Henk Schiffmacher, um tatuador de 74 anos com dentes de ouro e um chapéu de abas largas, inclinou-se para segurar o braço de Rachel van Haren. Ele estava concentrado em tatuar um pequeno elefante rechonchudo no bíceps dela, inspirado em um desenho de Rembrandt de 1637.
Schiffmacher, frequentemente descrito como o padrinho da cultura da tatuagem em Amsterdã, cresceu admirando o antigo mestre holandês. Agora, durante duas semanas, ele está realizando seu trabalho ao lado do ateliê de gravuras de Rembrandt do século XVII no museu Casa de Rembrandt, no centro de Amsterdã.
Como parte do projeto “O Rembrandt do Homem Comum”, o tatuador e seu estúdio, Schiffmacher & Veldhoen, abriram um espaço temporário de tatuagem dentro do museu holandês. Até sábado, os visitantes podem solicitar uma lembrança permanente de Rembrandt gravada em sua própria pele.
“É um encontro entre a alta cultura e a cultura popular”, disse Schiffmacher em uma entrevista. Na parede atrás de Schiffmacher, havia dezenas de suas releituras de desenhos e gravuras de Rembrandt, das quais os clientes podiam escolher por um valor entre 100 e 350 euros (de R$ 600 a R$ 2.100).
Van Haren, de 28 anos, contou que escolheu Hansken, uma elefanta que Rembrandt desenhou várias vezes nos anos 1600, por ser uma representação simples, sem ser simplista. “Ele desenhava as coisas exatamente como eram; não há excessos”, disse ela.
Esta é a segunda vez que a Casa de Rembrandt colabora com Schiffmacher e sua equipe — a primeira foi em 2023. Desta vez, o objetivo era mais ambicioso: reproduzir uma das obras mais famosas de Rembrandt, “A Descida da Cruz” (1633), nas costas de um homem.
O tatuador Henk Schiffmacher segura a gravura de Rembrandt "A Descida da Cruz", que ele estava tatuando nas costas de Bo Kwakernaak, à direita Ilvy Njiokiktjien/The New York Times
Segundo Schiffmacher, eles lançaram uma chamada há cerca de um mês e receberam aproximadamente 50 inscrições. No entanto, alguns voluntários apresentavam cicatrizes, marcas de nascença ou outras tatuagens que poderiam interferir na imagem.
Encontraram o candidato ideal em Bo Kwakernaak, de 28 anos, que trabalha como cenógrafo para produções cinematográficas. “Finalmente encontramos um rapaz com a pele totalmente limpa e costas belíssimas; agora, estamos trabalhando nele como uma equipe”, disse Schiffmacher.
Epco Runia, chefe de coleções e pesquisa do museu, observou que Rembrandt e Schiffmacher, ambos mestres em suas respectivas áreas, compartilham o esforço de tornar a arte mais acessível ao público. Runia explicou que Rembrandt produzia gravuras que podiam ser adquiridas por pessoas que não tinham condições de comprar suas pinturas.
Ele acrescentou: “Somos um museu dedicado à gravura, por isso acho que essa iniciativa combina muito bem conosco”. Mas o que será que Rembrandt pensaria do trabalho desse tatuador?
“Acho que ele teria uma certa afinidade com Henk Schiffmacher”, disse Runia. “Eles têm um temperamento um tanto parecido.”
A ideia por trás do estúdio temporário era atrair uma geração mais jovem de visitantes para a Casa de Rembrandt, explicou a diretora, Milou Halbesma. E eles vieram, a julgar pelas multidões que lotavam o estúdio.
Houve também convidados surpresa, como um negociante de obras de Rembrandt, curadores e pesquisadores de outros museus, além de um fã de 75 anos. Ao ponderar qual dos desenhos do artista daria uma boa tatuagem, as pessoas acabam olhando para a obra de Rembrandt de uma forma nova, observou Halbesma.
“É uma maneira de observar Rembrandt — bem de perto”, disse ela, “o que faz com que voltem a apreciar o trabalho dele.” Schiffmacher comentou que uma tatuagem é, basicamente, “apenas um pequeno desenho feito com tinta” na pele humana, e que tanto a obra de Rembrandt quanto as tatuagens perdurariam.
“Damos uma garantia de pelo menos 14 dias após a morte”, afirmou Schiffmacher. Uma folha com versões dos desenhos e gravuras de Rembrandt feitas pelo tatuador Henk Schiffmacher, que os clientes podiam escolher no Museu Casa de Rembrandt em Amsterdã, em 30 de outubro de 2026.
Ilvy Njiokiktjien/The New York Times
O Globo