Ucrânia exige garantia de segurança dos EUA por 20 anos e critica pressão por concessões em negociações de paz

 

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A Ucrânia quer garantias de segurança dos Estados Unidos por no mínimo 20 anos antes de assinar qualquer acordo de paz “com dignidade”, disse no sábado o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, durante a Conferência de Segurança de Munique, às vésperas de novas negociações trilaterais entre Kiev, Moscou e Washington previstas para esta semana, em Genebra. Em seu discurso, ele também pediu uma data clara para que a Ucrânia seja autorizada a ingressar na União Europeia (UE) e criticou o que avalia ser uma pressão desigual por concessões.

— [Espero que] as reuniões trilaterais da próxima semana sejam sérias, substanciais, úteis para todos nós. Mas, honestamente, às vezes parece que as partes estão falando coisas completamente diferentes. Os americanos frequentemente voltam ao tema das concessões e, muitas vezes, essas concessões são discutidas apenas no contexto da Ucrânia, e não da Rússia — disse.

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O discurso de Zelensky ocorreu enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, busca intermediar um acordo para encerrar a maior guerra na Europa desde 1945. Kiev e Moscou, que iniciou o conflito ao invadir o território vizinho em fevereiro de 2022, participaram de duas rodadas recentes de negociações mediadas por Washington em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. O diálogo foi descrito por ambas as partes como construtivo, mas sem avanços concretos. Eles devem se reunir novamente em Genebra, na Suíça, ainda esta semana.

Zelensky disse esperar que as conversas trilaterais sejam “sérias, substanciais” e “úteis para todos”. O líder ucraniano também argumentou que haveria mais chances de encerrar a guerra se os países europeus tivessem assento à mesa de negociações — visão compartilhada pelo ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, mas algo a que Moscou se opõe. Ainda assim, na sexta-feira Trump pediu a Zelensky que “se mova” para alcançar um acordo com a Rússia.

— A Europa praticamente não está presente à mesa. É um grande erro, na minha opinião — afirmou, acrescentando: — A paz só pode ser construída sobre garantias claras de segurança. Onde não há um sistema de segurança claro, a guerra sempre retorna.

Questões em aberto

Entre os temas mais controversos das negociações está a exigência da Rússia de retirada total das tropas ucranianas das partes restantes da região oriental de Donetsk que ainda estão sob controle de Kiev. A Ucrânia rejeitou uma retirada unilateral e, ao mesmo tempo, exige garantias de segurança do Ocidente para dissuadir a Rússia de retomar a invasão caso um cessar-fogo seja alcançado. Segundo Zelensky, os EUA propuseram uma garantia de segurança com duração de 15 anos após a guerra, mas a Ucrânia deseja um acordo de 20 anos ou mais.

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Zelensky disse, ainda, que o líder russo, Vladimir Putin, se opõe ao envio de tropas estrangeiras à Ucrânia porque isso desestimularia qualquer agressão futura por parte da Rússia. Ainda assim, ele afirmou que Moscou precisa aceitar uma missão de monitoramento do cessar-fogo e uma troca de prisioneiros de guerra, estimando que a Rússia mantenha atualmente cerca de 7 mil soldados ucranianos, enquanto Kiev detém mais de 4 mil militares russos.

O presidente ucraniano ainda pediu maior ação dos aliados da Ucrânia para pressionar a Rússia a negociar a paz, seja por meio de sanções mais duras quanto pelo envio de armas. Líderes europeus parecem pessimistas quanto à possibilidade de um avanço diplomático, considerando que Putin ainda não está economicamente ou militarmente desgastado. Ao jornal britânico The Guardian, um líder europeu que falou sob anonimato previu pelo menos mais dois anos de guerra e afirmou que a Europa tem recursos para sustentar a Ucrânia por esse período.

Apesar disso, Zelensky disse que Trump tem o poder de forçar Putin a declarar um cessar-fogo e que precisa fazer isso. Autoridades ucranianas já disseram que a trégua é necessária para que seja feito um referendo sobre qualquer acordo de paz. O presidente insistiu que as eleições nacionais que os EUA pressionam a Ucrânia a realizar até 15 de maio só podem ocorrer dois meses após a declaração do cessar-fogo, de modo a garantir segurança aos eleitores. Trump tem pressionado Zelensky a fechar um acordo, mas não detalhou as consequências caso não haja avanços.

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Garantias de segurança

Em entrevista coletiva, Zelensky disse que os EUA lhe informaram que, se a Ucrânia se retirasse do Donbass, a paz chegaria o mais rápido possível. Ele insistiu, porém, que essa concessão não é possível, já que ucranianos vivem na região. Também revelou que os EUA ofereceram até agora uma garantia de segurança válida por 15 anos após a guerra. Kiev, por sua vez, quer um acordo “juridicamente sólido” de pelo menos 20 anos, detalhando a ajuda concreta que Washington ofereceria a uma força europeia de garantia que seria posicionada dentro da Ucrânia.

Os detalhes de um chamado plano de prosperidade, pelo qual os EUA teriam acesso aos recursos minerais ucranianos, ainda não haviam sido trocados, disse Zelensky, sem indicar se o assunto será discutido em Genebra. O ucraniano afirmou, no entanto, que os ataques russos a usinas de energia ucranianas serão tema das conversas, informando que nenhuma usina de energia no país saiu ilesa até agora. Ele também disse que, diante do cenário atual, sua ambição é elevar o número de russos mortos ou gravemente feridos para 50 mil por mês.

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Por fim, Zelensky questionou por que o chefe da delegação negociadora russa foi substituído, afirmando temer que isso signifique que os russos estejam apenas ganhando tempo. O Kremlin disse que sua delegação seria liderada pelo assessor de Putin, Vladimir Medinsky, uma mudança em relação às negociações em Abu Dhabi, onde o chefe de inteligência militar, Igor Kostyukov, esteve à frente. Kiev criticou Medinsky em conversas anteriores, acusando-o de oferecer “aulas de história” à equipe ucraniana em vez de se engajar em negociações construtivas.

Caso de corrupção

Neste domingo, o Escritório Nacional Anticorrupção da Ucrânia (NABU) anunciou a prisão do ex-ministro da Energia Herman Halushchenko, envolvido em caso de corrupção, quando tentava sair do país. Em comunicado, o órgão citou o “caso Midas”, nome dado ao grande escândalo de corrupção no setor energético que abalou a Ucrânia no ano passado. Halushchenko ocupou o ministério em 2025 e renunciou em novembro por causa desse caso.

Halushchenko foi um dos vários ministros que apresentaram sua renúncia no ano passado, após o NABU revelar um esquema de lavagem massiva de dinheiro no setor energético da Ucrânia que, segundo os investigadores, foi orquestrado por um aliado de Zelensky. De acordo com a agência anticorrupção, os envolvidos organizaram um sistema de comissões ilegais que pode ter movimentado até US$ 100 milhões para desviar recursos. Investigadores apontam que Halushchenko teve “benefícios pessoais” no esquema. (Com AFP)