Valor 1000: Na liderança da bioenergia, Inpasa Agroindustrial aproveita as vantagens do grão inteiro

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A estratégia da Inpasa inclui processamento próximo das áreas de produção Julio Bittencourt/Valor O etanol de milho é um negócio historicamente americano e o etanol brasileiro nasceu nos canaviais do interior de São Paulo. Mas a maior biorrefinaria de etanol do mundo em uma única instalação fica longe de ambos, em Sinop (MT), a mais de 2 mil quilômetros dos centros consumidores do Sudeste. De lá saem etanol, farelo proteico e óleo vegetal, todos extraídos do mesmo grão. A unidade faz parte da operação da Inpasa Agroindustrial, campeã do setor de bioenergia no anuário Valor 1000. A empresa encerrou 2025 com receita líquida de R$ 22,8 bilhões, alta de 67% sobre o ano anterior. O Ebitda ajustado subiu 80%, para R$ 7,3 bilhões, e o lucro líquido praticamente dobrou, chegando a R$ 4,9 bilhões. Se o resultado financeiro impressiona, o avanço da operação não fica atrás. A empresa processou 11,6 milhões de toneladas de grãos no Brasil no ano passado, 45% a mais que em 2024. Isso graças à nova unidade de Balsas, no Maranhão, que começou a moer milho em março de 2025 e só atingiu a capacidade plena de processamento em setembro, quando a segunda etapa da obra se encerrou. Todo o volume extra virou produto. Etanol e DDGS (grãos secos de destilaria, o farelo proteico) cresceram na mesma proporção que o processamento e o óleo de milho, 47%. A companhia foi fundada no Paraguai em 2006 e abriu a primeira unidade brasileira, em Sinop, em 2019. “O resultado de 2025 é consequência de decisões construídas ao longo de muitos anos”, diz Éder Odvar Lopes, CEO da Inpasa. “Esse período foi importante para construirmos conhecimento técnico, disciplina operacional e um modelo de biorrefinaria que pudesse ser replicado em maior escala.” Hoje são oito plantas em operação, seis no Brasil e duas no Paraguai. Lopes, CEO: expansão internacional Divulgação O balanço de 2025 traz esse reflexo. Um investimento certeiro foi instalar as fábricas em locais próximos das regiões produtoras de grãos, o que encurta a logística de entrada. Outra estratégia implementada foi tratar o DDGS e o óleo de milho como produtos nobres. Juntas, as duas linhas renderam R$ 4,2 bilhões em 2025, com altas de 72% e 77%. “Essa divisão cobre cerca de 40% do custo da matéria-prima e funciona como hedge em ciclos de volatilidade das commodities”, afirma Lopes. Há ainda um terceiro trunfo, menos visível. A Inpasa montou sua própria rede de silos, para guardar o milho e processá-lo no ritmo mais vantajoso. A capacidade estática supera 5,6 milhões de toneladas, quase metade do que a companhia processa em um ano. “Assim, temos capacidade de originar a matéria-prima no momento certo da colheita e manter nossas indústrias operando a pleno vapor em 365 dias por ano”, explica o CEO. O ativo foi testado em 2025, quando o custo médio dos grãos comprados subiu 12,7%. Mesmo assim, a margem bruta avançou 0,2 ponto percentual, para 41,5%. No ano passado, cana e milho seguiram em sentidos opostos. A safra 2025/2026 rendeu 37,5 bilhões de litros de etanol no país, recorde da série histórica da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), com uma composição inédita: o etanol de cana recuou 6,9%, para 27,33 bilhões de litros, enquanto o de milho avançou 29,8%, para 10,17 bilhões. O grão responde normalmente por pouco mais de um quarto do etanol brasileiro, ante menos de 1% uma década atrás. Só a Inpasa produziu 5,4 bilhões de litros no período, além de 2,7 milhões de toneladas de DDGS e 284,9 mil toneladas de óleo vegetal.

Arte/Valor Crescer nesse ritmo tem custo, e ele foi pago com dinheiro do próprio negócio. As operações geraram R$ 5 bilhões de caixa no ano passado, 113% mais que em 2024, o suficiente para bancar os R$ 3,8 bilhões aplicados nas obras do período. A dívida líquida subiu para R$ 9,3 bilhões, mas, como o resultado cresceu mais rápido que o endividamento, a alavancagem recuou de 1,7 para 1,3 vez o Ebitda. É esse o padrão dos últimos cinco anos, em que a Inpasa investiu cerca de R$ 15 bilhões e viu a receita crescer 73,2% ao ano, em média. Desse pacote, uma parte já está de pé. A biorrefinaria de Luís Eduardo Magalhães (BA) custou R$ 1,3 bilhão, começou a operar em abril e produz 470 milhões de litros de etanol por ano. Outras três unidades seguem em obras. A maior é a de Rio Verde, em Goiás, orçada em R$ 2,5 bilhões e com capacidade para 1 bilhão de litros anuais, prevista para o fim de 2026. Ainda neste ano, uma ampliação em Nova Mutum (MT) acrescenta 500 milhões de litros à planta que está em operação, ao custo de R$ 700 milhões. A última fica em Rondonópolis, no mesmo Estado, deve entrar em operação no primeiro trimestre de 2027 e responde sozinha por R$ 2,8 bilhões e mais 1 bilhão de litros. Com essa estratégia, a Inpasa projeta saltar de 6,7 bilhões para 8,6 bilhões de litros de etanol por ano. A demanda para absorver esse volume ainda pode variar muito. No Brasil, a mistura obrigatória de anidro na gasolina subiu de 30% para 32% em 1º de agosto, por 180 dias prorrogáveis. Lopes também aposta na Lei do Combustível do Futuro, que abre frentes na aviação e no transporte marítimo. “Estamos ampliando nossa presença internacional, fortalecendo certificações e desenvolvendo produtos capazes de atender mercados que exigem cada vez mais rastreabilidade e menor intensidade de carbono”, afirma. Em janeiro, a Inpasa habilitou-se como a primeira exportadora brasileira de DDGS para a China e embarcou 62 mil toneladas. A empresa vem mapeando os obstáculos à expansão. Os juros altos encarecem o capital e exigem seletividade nos aportes. A reforma tributária, a partir de 2027, obrigará as empresas a readequar sistemas fiscais, contratos e incentivos regionais. E escoar etanol do Centro-Oeste até os portos segue como problema. Enquanto a escala cresceu, a pegada de carbono nas operações encolheu. Entre 2021 e 2025, a intensidade de emissões dos escopos 1 e 2 caiu 59%, de 16,5 para 6,8 quilos de CO2 equivalente por tonelada de milho processado. A companhia emitiu mais de 2,2 milhões de CBIOs, os créditos de descarbonização que o programa RenovaBio concede aos produtores de biocombustíveis e que as distribuidoras precisam comprar para cumprir metas de redução de emissões. Queimando biomassa em caldeiras multicombustíveis, a Inpasa gerou 2.080 GWh, o suficiente para abastecer suas atividades e ainda exportar 1,58 milhão de gigajoules à rede. “Quando avaliamos um novo investimento, consideramos a origem da matéria-prima, matriz energética, consumo de água, logística, emissões, aproveitamento dos coprodutos e os impactos econômicos e sociais da operação na região”, diz Lopes.

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