identificar piscinas e lagos artificiais como novos ambientes.
O especialista também chama a atenção para a necessidade de planejamento dos resgates e da destinação dos animais. Segundo ele, o Rio conta com estruturas públicas, como o Corpo de Bombeiros e a Patrulha Ambiental, para atender às ocorrências, mas seria importante ampliar o monitoramento das populações naturais e a participação de equipes especializadas.
— Quando são capturados e soltos, a pergunta é: aonde? Por que soltar ali e não aqui? São perguntas importantes para as quais temos respostas, mas infelizmente não há reciprocidade das autoridades — afirma. O biólogo participa de um trabalho de acompanhamento dos animais na região de Jacarepaguá há mais de duas décadas.
O estudo envolve captura, marcação e observação do desenvolvimento, da distribuição e do uso dos habitats pelos jacarés, além de questões socioambientais relacionadas aos conflitos com a população. Para Freitas Filho, a falta de um plano de manejo e de parcerias com pesquisadores pode provocar problemas na destinação dos animais resgatados.
Ele defende um programa preventivo que concilie o atendimento às ocorrências com o monitoramento e a conservação das populações. Outro fator que pode influenciar a circulação dos jacarés é o período reprodutivo, que está em curso, segundo o especialista.
Nesta época, o Instituto Jacaré intensifica as atividades de coleta e monitoramento. Chuvas e busca por alimento
O biólogo Mário Moscatelli também aponta diferentes hipóteses para explicar a presença dos jacarés em áreas urbanas. Entre elas estão a supressão de ambientes naturais, o crescimento da população desses animais, uma possível redução da caça, a procura por áreas de alimentação e reprodução e as chuvas intensas.
— Dias de chuva mais intensos fazem elevar o nível dos canais e rios, e os jacarés aproveitam para dar uma volta. São várias as possibilidades, mas uma coisa é certa: nunca se meta com um jacaré.
Chame quem entende do tema e, dessa forma, ninguém sai machucado — alerta. Moscatelli explica que, quando não são perturbados, os animais tendem a procurar espontaneamente um local mais seguro.
O biólogo também destaca o potencial dos jacarés como ativos ambientais e econômicos para o ecoturismo. Segundo ele, essa possibilidade de uso sustentável ainda pode ser mais explorada no Rio de Janeiro.
Como agir ao encontrar um jacaré Os dois especialistas reforçam que moradores não devem tentar capturar, imobilizar ou provocar os animais.
Mesmo quando parecem tranquilos, os jacarés podem reagir rapidamente diante de uma aproximação. — Nunca se deve chegar perto ou tentar capturar os jacarés.
Pode não parecer, mas o bote é rápido e preciso. Tentar reproduzir técnicas feitas por especialistas pode levar à morte — alerta Freitas Filho.
A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima também reforça que a captura e o manejo de animais silvestres devem ser realizados apenas por equipes autorizadas e capacitadas. Além de configurar infração ambiental quando feitos sem autorização, esses procedimentos podem colocar pessoas em risco e provocar estresse intenso, lesões e até a morte dos animais, inclusive depois da soltura.
Segundo a pasta, o resgate deve ser solicitado quando houver risco para o animal ou para as pessoas. Nesses casos, os moradores devem acionar a Patrulha Ambiental pela Central 1746 da Prefeitura do Rio.
O Globo