Uma mordida de gato foi o ponto de partida para a criação da Caren, healthtech brasileira que utiliza inteligência artificial e gamificação para ajudar pacientes a cuidar melhor da saúde. Fundada em 2018 pelo empreendedor Thiago Bonfim, a startup desenvolveu uma plataforma que transforma protocolos médicos em jornadas digitais de acompanhamento, com alertas, recomendações e pequenas tarefas que incentivam os usuários a seguir seus tratamentos.
A proposta já alcançou mais de 150 mil pessoas e conquistou clientes como o BNDES e a Unimed Uberlândia, além de abrir espaço na indústria farmacêutica. Mais recentemente, a empresa encontrou uma nova oportunidade de negócios no mercado das chamadas canetas emagrecedoras, com jornadas específicas para acompanhar pacientes que utilizam esses medicamentos.
A ideia nasceu de uma experiência pessoal de Bonfim, que, na época, trabalhava no setor financeiro. Depois de ser mordido por uma de suas gatas, o empreendedor passou a ouvir diferentes opiniões de pessoas próximas sobre os riscos do ferimento.
Preocupado, decidiu procurar atendimento médico particular, apesar de possuir plano de saúde. Na consulta, o médico fez apenas três perguntas: se a gata era dele, se estava vacinada e se apresentava comportamento incomum, como fugir da luz.
Diante das respostas, tranquilizou o paciente. O episódio fez Bonfim refletir sobre o valor da informação médica confiável e sobre como a falta de orientação pode aumentar a ansiedade das pessoas diante de questões de saúde.
Foi nesse contexto que decidiu migrar do universo das fintechs para o das healthtechs. A Caren começou a ganhar estrutura em 2019, quando foi selecionada para o BNDES Garagem, programa de apoio a startups do banco de desenvolvimento.
Além de acesso a um espaço de trabalho no Rio de Janeiro, a equipe teve contato com executivos e especialistas que ajudaram a amadurecer o modelo de negócios. O primeiro grande teste viria no ano seguinte.
Com a chegada da pandemia, a empresa desenvolveu uma ferramenta de autoavaliação de sintomas que, segundo Bonfim, registrou mais de 2 milhões de acessos em apenas dois dias após o lançamento. A iniciativa também chamou a atenção do Ministério da Saúde, que procurou a startup.
A experiência ajudou a definir o posicionamento da Caren: oferecer soluções de monitoramento e engajamento de pacientes por meio de linhas de cuidado digitais. Uma flor que acompanha a saúde
Na prática, a Caren funciona como uma ponte entre pacientes, profissionais de saúde e organizações do setor. A empresa desenvolve jornadas de acompanhamento baseadas em protocolos clínicos, que podem ser adaptadas a diferentes condições de saúde e tratamentos.
O usuário acessa a plataforma por meio de uma instituição parceira. Inicialmente, fornece informações que ajudam a identificar seu perfil de risco e as ações recomendadas para sua condição.
A partir daí, recebe orientações e tarefas relacionadas ao cuidado com a saúde. É nesse processo que entra a gamificação.
Um dos elementos da plataforma é uma flor virtual cujo estado muda conforme o usuário realiza ou deixa de realizar as atividades propostas. A representação visual busca tornar o acompanhamento mais intuitivo e incentivar a participação contínua.
A inteligência artificial, por sua vez, é utilizada para transformar dados clínicos em alertas e recomendações, auxiliando tanto os pacientes quanto as instituições responsáveis pelo acompanhamento. Para Bonfim, o valor da tecnologia está na capacidade de organizar informações que antes ficavam dispersas e automatizar processos tradicionalmente manuais.
No caso de pacientes com doenças crônicas, por exemplo, a plataforma pode ajudar as operadoras a identificar situações de risco e acompanhar o cumprimento dos protocolos de tratamento. A solução também é utilizada na gestão de medicamentos de alto custo.
Segundo o fundador, em um dos projetos desenvolvidos para uma operadora de autogestão, a identificação de oportunidades de economia resultou em R$ 18 milhões de redução de custos para o parceiro. Além desse tipo de aplicação, a Caren passou a atuar com a indústria farmacêutica.
Atualmente, mantém quatro linhas de cuidado voltadas a doenças raras. Oportunidade nas canetas emagrecedoras
Uma das apostas mais recentes da startup está no acompanhamento de pessoas que utilizam medicamentos para emagrecimento, especialmente os tratamentos conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras. A Caren adaptou sua experiência com jornadas digitais para desenvolver orientações específicas para esses pacientes.
A plataforma reúne informações sobre os diferentes medicamentos, os efeitos esperados, os possíveis sintomas durante o tratamento e questões relacionadas à sua interrupção. A ideia é oferecer um acompanhamento que vá além do uso do medicamento, ajudando o paciente a compreender as etapas do tratamento e a reconhecer situações que exigem atenção.
Segundo Bonfim, a oportunidade ganhou força no ano passado, quando a startup apoiou uma empresa no lançamento de um produto de emagrecimento. A iniciativa, que conectava a medicação ao aplicativo da Caren, registrou R$ 2 milhões em vendas em dez dias, de acordo com o empreendedor.
A startup também afirma possuir autorização de uma farmácia parceira para comercialização de medicamentos, ampliando as possibilidades de atuação nesse segmento. Para Rafael Munerato de Almeida, chief medical officer (CMO) da Caren, o engajamento dos pacientes é um dos principais desafios da assistência à saúde.
Na avaliação do executivo, mesmo com a evolução dos medicamentos e das tecnologias disponíveis, os resultados dos tratamentos dependem da adesão dos pacientes às orientações médicas. É justamente nesse ponto que ferramentas digitais de acompanhamento podem contribuir.
A contratação de Munerato também faz parte de uma estratégia para reforçar a base científica das soluções da empresa. O médico terá entre suas responsabilidades o aprimoramento dos protocolos assistenciais e a avaliação dos resultados das jornadas digitais.
Embora o aplicativo seja utilizado pelos pacientes, o modelo de negócios da Caren é voltado principalmente para o B2B. Seus clientes incluem operadoras de planos de saúde, organizações de autogestão e companhias farmacêuticas.
Inicialmente, a startup cobrava de acordo com o número de vidas atendidas. O modelo, porém, foi reformulado.
Atualmente, a cobrança é baseada nas linhas de cuidado ativas dentro da plataforma. Os contratos incluem uma taxa inicial de implementação e integração, cujo valor depende das necessidades de cada cliente.
Depois, as instituições pagam uma mensalidade fixa pelo acesso à plataforma e um valor adicional por linha de cuidado ativa. O sistema oferece diferentes níveis de visualização para gestores e profissionais de saúde, permitindo acompanhar informações dos pacientes conforme as permissões de acesso.
A mudança busca aproximar a receita da empresa do uso efetivo das soluções contratadas, em vez de considerar apenas o tamanho da população atendida. Desde a fundação, a Caren realizou duas rodadas de investimento.
A primeira ocorreu em 2019, com investidores-anjo. A segunda foi realizada durante a pandemia, após a repercussão da ferramenta de autoavaliação de covid-19.
Entre os investidores que passaram a apoiar a empresa está Marcelo Câmara, ex-executivo do Bradesco que participou da criação da assistente virtual Bia. Ao todo, a startup captou aproximadamente R$ 700 mil.
Segundo Bonfim, a operação já atingiu o breakeven. Mesmo assim, a empresa se prepara para uma nova captação.
A rodada ainda está em fase de preparação, sem valor ou prazo de conclusão definidos. Com mais de 150 mil vidas atendidas, a Caren pretende avançar na comprovação dos resultados de suas soluções e ampliar sua presença no mercado de saúde digital.
Uma das prioridades é produzir evidências sobre os efeitos das jornadas digitais no acompanhamento dos pacientes. A chegada de Munerato ao comando médico da empresa está diretamente relacionada a esse objetivo.
Para Bonfim, demonstrar resultados concretos será fundamental para a próxima etapa de crescimento da startup, especialmente em um setor no qual a adoção de novas tecnologias depende de evidências clínicas e econômicas. A empresa também busca ampliar sua participação na infraestrutura de troca de informações de saúde.
Entre as oportunidades observadas está o desenvolvimento de sistemas mais integrados e interoperáveis, capazes de facilitar a circulação de dados entre diferentes instituições. A expansão internacional também está no radar.
A startup já possui uma operação no Reino Unido e avalia oportunidades em outros mercados, embora o Brasil continue sendo um dos principais focos de desenvolvimento. Mais Lidas
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