Valor 1000: Cansaço e desalento tendem a cobrar mais do presidente e tornam a eleição difícil de se prever

Valor 1000: Cansaço e desalento tendem a cobrar mais do presidente e tornam a eleição difícil de se prever - Foto
Fonte da notícia: Valor Valor

Esq p dir: Maria Cristina Fernandes, do Valor; Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group; Lauro Jardim, de O Globo, e Maria Fernanda Delmas, diretora do Valor Rogerio Vieira/ Valor A eleição presidencial deste ano tem sido marcada por um desalento profundo do eleitor com as candidaturas dos líderes das pesquisas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), e esse desânimo torna o resultado das urnas imprevisível. Essa é a avaliação do diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group e colunista do Valor, Christopher Garman. “A eleição vai ser muito apertada.” Ao participar de um debate sobre o cenário eleitoral durante a premiação do Valor 1000, em São Paulo, com os colunistas Maria Cristina Fernandes, do Valor, e Lauro Jardim, de O Globo, Garman disse que as pesquisas têm mostrado o desânimo e a falta de esperança até mesmo de eleitores bolsonaristas e lulistas com seus candidatos. “O lulista votou [em 2022] um pouco com mote de ter a ascensão social que teve nos dois primeiros mandatos de Lula. Mas o que vemos é uma classe média com sinal de estagnação, custo de vida e certa decepção que expectativas não foram realizadas”, disse. “Do lado bolsonarista, o filho [Flávio Bolsonaro] não é igual ao pai [Jair Bolsonaro]. Vemos um grau de pessimismo que não vemos há muito tempo. Há um desalento maior e falta de mobilização de ambos os campos”, afirmou o cientista político.

No debate, mediado pela diretora de redação do Valor, Maria Fernanda Delmas, Garman afirmou que o noticiário carregado de notícias sobre corrupção tem feito com que os eleitores perdessem a esperança. “O ambiente de desalento deixa a eleição muito difícil de se prever o resultado.” Na avaliação de Lauro Jardim, a eleição até agora não trouxe nenhum grau de emoção. “As pesquisas mostraram que havia espaço para ‘outsider’. O fato é que ninguém conseguiu ocupar esse espaço”, afirmou. “As pessoas talvez ansiavam por um candidato que trouxesse um novo discurso. O que se tem é a repetição desde 2018. São eleições parecidas, com candidatos que não trazem emoção.” Para Maria Cristina Fernandes, o lado positivo do cansaço do eleitor é que isso mostra a institucionalização da democracia e das eleições. “A rotinização das eleições e da democracia é entediante. É o lado positivo”, avaliou. No entanto, destacou que o cansaço com “os Poderes de costas” para o Brasil e para as eleições geram o desalento. Como exemplo, citou a crise sem precedentes enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal, com uma “guerra intestina” entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes. “A corrupção está alçando a segunda maior preocupação, depois da segurança. Há um cansaço com tudo o que está aí. É um cansaço que tende a cobrar preço maior do incumbente.” Garman afirmou que além da corrupção, o governo Lula deve se preocupar com a queda em sua aprovação. Em geral, lembrou o cientista político, a aprovação e a avaliação positiva de um governo melhoram com o início da campanha eleitoral. Não foi o que aconteceu com Lula. O cientista político ressaltou que o noticiário carregado com notícias negativas para o governo, sobre corrupção, aprofunda o pessimismo do eleitor. Somado a isso, está a queda na aprovação do governo. “Esse é o maior sinal de alerta da campanha de Lula”, afirmou, dizendo que a Eurasia rebaixou a probabilidade de reeleição do presidente. “Mas temos sete semanas de campanha pela frente. O governo tem capacidade de reagir. Flávio ainda não foi testado, vai sofrer mais ataques.” Jardim avaliou que tanto a campanha de Lula como a de Flávio têm dificuldade em responder a casos de corrupção. “[A corrupção] Constrange as duas campanhas.” Maria Cristina criticou também a centralidade que o Supremo Tribunal Federal terá na eleição, repetindo o cenário de 2022. “É desolador ver mais uma eleição presidencial com um Supremo com centralidade tão determinante”, disse. “Em 2022 pode-se dizer que havia uma ameaça à democracia e que a intervenção do STF se fez necessária. Mas hoje estamos em uma situação de normalidade e vemos que essa guerra intestina é uma guerra deles, é o Supremo se fagocitando.” Ajuste fiscal Os colunistas criticaram a falta de propostas dos candidatos sobre política fiscal. Garman, no entanto, ponderou que as equipes dos presidenciáveis têm um diagnóstico parecido sobre o cenário econômico e a necessidade de ajuste fiscal. “As equipes dos candidatos estão com o mesmo diagnóstico. A pergunta não é se vai haver algum ajuste fiscal após a eleição, mas qual a amplitude sobre a correção de rumos e o que vem depois, porque 2027 vai ser ano difícil”, disse o cientista político. “Os candidatos não divergem do diagnóstico. Isso é salutar.” Maria Cristina avaliou que a crise institucional do STF, em plena campanha, afasta o debate sobre temas relevantes como a política fiscal. “A discussão sobre fiscal perde espaço. No debate público, a questão fiscal acaba sendo relegada a uma lateralidade e não toma de fato, diante do dilema de se cortar gastos para ter trajetória de redução dos juros, que opção será feita. É uma pergunta simples, mas que não tem encontrado eco nas candidaturas.” É a economia O colunista Lauro Jardim disse que as dificuldades enfrentadas por Lula na campanha estão mais relacionadas à economia do que com casos de corrupção. “O que marca Lula para o eleitor é que ele não cumpriu a promessa, o eleitor está endividado e quer mudar. Isso é uma atitude que o eleitor tem não só com Lula, mas com todos os incumbentes. Todos passam por isso”, afirmou, citando que o ex-presidente Jair Bolsonaro, que perdeu a reeleição em 2022, também foi impactado por problemas econômicos.

“Lula carrega isso com ele e ele tentou o ano inteiro, desde o início do ano, tirar da cartola um saco de bondades e o resultado foi que a gente chega em setembro e ele volta a ter uma desaprovação maior do que a aprovação”, disse Jardim. “Desde janeiro de 2025, somente em julho a aprovação de Lula foi ligeiramente superior à aprovação. Lula tentou, deu vários tiros e nenhum acertou o alvo dele”, afirmou. “A economia é o ponto mais frágil de Lula para a reeleição. É muito difícil entregar boa notícia [até o segundo turno]. Pode ser o fim da jornada 6x1, mas ainda assim não sei se será o suficiente.” Soberania A soberania nacional tem um peso eleitoral menor do que a economia, na avaliação de Garman. “O eleitor está preocupado é com o dia a dia”, disse. “Não sei se vai ser um vetor tão grande assim. “ Maria Cristina afirmou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, “esvaziou o discurso da soberania” ao retomar o diálogo com o presidente Lula.”

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site Valor