‘Vamos, Nico!’: Chavistas entoam lema em apoio a Maduro durante posse do novo Parlamento da Venezuela; vídeo
A instalação do novo Parlamento da Venezuela, nesta segunda-feira, foi marcada por manifestações explícitas de apoio a Nicolás Maduro, detido no fim de semana em uma operação militar dos Estados Unidos. Deputados da maioria chavista entoaram gritos de “vamos, Nico!” no início da sessão no Palácio Federal Legislativo, em Caracas, transformando a abertura do ano legislativo em um ato político em defesa do presidente.
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O lema, repetido durante a campanha eleitoral de 2024 de Maduro, ecoou no plenário enquanto os parlamentares tomavam posse para um novo mandato de cinco anos (2026–2031). A aliança de partidos que sustenta o chavismo mantém maioria absoluta na Assembleia Nacional, com 256 dos 285 deputados.
A sessão foi aberta pelo deputado governista Fernando Soto Rojas, o parlamentar mais idoso da Casa, como determina o regimento interno. Em discurso duro, ele classificou a captura de Maduro como um “sequestro” promovido pelo governo dos Estados Unidos.
— O presidente da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro Moros, foi sequestrado pelo governo dos EUA em um ataque bárbaro, traiçoeiro e covarde, de cunho fascista —afirmou. — O imperialismo ianque é o inimigo principal e fundamental do povo venezuelano, da região e do mundo. O senhor Trump pretende ser promotor, juiz e polícia do mundo. Da Venezuela bolivariana, dizemos: não conseguirão.
Chavistas entoam lema em apoio a Maduro durante posse do novo Parlamento da Venezuela
A abertura do Parlamento ocorre dois dias após o Tribunal Supremo de Justiça determinar que a vice-presidente Delcy Rodríguez assumisse o comando do país de forma interina, classificando a ausência de Maduro como temporária. Até o momento, porém, não houve anúncio oficial da cerimônia de posse, apesar da expectativa inicial de que ela ocorresse durante a sessão legislativa.
Do ponto de vista do governo venezuelano, o dia foi tratado como uma tentativa de demonstrar normalidade institucional e continuidade do funcionamento do Estado, apesar da crise política. A pauta do Parlamento, neste primeiro dia do novo período legislativo, concentrou-se exclusivamente na instalação da Casa e nos discursos em defesa do chavismo.
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A sessão também foi marcada por aplausos à chegada de Jorge Rodríguez, irmão de Delcy e figura central do governo, que presidiu a Assembleia Nacional no período anterior e foi reconduzido ao cargo. Médico psiquiatra de formação, ele integra o círculo mais próximo de Maduro e atua há anos como negociador político do regime.
Outro momento de destaque foi a presença de Nicolás Maduro Guerra, filho do presidente deposto e deputado desde 2021. Ele foi aplaudido ao entrar no plenário e, em discurso, elogiou o pai e a madrasta, Cilia Flores, ambos capturados pelas forças americanas. O deputado também declarou seu “apoio incondicional” à presidência de Delcy, afirmando que “a pátria está em boas mãos”.
— Graças à luta do povo mobilizado dentro e fora do país, eles voltarão; nossos olhos os verão — disse. — O direito internacional existe para frear impérios. Se eles são Monroe, nós somos Simón Bolívar.
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Durante a sessão, um aplauso coletivo foi dirigido à cadeira vazia de Cilia Flores, deputada eleita em 2020, mas que exercia, na prática, o papel de primeira-dama. Ela foi capturada junto com Maduro e não compareceu ao Parlamento. O vice-presidente da Assembleia Nacional, Stalin González, aproveitou a ocasião para pedir anistia geral na Venezuela.
— Exigimos o fim imediato da perseguição, da criminalização da dissidência e a libertação de todos os presos políticos.
Mudança de tom
Maduro enfrenta acusações de narcotráfico e terrorismo em um tribunal federal de Nova York. Enquanto isso, Delcy Rodríguez, designada presidente interina por um período inicial de 90 dias, aguarda a formalização de sua posse em meio a pressões externas e ao esforço do chavismo para manter coesão política e controle institucional.
Delcy, de 56 anos, é uma das figuras mais influentes do núcleo dirigente. Advogada, diplomata e política de longa trajetória, ela ocupava a Vice-Presidência desde 2018 e já havia exercido cargos estratégicos nos governos de Hugo Chávez e Maduro, incluindo os ministérios das Relações Exteriores, da Comunicação, da Fazenda e do Petróleo. Nos últimos anos, esteve à frente de iniciativas voltadas à reformulação da política econômica, mantendo o controle estatal sobre setores-chave ao mesmo tempo em que buscava diálogo com o setor privado.
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As primeiras manifestações públicas de Delcy após a deposição de Maduro revelaram mudanças de tom. Em um pronunciamento inicial, ela denunciou a operação americana e reiterou que Maduro continuava sendo “o único presidente” da Venezuela. Já em declaração divulgada no domingo à noite, adotou uma linguagem mais conciliadora, defendendo “coexistência pacífica” e afirmando que a Venezuela, os Estados Unidos e a região “merecem paz e diálogo, não guerra”.
“Consideramos prioritário avançar rumo a uma relação internacional equilibrada e respeitosa entre os EUA e a Venezuela, e entre a Venezuela e os países da região, baseada na igualdade soberana e na não interferência. Esses princípios norteiam nossa diplomacia com o resto do mundo”, escreveu Delcy nas redes sociais. “Estendemos um convite ao governo dos EUA para trabalharmos juntos em uma agenda de cooperação, orientada para o desenvolvimento compartilhado, dentro da estrutura do direito internacional”.
Presidente interina da Venezuela, Delcy Rodriguez, em reunião com a cúpula do governo
Reprodução/Instagram
A relação com Washington permanece no centro das atenções. O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que Delcy teria demonstrado disposição para cooperar com seu governo, mas também fez ameaças públicas, dizendo que ela “pagaria um preço muito alto, provavelmente maior do que o de Maduro”, caso não agisse conforme o esperado por Washington. Em resposta, Delcy declarou estar aberta à cooperação, desde que dentro dos limites do direito internacional.
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Entre suas primeiras medidas como presidente interina, Delcy anunciou a criação de duas comissões governamentais: uma voltada à libertação de Maduro e de sua esposa e outra destinada a garantir e consolidar projetos de soberania alimentar e abastecimento no país. Ela também visitou feridos nos ataques que resultaram na deposição de Maduro, classificando-os como jovens que defenderam a soberania nacional.
Filha do dirigente político de esquerda Jorge Antonio Rodríguez, morto em 1976 durante um interrogatório por agentes de segurança, Delcy Rodríguez construiu sua trajetória política ao lado do irmão, Jorge, ambos profundamente ligados ao projeto chavista desde seus primórdios. Apesar de serem vistos por analistas como representantes de uma ala mais pragmática do governo, especialistas destacam que os principais centros de poder continuam concentrados nos ministérios responsáveis pela segurança e pelas Forças Armadas.
(Com AFP e New York Times)
