Venda de água no CE ocorre com escolta policial após ameaças a comerciantes atribuídas a facção

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RECIFE, PE (FOLHAPRESS) – O abastecimento de água mineral em Banabuiú, no sertão do Ceará, está sendo realizado sob escolta policial após comerciantes receberem ameaças atribuídas à facção criminosa CV (Comando Vermelho). O comércio local suspendeu a venda por medo de represálias.

A operação logística foi iniciada na sexta-feira (31) pela Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do estado, com apoio da Cagece (Companhia de Água e Esgoto do Ceará). Filas de pessoas com garrafões de água foram registradas na cidade nos últimos dias.

Segundo a secretaria, a Cagece realiza a coleta de garrafões com água nos fornecedores e transporta a carga até Banabuiú, onde são comercializados. A pasta também diz que três suspeitos foram presos por ameaça e extorsão contra comerciantes na cidade.

O suspeito de ser o mandante foi identificado e se encontra no estado do Rio de Janeiro. Segundo a secretaria, um trabalho em conjunto está sendo feito com a Polícia Civil fluminense.

As três prisões em flagrante pelo crime de domínio social estruturado ocorreram em 22 de outubro. Os presos são Carlos Fernando da Silva Andrade, Francisco das Chagas de Lima da Silva e Cícero Kevin Gomes Farias.

As prisões decorreram de uma operação integrada das forças de segurança, com base em relatório de inteligência e investigação da Polícia Civil. Os levantamentos apontam a atuação do Comando Vermelho na cidade.

Em 19 de outubro, houve a divulgação de um texto intitulado Edital Banabuiú, assinado pela “Diretoria Banabuiú”. O comunicado condicionava a comercialização e a distribuição de água no município à autorização da facção, com advertência de que aqueles que descumprissem a orientação “sofreriam consequências”.

O texto também proibia a venda de determinada marca de água mineral, sob pena de perda dos garrafões e de fechamento dos estabelecimentos comerciais. Boletins de ocorrência também registram ameaças e exigências financeiras dirigidas a comerciantes por aplicativo de mensagens nos dias 20 e 21 de outubro.

Entre as mensagens, estava a cobrança de R$ 200 para permitir o funcionamento de estabelecimento comercial, sob ameaça de fechamento. Na audiência de custódia dos três suspeitos, o juiz Maycon Robert Moraes Tomé também cita notícias de cobranças semanais de aproximadamente R$ 750 no setor de distribuição de água, interrupção temporária das atividades de estabelecimento de venda de água e suspensão das aulas em escola pública municipal, em 21 de outubro, por falta de abastecimento.

Os levantamentos policiais apontam que Cícero Kevin atuaria com agiotagem e empréstimos informais, com utilização de estrutura criminosa para cobrança coercitiva de dívidas. Ele é réu por tráfico de drogas e foi indiciado em inquérito policial por lavagem de capitais.

Relatórios de inteligência indicam que Cícero Kevin seria uma liderança do grupo criminoso de Banabuiú. Francisco das Chagas, vulgo Chico Motos, também atua com empréstimos informais e utilização de integrantes da organização para cobrança de dívidas, segundo investigação.

Ele já foi condenado por tráfico de drogas e é réu por receptação. No momento da prisão em flagrante, a polícia encontrou na casa dele um revólver e munição.

Já Carlos Fernando é apontado como responsável pelo recebimento dos valores arrecadados para a organização criminosa. Ele foi condenado por tentativa de homicídio a 11 anos de reclusão e já cumpriu medidas socioeducativas por atos infracionais análogos aos crimes de roubo, tráfico de drogas, receptação, posse de arma de fogo e homicídio qualificado.

Na audiência de custódia, as defesas dos investigados alegaram ausência de situação de flagrância, ilegalidade na entrada de policiais nos domicílios e insuficiência de indícios individualizados de autoria, teses rejeitadas pelo juiz. O magistrado determinou a prisão preventiva (sem prazo de soltura) dos suspeitos.

“Consta dos autos que os autuados, em tese integrantes da organização criminosa Comando Vermelho, atuariam na engrenagem financeira de verdadeiro sistema de domínio social e econômico imposto pela facção ao Município de Banabuiú/CE, com divisão de tarefas entre liderança, executores de ameaças, cobradores e arrecadadores de valores”, escreveu o juiz.

Ao decidir pela prisão preventiva, o juiz citou relato de que policiais militares manifestaram receio de figurar nominalmente na investigação, “por temor de represálias contra si e seus familiares”. Segundo o magistrado, seis outros investigados, apontados como integrantes da mesma estrutura, incluindo a suposta liderança local, não foram localizados durante a operação.

O advogado Wallace Holanda, que faz a defesa de Cícero Kevin e Francisco das Chagas, afirmou em nota que as acusações não correspondem à verdade dos fatos e que não existem indícios mínimos de autoria. “Também serão examinadas as circunstâncias das prisões e a legalidade dos procedimentos realizados, com a adoção das medidas necessárias perante as instâncias competentes”, declara.

Procurada na manhã desta segunda (2), a defesa de Carlos Fernando disse que estava viajando e responderia assim que possível, mas não enviou posicionamento até a publicação deste texto. A Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará afirma que equipes do Policiamento Ostensivo Geral, Força Tática e Motopatrulhamento atuam diariamente em Banabuiú.

O policiamento na região foi reforçado. Além do tráfico de drogas, investigações apontam o Comando Vermelho envolvido em práticas como expulsão de moradores, tomada de imóveis, cobrança de pagamentos a comerciantes e restrição de atuação de empresas pelo país.

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