Na contramão de muitos negócios, na CBMM, líder no setor mecânica do Valor 1000, prêmio do Valor Econômico e Época NEGÓCIOS, a concorrência não tira o sono dos executivos. A companhia é responsável por cerca de 75% das vendas globais de produtos derivados do nióbio, sobretudo o ferronióbio, liga utilizada na fabricação de aços mais resistentes. Com a liderança consolidada, o foco agora é driblar a falta de expansão da produção siderúrgica com a busca de novas aplicações e materiais para o elemento químico. “Todo dia durmo pensando em como a gente aumenta o tamanho do mercado”, diz o CEO, Ricardo Lima. “Esse é nosso principal desafio." A visão é compartilhada por especialistas. “Normalmente, uma empresa cresce disputando fatia de mercado, mas a CBMM não tem esse problema: ela praticamente é o mercado”, afirma Gabriel Castro, analista de investimentos do Grupo Mide. “Então, seu crescimento não vem de produzir mais do mesmo, vem de criar demanda nova.” Com base nessa fórmula, a empresa registrou no ano passado alta de 4,7% no volume de vendas de ferronióbio, crescimento de 8,3% na receita líquida, para R$ 14,5 bilhões, e margem Ebitda de 70,5%.
Para este ano, Lima prevê alta de 10% no volume comercializado, que deve chegar a 110 mil toneladas, destinadas a mais de 500 clientes de 50 países – 95% da produção é destinada à exportação. Para isso, a companhia, controlada pela família Moreira Salles, aposta em duas frentes para conquistar mercados mundo afora. Uma busca o desenvolvimento de novos produtos feitos com o nióbio – de baterias a equipamentos médicos. A outra visa ampliar o uso do elemento na composição de aços. “Se a gente não fizer nada, vai ficar parado no que está, pois não existe crescimento orgânico [na produção mundial de aço]”, argumenta Lima. Justamente para não ficar parada, a CBMM estima investimentos de R$ 13 bilhões entre 2026 e 2031 na modernização e infraestrutura das plantas de Araxá, em Minas Gerais, e na criação de novos produtos e tecnologias. A cifra também se destina à ampliação da capacidade de produção. “Já começamos a chegar perto da nossa capacidade de 150 mil toneladas anuais, então temos de aumentá-la”, diz o CEO.
Mesmo sem o aumento planejado, a capacidade produtiva é superior à demanda global de ferronióbio, calculada pela empresa em 133 mil toneladas. Diante do descompasso, para criar novos mercados, a empresa injeta entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões por ano em seu programa de tecnologia. São 200 projetos em diferentes estágios de maturidade, conduzidos pelo time interno de cerca de 120 profissionais, muitas vezes em parceria com clientes e universidades do Brasil e exterior. É o caso das pesquisas realizadas com a Universidade do Texas em Austin, nos Estados Unidos, ao lado da equipe de John Goodenough, vencedor do Nobel de Química de 2019 pelo desenvolvimento de baterias de lítio.
Grande aposta da CBMM, as baterias feitas com íons de lítio com nióbio vêm sendo testadas pela Toshiba e a Volkswagen Caminhões e Ônibus. Na avaliação de Castro, a tecnologia promete. “O nióbio na bateria entrega exatamente o que esse segmento precisa: recarga completa em menos de dez minutos e vida útil de mais de dez mil ciclos", diz. Hugo Sandim, chefe do Departamento de Engenharia de Materiais da Escola de Engenharia de Lorena da Universidade de São Paulo (USP), destaca, além das baterias, outros usos promissores para o nióbio, como em dispositivos supercondutores, para aceleradores de partículas e equipamentos de ressonância magnética, na produção de materiais biocompatíveis, usados, por exemplo, em próteses, nos segmentos aeroespacial, de armamentos e de dispositivos para tornar computadores mais rápidos.
Muitas dessas aplicações já estão no radar da CBMM. Lima destaca, entre elas, os equipamentos de ressonância magnética, mercado com espaço para crescer em países populosos, como China e Índia. Outro campo é o da óptica, com o óxido de nióbio em lentes como as de câmeras de segurança, de veículos e de equipamentos de reconhecimento facial. Na eletrônica, filão “expressivo” segundo Lima, o elemento é empregado para reduzir ruídos magnéticos e permitir a redução do tamanho de componentes. Na indústria aeroespacial ligas de nióbio se destinam à fabricação de turbinas de aviões, equipamentos para satélites e sistemas de propulsão e exaustão de foguetes. “O fio condutor de tudo são as aplicações que pagam muito mais por quilo do que o aço”, diz Castro.
Como resultado da diversificação, a participação da siderurgia na receita da companhia caiu de cerca de 90% em 2016 para 75% em 2025. Já a fatia dos outros negócios deve crescer dos atuais 25% para 30% até 2030, na previsão do CEO. Depois disso, a proporção deve se manter estável. “Felizmente, esses números não devem mudar muito, pois estamos também crescendo no aço, que vai ser sempre o principal negócio pelo tamanho do mercado”, diz Lima.
Um dos argumentos para ampliação da quantidade de nióbio na composição do aço é ambiental. Isso porque sua utilização reduz a emissão de CO2 nas siderúrgicas, por exigir menos energia na fundição. Para demonstrar os ganhos, a CBMM desenvolveu, em parceria com o centro tecnológico Ceit, da Espanha, simuladores que, com algoritmos, calculam os efeitos da substituição de outros elementos pelo nióbio sobre custos, eficiência e emissões das siderúrgicas. “Os clientes veem as vantagens e, a partir daí, passam a utilizar o nióbio com uma intensidade maior”, afirma Lima. A empresa também busca reduzir as emissões de gases de efeito estufa dentro de casa. Entre 2014 e 2024, a intensidade das emissões dos escopos 1 e 2 caiu 55%. Em 2022 foi criada a meta de redução de 30% de emissões até 2030 e em 2025 a redução acumulada chegava a 24%. Desde 2019 a CBMM também utiliza energia elétrica 100% renovável. Para reduzir as emissões geradas diretamente pelas operações a companhia testa a substituição do GLP por biometano. E novas plantas, como a unidade de óxidos de nióbio, são projetadas para não depender de combustíveis fósseis – estão em teste a substituição parcial do coque de petróleo por carvão vegetal e do diesel por eletricidade e biodiesel. Mas não só a redução de emissões e a capacidade de criar demanda são marca da companhia. O acesso a um dos melhores depósitos de nióbio do mundo é outro fator fundamental para os resultados, na avaliação de Castro. “Economistas chamam isso de renda de escassez”, diz. “Eu chamo de ter tirado a sorte grande geológica e, mérito deles, ter passado 70 anos investindo em pesquisa para transformar pedra em tecnologia.”
Epoca Negócios