O Canadá e a União Europeia (UE) lançaram nesta sexta-feira (30) uma nova "aliança" com a assinatura de acordos sobre Ucrânia, minerais críticos e inteligência artificial (IA), entre outras questões estratégicas, ao fim de uma cúpula de dois dias em Montreal. Trata-se da "aliança mais estreita já estabelecida" entre um país não europeu e a UE, em um contexto de fortes tensões e turbulências desde que o presidente Donald Trump voltou ao poder nos Estados Unidos, em 2025.
Os dois parceiros estão construindo uma "Aliança para o Futuro para criar um espaço comum de prosperidade e segurança econômica", segundo uma declaração conjunta divulgada ao fim da cúpula, realizada na quinta e na sexta-feira na cidade francófona de Montreal. Graças a essa aliança, "o Canadá e a UE estarão mais bem preparados para enfrentar os desafios globais comuns", afirma a declaração.
Essa aliança é sinônimo de "soberania", de "maior resiliência" e deve permitir aos dois parceiros "resistir juntos aos choques" em um mundo dominado pelas superpotências Estados Unidos e China, declarou o primeiro-ministro canadense, Mark Carney. “O mundo está se tornando mais perigoso e dividido.
Nossas sociedades estão sendo sacudidas por novas tempestades”, apontou. “Juntos, o Canadá e a União Europeia estão marcando território.
Marcando nosso território para defender nossos valores”, disse Carney após se reunir com os líderes da UE Ursula von der Leyen e António Costa. O Canadá também anunciou que contribuirá para o empréstimo de 100 bilhões de dólares (R$ 542,1 bilhões) do bloco europeu à Ucrânia, em uma forte demonstração de apoio.
Os parceiros reforçaram sua cooperação ao construir "a parceria mais estreita, mais profunda e mais sólida já estabelecida entre a União Europeia e um país não europeu", insistiu o presidente do Conselho Europeu, António Costa. "O Canadá é, de longe, o país mais europeu entre os países não europeus", acrescentou.
@@NOTICIAS_RELACIONADAS@@ Primeiro “membro associado”
Antes do início da cúpula, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou que buscava uma relação "do mais alto nível" com o Canadá. Em Montreal, delinearam uma parceria em dois níveis que a chefe do bloco europeu ressaltou que “não é contra ninguém, e sim a favor de nossa força comum”.
Sem poder integrar-se plenamente ao bloco, o Canadá se tornaria seu primeiro “membro associado”, afirmou Von der Leyen, reforçando a aposta em um termo ao qual se opõem a Alemanha e alguns poucos Estados da UE. O Canadá passará agora a ter uma presença mais estável na mesa da UE.
Carney participará de uma cúpula de líderes europeus em junho e, na primavera, comissários europeus e ministros canadenses realizarão uma reunião separada, destacou Costa. Em um plano mais geral, o Canadá e a UE formariam o “núcleo” de uma “aliança para o futuro” mais ampla, aberta a outros parceiros, explicou Von der Leyen.
Alternativas soberanas A UE e o Canadá assinaram uma série de acordos para ampliar sua cooperação em vários setores estratégicos, da IA aos minerais críticos.
O subsolo canadense contém justamente os minerais de que a indústria europeia - dependente da China - necessita de forma vital, especialmente para a fabricação de baterias para carros elétricos e turbinas eólicas. A UE e o Canadá também trabalharão juntos no campo da IA para defender sua soberania diante do domínio dos Estados Unidos e da China nesse setor.
Na prática, pesquisadores e empresas canadenses poderão acessar a infraestrutura europeia de supercomputadores de ponta para ajudá-los a desenvolver sistemas de IA soberanos e seguros. O Canadá anunciou na quinta-feira um investimento de 1 bilhão de dólares (R$ 5,4 bilhões) na empresa canadense de IA Cohere, que já mantém uma parceria com a alemã Aleph Alpha.
Segundo o primeiro-ministro Carney, a medida busca fortalecer as alternativas soberanas. "Não estamos esperando que o futuro da IA seja decidido em outro lugar, por pessoas que não conhecemos ou em quem não confiamos", insistiu.
O fortalecimento da parceria entre a UE e o Canadá também deverá passar por um alinhamento de suas políticas de IA e clima, além de um marco de cooperação regular entre seus respectivos parlamentos, poderes executivos e tribunais. Além disso, os dois parceiros querem abrir, no momento oportuno, uma "Aliança para o Futuro" a outros aliados de confiança como Japão, Coreia do Sul e Austrália.
A ideia seria estabelecer as bases de uma coordenação econômica e aduaneira em um mundo abalado pela política tarifária de Trump. O presidente americano afirmou que poderia considerar um aprofundamento dos laços entre a UE e o Canadá um "ato hostil" que exigiria represálias.
Folha de Pernambuco