UFRJ concede diplomas póstumos a 25 estudantes e professores desaparecidos e mortos pela ditadura

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Nos momentos mais terríveis da ditadura militar (1964-1985) não foram poucos os estudantes e professores universitários brasileiros que se levantaram em defesa da democracia. Para muitos deles, a luta redundou na interrupção de sonhos. Mortos e desaparecidos por enfrentar o regime, deixaram de se tornar filósofos, artistas, físicos, advogados, farmacêuticos, arquitetos, economistas, químicos, biólogos, sociólogos e engenheiros para entrar para a História. Ontem, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) rendeu homenagem a 22 alunos e dois mestres com a entrega de diplomas póstumos às famílias em ato que reuniu memória, reconhecimento e reparação. 'Bobeamos, por que a gente não fez isso?': Músico mais velho no Palco Mundo do Rock in Rio, Roberto Menescal celebra releituras da bossa nova por jovens artistas Tem padre no samba: Pároco da igreja de Santo Antônio, em Caridade, no Ceará, está em parceria finalista na Unidos da Tijuca Roberto Medronho entrega o diploma póstumo de Raul Amaro Nin Ferreira a seu sobrinho Felipe Nin Divulgação/UFRJ —Homenageamos postumamente esses estudantes e os dois docentes que tiveram suas vidas brutalmente ceifadas pela ditadura. Queremos que os nossos jovens conheçam essas histórias e as transmitam para as próximas gerações. Porque uma democracia sem memória é muito vulnerável — disse Roberto Medronho, reitor da UFRJ.

Em julho, a universidade já havia diplomado Stuart Edgar Angel Jones, estudante do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), como bacharel em Ciências Econômicas. Ele foi sequestrado, torturado e morto por agentes da ditadura em 1971, quando tinha 25 anos. Seu corpo jamais foi encontrado. Ninguém foi punido pelo crime.

Stuart Angel, filho de Zuzu e integrante da luta armada torturado e morto pela ditadura Arquivo de família Carnaval 2027: Depois de Portela, Mangueira e Mocidade, chegou a vez de Beija-Flor, Vila, Salgueiro e Tijuca escolherem os sambas Na cerimônia de ontem, realizada no no Salão Nobre do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, no Flamengo, Roberto Medronho pediu desculpas aos familiares pela demora da universidade em conferir a diplomação às vítimas: — Trata-se de um diploma formal, póstumo, obviamente com valor simbólico, não jurídico. É como se disséssemos: “Nós não esquecemos vocês”. Quando pronunciamos os nomes deles e entregamos os diplomas, estamos também contando suas histórias e devolvendo essa memória à universidade. Essa história não pode ser apagada. Eu até peço perdão aos familiares porque isso demorou muito tempo. Esse ato já deveria ter sido realizado há muito tempo.

Refit: Contaminação do terreno da refinaria pode dificultar aproveitamento do espaço, que Governo do Rio quer desapropriar Entre os homenageados na cerimônia — incluída nas comemorações pelos 106 anos da UFRJ, completados dia 7 — está Raul Amaro Nin Ferreira. Preso e torturado, Raul passou por dois dos mais temidos centros de repressão do regime: o prédio do o prédio do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), no Centro, e o Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) do I Exército, na Tijuca. Por fim, foi levado ao Hospital Central do Exército (HCE), em Benfica, onde foi novamente interrogado sob tortura segundo conclusão de investigação da Comissão Estadual da Verdade do Rio (CEV-Rio). Raul Amaro morreu no HCE, entre os dias 11 e 12 de agosto de 1971, aos 27.

Da praia à montanha: Aos 60 anos, voluntário conclui 2.200km de trilha pelo Estado do Rio em quatro meses — Eu acho que essas homenagens suprem uma lacuna, que é a ausência de justiça. Até hoje, as pessoas responsáveis pela prisão, pela tortura e pelo assassinato dele não responderam diante da Justiça. Pelo contrário, tiveram seus processos anistiados — disse Felipe Nin, sobrinho de Raul, que seguiu os passos do tio e milita como membro do Coletivo Memória, Verdade e Justiça e Reparação. — É muito importante lembrar o que foi a ditadura para valorizar a democracia, por mais limitações que ela tenha, e fortalecer as instituições para que ela possa avançar.

Sem assinatura Entre os estudantes que receberam o diploma póstumo está uma das vítimas do episódio conhecido como a “Chacina de Quintino” ocorrido em uma casa no bairro da Zona Norte do Rio em 29 de março de 1972. A versão oficial da época apontava que Antônio Marcos Pinto de Oliveira, Lígia Maria Salgado Nóbrega e Maria Regina Lobo Leite de Figueiredo, integrantes da organização de esquerda VAR-Palmares haviam sido mortos durante confronto com agentes da ditadura. Somente em 2013, investigação conduzida pela CEV-Rio apoiada em documentos e depoimentos desmontou a farsa e concluiu que os três foram executados. Maria Regina, que tinha 33 anos à época, era da Faculdade de Educação da UFRJ. Agressão na UFRJ: Seguranças afirmam em depoimento que não viram aluno espancado fazer ofensas raciais Os diplomas entregues com a inscrição em latim post mortem foram assinados na hora pelo reitor da universidade. A sala foi preenchida por emoção durante todo o tempo. Vazio mesmo, só o espaço deixado para a assinatura dos formandos.

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