Um fenômeno linguístico em perigo? Entenda a origem do papiamentu, língua crioula desenvolvida em Curaçao

Um fenômeno linguístico em perigo? Entenda a origem do papiamentu, língua crioula desenvolvida em Curaçao

Fonte: Bandeira



No último domingo, enquanto Alemanha e Curaçao duelavam pela primeira rodada do grupo E da Copa do Mundo, 185 mil habitantes de uma ilha caribenha vibravam — junto do mundo inteiro — aos 21 minutos do primeiro tempo. A catarse coletiva gerada pelo gol do meia Livano Comenencia, que empatou a partida contra a seleção alemã, foi um daqueles momentos em que todos os apaixonados por futebol, que estavam no estádio, em casa assistindo à TV ou em algum bar com os amigos, disseram “a Copa do Mundo é f….”.

O empate ficou no placar por apenas 17 minutos. Logo depois, a Alemanha atropelaria a menor nação a participar de uma Copa do Mundo na história, enfileirando outros seis gols e igualando a goleada histórica aplicada sobre o Brasil, no Mineirão, naquele fatídico oito de julho de 2014.


Os habitantes de Curaçao comemoraram a primeira partida do país em Mundiais e, entre os torcedores do estádio, alguém com certeza disse “Nos a hasi historia” apesar da derrota. De primeira, a sentença parece até familiar. Um olhar mais atento percebe a influência latina em “hasi”, variação de “fizemos” em português e “hicimos” em espanhol. “Historia”, por sua vez, carrega marcas das duas línguas.

Além de ter se tornado a menor nação do mundo a participar de um Mundial — superando a Islândia, que detinha o recorde desde 2018 — Curaçao faz parte de um conjunto de ilhas que carregam uma história multicultural e um dos fenômenos linguísticos mais interessantes do mundo — o que justifica a familiaridade da sentença em papiamentu.

Viagem ao século XV

Para entender essa história do idioma, voltamos a 1499 quando o Almirante espanhol Alonso de Ojeda descobriu a ilha de Curaçao. O território permaneceu sob domínio espanhol até 1633, período em que passou ao controle do Reino dos Países Baixos. Após perder o domínio sobre regiões no norte do Brasil em 1654, a Holanda converteu Curaçao em seu principal centro de tráfico negreiro nos séculos XVII e XVIII, consolidando uma população permanente.

A presença de espanhóis remanescentes, o domínio holandês e a chegada de populações escravizadas da costa oeste da África deram início às primeiras variações da língua que seria falada na região.

O fenômeno linguístico é descrito pelo professor do Departamento de Línguas, Culturas e Literaturas Modernas, Marco Neves, da Universidade de Lisboa, como uma língua “pidgin” ou língua de contato. Algo originado a partir do entendimento raso das várias línguas presentes num local, que dá vida a um novo vocabulário, gerado, principalmente, pela interação de crianças e novas gerações.

— Estas línguas são assumidas como um símbolo de identidade. São uma prova da criatividade e da capacidade linguística dos seres humanos — afirma o pesquisador.

O novo vocabulário, portanto, uniu o holandês, espanhol e o crioulo cabo-verdiano, que tem forte influência do português. Uma língua multifacetada, que absorveu 85% de base hispânica (espanhol e afro-português), 5% de holandês, 5% de português, além de influências posteriores do inglês e que traduz a história complexa dessa parte do Caribe.

Criação

O papiamentu é uma língua crioula. Segundo Marco, a definição da palavra já explica a origem do fenômeno.

— O crioulo está relacionado com a palavra criação, de criar — afirma. A capacidade associativa do cérebro humano, segundo Marco, explica como é possível unir tantas influências linguísticas ao mesmo tempo.

— Quando as línguas se misturam dentro da cabeça das pessoas, acabam por funcionar sempre. Não há nenhuma característica do cérebro humano particular dos falantes de português ou dos falantes de papiamento ou dos falantes de japonês. O cérebro humano é diferente em cada um de nós, mas não é diferente entre grupos, não é? Portanto, é este hardware, esta base biológica, que consegue aceitar palavras do holandês, do português, do espanhol e criar um todo coerente, foi o que aconteceu em Curaçao — conclui.

Língua caindo em desuso?

Nas últimas décadas, indicadores sociais começaram a apontar mudanças no uso do idioma no ambiente doméstico. Uma pesquisa realizada em 2023 pela Universidade de Utrecht indicou que, na década de 1980, cerca de 80% das famílias em Aruba utilizavam o papiamentu para a comunicação interna (o território autônomo, como Curaçao, adota o papiamentu como língua oficial). Em 2010, esse índice caiu para 68,3%. Em contrapartida, o uso do espanhol cresceu de 3% para 13,5% no mesmo período, impulsionado pelo fluxo migratório recente.

A pesquisa aponta que a redução do uso familiar está atrelada a uma percepção de hierarquia linguística, ou seja, pessoas com maior nível de escolaridade tendem a utilizar o holandês com mais frequência, mesmo entre familiares, reforçando o papel tradicional do holandês na administração e na educação. Ao mesmo tempo, o estudo observou uma sensação de inferioridade associada ao uso do papiamentu frente ao holandês e ao espanhol, alimentando o receio de enfraquecimento do idioma nativo diante da forte presença de imigrantes hispanofalantes.

Resistência

Apesar do sentimento de ameaça do papiamentu documentado entre os falantes, os dados empíricos da Universidade de Utrecht demonstram que o risco de desaparecimento iminente pode estar mais associado à percepção pública do que à prática real. O papiamentu permanece, por ampla margem, como o idioma mais utilizado em diferentes faixas etárias, níveis socioeconômicos e origens na ilha. Além disso, as atitudes em relação à língua são amplamente positivas, sendo considerada fundamental para a alfabetização e preservação cultural.

Mesmo diante do panorama de migração, as novas gerações que chegam às ilhas demonstram facilidade em aprender o idioma. Neste sábado, Curaçao faz história mais uma vez diante do Equador e sua população reforça que a manutenção da língua oficial é uma ferramenta de afirmação de identidade e do contínuo processo de ressignificação histórica, que converte as marcas de um passado colonial e escravocrata em um mecanismo de coesão social e resiliência dos povos caribenhos.