Valor 1000: Cury, campeã do setor de empreendimentos imobiliários, prioriza habitação popular

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Fonte da notícia: Valor Valor

Cidade Lapa, que engloba múltiplos condomínios residenciais e fases na zona oeste da cidade de São Paulo Julio Bittencourt/Valor Fundada nos anos 1960 em São Paulo de olho nas linhas de crédito do Banco Nacional da Habitação (BNH), a Cury foi uma das primeiras empreiteiras de maior porte a aderir ao Minha Casa, Minha Vida (MCMV), na década passada. Hoje, tem cerca de 95% do portfólio enquadrado em suas regras. Em 2025, quando o programa habitacional do governo federal respondeu por cerca de metade (49,6%) das unidades lançadas no país, segundo a pesquisa Indicadores Imobiliários Nacionais da Câmara Brasileira da Indústria da Construção, a construtora entrou para o índice Ibovespa e obteve resultados recordes: receita líquida de R$ 5,4 bilhões (37,5% acima do ano anterior), lucro líquido de R$ 1,1 bilhão (alta de 54,7%) e distribuição de dividendos de R$ 1,4 bilhão (alta de 179,6%). Pela primeira vez, a Cury Construtora alcança o primeiro lugar no setor de empreendimentos imobiliários do Valor 1000. O foco no programa Minha Casa, Minha Vida conta parte do sucesso recente da Cury, mas não a história toda. Em 2025 a taxa Selic subiu para 15%, o patamar mais elevado desde 2006. Foi um duro golpe para a construção civil, setor com custo de capital elevado, especialmente sensível a juros. Mas a empresa resistiu bem, com dinheiro em caixa e equivalentes (R$ 1,79 bilhão) maior do que a dívida bruta (R$ 1,47 bilhão) — um saldo de R$ 316 milhões. Pela primeira vez, recebeu da agência classificadora de risco Moody’s Brasil a nota mais alta para emissores de dívida: AAA.br. A baixa alavancagem se deve em parte ao crédito associativo, mecanismo nascido nos anos 1990 — em um momento de escassez de financiamento, após o fim do BNH — e adotado até hoje. O cliente obtém crédito bancário junto à Caixa Econômica Federal, e com esse recurso a construtora gira a obra. “O modelo nos permite ter um mínimo de exposição”, afirma Leonardo Mesquita, co-CEO da Cury Construtora. A empresa adotou o modelo associativo como princípio, não como solução conjuntural. “Independentemente de termos ou não acesso a recursos, uma coisa não mudou desde aquele tempo: dinheiro no Brasil é caro”, diz. Mesquita: modelo com baixa alavancagem Claudio Belli/Divulgação A Cury reduz custos ao adotar um foco bem definido em perfil de comprador e geografia. A prioridade na habitação popular fica expressa no preço médio por unidade: R$ 308,3 mil. Dos 37 lançamentos de 2025, 25 foram em São Paulo e 12 no Rio de Janeiro — as duas maiores capitais do país e suas regiões metropolitanas, nada mais. “Ambas as praças incentivam a construção de imóveis de baixa renda, permitindo maior aproveitamento dos terrenos e reduzindo a cobrança de outorga onerosa”, diz o relatório de rating da Moody’s. “Essa profundidade de mercado foi importante para a manutenção das margens no período de alta inflação, como em 2019, quando a Cury não apresentou impactos relevantes. Por último, a limitação geográfica também permite maior controle sobre os canteiros”. Com tecnologia, a empresa está conseguindo expandir sem se exceder. “A Cury sempre foi considerada muito eficiente, mas muitos diziam que isso se devia ao tamanho pequeno”, afirma Mesquita. “Hoje, acabamos nos tornando uma empresa relevante no mercado, sem perder eficiência.” Em 2025, todos os 37 projetos usaram o sistema BIM (Building Information Modeling), que amplia a integração e a previsibilidade das etapas construtivas por meio de modelos digitais. A empresa adotou metodologias como Lean Construction, voltada à redução de desperdícios, e 55 robôs RPA (softwares de automação que executam tarefas digitais repetitivas). A inteligência artificial (IA) ajudou a Cury a ganhar agilidade e baixar custos longe dos andaimes e betoneiras. “No ano passado, um projeto nosso parou porque um grupo de desenvolvedores simplesmente nos abandonou. Eles receberam uma proposta e foram embora de um dia para outro”, diz Mesquita. “Com ajuda da IA, estamos desenvolvendo mais ideias em menos tempo.” O resultado foi uma digitalização acelerada de processos comerciais, de atendimento ao cliente e de controle de estoque.

Arte/Valor Após o IPO na B3, em 2020, a Cury observou a necessidade de formalizar seu compromisso socioambiental. O Instituto Cury investiu R$ 1,4 milhão em iniciativas que beneficiaram oito mil pessoas, incluindo programas de inclusão de mulheres na construção civil e reaproveitamento de uniformes de trabalhadores por cooperativas de costureiras no Porto Maravilha, no Rio. A empresa recebeu o Selo Ouro no Programa Brasileiro GHG Protocol da Fundação Getulio Vargas e figura entre as 100 melhores do Anuário de Integridade ESG 2025. Em 2026, a Cury lançou a iniciativa Raízes Cury, em parceria com a Fundação SOS Mata Atlântica, com meta de plantar uma muda de árvore a cada duas unidades lançadas — cerca de 15 mil novas árvores nos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro até o fim do ano. Os bons resultados da Cury em 2025 estão se repetindo em 2026. O balanço do segundo trimestre (2T26), divulgado em agosto, trouxe uma receita operacional líquida recorde, de R$ 1,691 bilhão (25,5% acima do 2T25). Segundo a empresa, o resultado se deve a avanços de produtividade nas obras e foco em eficiência operacional. A companhia reportou geração de caixa de R$ 144,9 milhões — o que representa o 29º trimestre consecutivo de fluxo positivo. De 13 instituições financeiras que fazem cobertura das ações CURY3 negociadas na B3 — como Bank of America, Citi, Goldman Sachs, J.P. Morgan e UBS —, todas recomendaram “compra” após a divulgação dos resultados do segundo trimestre de 2026. “Vemos os resultados da Cury no 2T26 como positivos e amplamente em linha com nossas expectativas”, diz o relatório da XP Investimentos. “A sólida geração de caixa e a distribuição de dividendos, implicando dividend yield anualizado de 10,3%, foram os principais destaques do trimestre. Reiteramos nossa recomendação de compra e a Cury como nossa principal escolha no setor.” Nos últimos cinco anos (até 14/8), as ações da Cury acumularam alta de 286,25% — consideravelmente acima do desempenho do índice Ibovespa (37,74%) e de pares na construção civil. Para 2027, Mesquita projeta continuidade, numa mistura de otimismo com cautela. “O que a gente quer para a frente é manter, e não perder esses princípios”, diz. O ambiente macroeconômico segue como principal variável: juros elevados comprimem margens, dificultam comparações de retorno e limitam o ritmo de expansão. “A gente poderia fazer muito mais, em um ambiente pelo menos mais tranquilo”, afirma.

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