A operação da Gerdau na América do Norte responde por três quartos do Ebitda Julio Bittencourt/Valor A visão global da Gerdau garantiu bom desempenho e a liderança no setor de metalurgia e siderurgia no anuário Valor 1000. A companhia obtém bons resultados em sua operação na América do Norte, enquanto as vendas e o lucro no Brasil registram quedas pela grande oferta de aço importado no mercado local. Essa realidade levou a direção da siderúrgica a atuar no Brasil em “modo sobrevivência”, como define Gustavo Werneck, CEO da empresa. As iniciativas de expansão, no momento, privilegiam os Estados Unidos. “O investimento vai para onde as perspectivas são melhores e se conseguem os melhores ganhos”, diz Werneck. “Hoje são os Estados Unidos. Esperamos que no futuro o Brasil volte a ser atrativo.” Em 2025, o consumo aparente de aço nos Estados Unidos cresceu 1,8% e a projeção de expansão para 2026 é de 3%, segundo o American Iron and Steel Institute (AISI). Mas as vendas das siderúrgicas que produzem em território americano crescem na casa de 5% ao ano no mercado interno, ocupando o espaço deixado pelo aço importado, sob impacto de medidas protecionistas do governo americano. A Gerdau está investindo R$ 1,2 bilhão em sua unidade de Midlothian, no Texas. Vai ampliar a capacidade anual de aços longos em quase 15%, para 2 milhões de toneladas por ano. A conclusão da expansão deve ocorrer neste ano e o efeito potencial no Ebitda é de R$ 275 milhões. “A nossa perspectiva é anunciar novos investimentos em expansão nos Estados Unidos”, diz Werneck. “O país está se reindustrializando e a demanda por aço é crescente.” A Gerdau, segundo o executivo, tem registrado expansão nas vendas para os setores de infraestrutura, energia e tecnologia da informação, com a construção acelerada de data centers. Em volumes, a produção e a venda de aço da Gerdau são quase semelhantes no Brasil e na América do Norte, mas a receita e o lucro são bem diferentes. No primeiro semestre de 2026, a operação brasileira vendeu 2,67 milhões de toneladas de aço bruto, queda de 4% em relação ao mesmo período do ano passado. A receita líquida foi de R$ 12,96 bilhões e o lucro bruto, de R$ 547 milhões. Na operação América do Norte, que engloba Estados Unidos, Canadá e México, as vendas no semestre foram de 2,62 milhões de toneladas, crescimento de 5,6% na comparação com o mesmo período de 2025. A receita líquida obtida foi de R$ 19,5 bilhões e o lucro bruto, de R$ 4,25 bilhões. Werneck, CEO: data centers geram demanda Claudio Gatti/Divulgação No conjunto, a Gerdau obteve no semestre um Ebitda ajustado (lucro antes de juros, impostos, depreciações e amortizações) de R$ 6,39 bilhões, 28,7% superior ao obtido no primeiro semestre do ano passado. A operação América do Norte respondeu por 76% do Ebitda. O Brasil contribuiu com 20% do resultado e o restante veio da operação América do Sul, que engloba usinas no Peru, Argentina e Uruguai. “Nunca imaginamos que nossos resultados na América do Norte poderiam ser tão superiores aos do Brasil”, diz Werneck. Em 2026, o plano de investimentos da companhia é de R$ 4,7 bilhões. No Brasil, a maior parte dos recursos se destina a manutenção e ações para elevar produtividade e competitividade. “Paramos de investir para crescer no Brasil. Não adianta expandir e ficar com capacidade ociosa”, afirma o CEO. As operações em território brasileiro vêm se tornando mais enxutas — mas isso não deteve a evolução da companhia em reduzir o impacto de suas atividades na crise climática. A Gerdau está investindo R$ 450 milhões em um novo centro de reciclagem de aço em Pindamonhangaba (SP), que permitirá à companhia processar novos tipos de sucata, a serem inseridos em seu processo produtivo. Hoje, 70% da produção de aço da Gerdau utiliza sucata ferrosa como insumo. A estratégia permite que a empresa registre a emissão de 0,85 tonelada de dióxido de carbono equivalente (CO2e) por tonelada de aço produzida, enquanto a média global é de 1,92 tonelada de CO2e, de acordo com a World Steel Association. No segundo semestre, a Gerdau prevê aceleração das atividades para o ritmo comercial em seu projeto de mineração sustentável Miguel Burnier, em Ouro Preto (MG). A estimativa é de um ganho de R$ 1,1 bilhão por ano no Ebitda da companhia. A mina terá capacidade de produção anual de 5,5 milhões de toneladas de minério com alto teor de ferro (65%), o que reduz as emissões de CO2 na transformação siderúrgica. O empilhamento dos rejeitos será a seco, eliminado o uso de barragens. E o minério será levado até a usina de Ouro Branco (MG) por um mineroduto de 13 quilômetros, evitando o uso de 400 caminhões por dia e a emissão de 17 mil toneladas de CO2 por ano.
Arte/Valor A Gerdau avança nessa questão enquanto lida com a situação crítica da grande oferta de aço chinês barato no Brasil. Segundo Werneck, em condições competitivas iguais, a produção de aço brasileira está entre as mais eficientes do mundo e supera a chinesa. “Nós comparamos os custos de produção e os indicadores de desempenho da Gerdau com os principais produtores internacionais e estamos na frente”, diz o executivo. “No entanto, no Brasil, temos que lutar para continuar vivendo, diante da concorrência predatória.” A empresa tem capacidade produtiva de 7,9 milhões de toneladas anuais de aço bruto, mas vem usando apenas 70% disso. De acordo com o Instituto Aço Brasil, a taxa de ocupação média da indústria siderúrgica brasileira foi de 64% no primeiro semestre de 2026. Em 2025, a produção brasileira de aço bruto recuou 2,2% em relação ao ano anterior, enquanto as importações de aços laminados cresceram 20,5%. Como parte da reação, em agosto a Gerdau readequou sua unidade de Pernambuco, desativando a aciaria e a laminação e concentrando as atividades em trefilados, como telas, arames e pregos. Em 2024, a empresa já havia decretado a hibernação de sua unidade Barão de Cocais (MG), para reduzir custos fixos. O Instituto Aço Brasil calcula que, em 2025, a taxa de penetração de importados chegou a 21% no mercado nacional, o dobro do patamar histórico, na casa de 10%. No início de 2026, o governo federal adotou medidas de defesa comercial para 19 tipos de produto siderúrgico, com adoção de cotas e taxas. As importações recuaram 18% no primeiro semestre. Mesmo assim, alcançaram uma taxa de penetração de 19%, segundo o Instituto Aço Brasil. “As medidas adotadas são muito tímidas e não resolvem o problema”, diz Werneck. O setor siderúrgico aguarda a conclusão de uma investigação de dumping contra produtores chineses de aço e o anúncio de novas medidas. “Não queremos medidas protecionistas. O que buscamos são condições de competição isonômicas”, diz o executivo.
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