Trump marca um ano de mandato com coletiva na Casa Branca em meio à tensão com aliados europeus
No dia em que completa um ano desde sua segunda posse — e após intensificar as provocações e ameaças a aliados europeus —, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, se juntou à secretária de Imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, para uma entrevista coletiva nesta terça-feira. A aparição ocorre em meio à escalada de tensões em torno da Groenlândia e às vésperas de sua participação no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, onde o assunto já domina a pauta.
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Ao subir ao púlpito, o presidente ergueu um livro com 365 pontos de argumentação distribuídos pela Casa Branca aos repórteres, listando as realizações do primeiro ano de seu governo. Apesar das declarações mais recentes do republicano sobre a Groenlândia, Trump iniciou seu discurso ressaltando como sua administração deteve o que definiu como “assassinos e traficantes de drogas” em Minnesota. Ele exibiu imagens impressas de indivíduos sob o título “Minnesota: os piores dos piores”, acrescentando que eram todos “imigrantes ilegais criminosos”.
— Elas foram autorizadas a entrar pelo sonolento Joe Biden, pelo corrupto Joe Biden, como você preferir chamar — disse, mencionando o caso de Renée Good, americana morta por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) no início do mês. — Todos [os agentes] querem tirar [criminosos] do nosso país, e o que enfrentamos são agitadores pagos. Quando aquela mulher foi baleada, eu fiquei muito abalado. E entendo os dois lados. [Mas] havia outra mulher gritando ‘vergonha’ [ao fundo]. Eu disse: ‘Essa não é uma pessoa normal’. Eles querem ver o nosso país fracassar, mas isso não vai acontecer.
Mais cedo, o americano elevou o tom e afirmou que dirigentes do continente europeu “não oferecerão muita resistência” à sua intenção de incorporar o território semiautônomo ligado à Dinamarca. Segundo ele, o tema deverá ser tratado com “diversas partes” à margem do Fórum Econômico. Trump também repetiu que a Groenlândia é “estratégica” para a segurança nacional e global dos EUA, divulgou mensagem com tentativa de conciliação recebida pelo presidente francês, Emmanuel Macron, e publicou um mapa com a bandeira americana na ilha.
As declarações, por sua vez, ocorrem após o anúncio de tarifas de 10% sobre exportações da Dinamarca e outros sete países europeus (Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia) que se alinharam contra a iniciativa americana — medida que provocou queda nos mercados e reacendeu temores de uma guerra comercial transatlântica. A União Europeia (UE) avalia impor tarifas de retaliação sobre produtos americanos e mesmo recorrer a suas sanções econômicas mais sérias em resposta às recentes medidas de Trump.
Em reunião nesta semana sobre a crise, os principais diplomatas do bloco europeu discutiram reviver um plano para tarifas no valor de € 93 bilhões (R$ 580,5 bilhões) sobre produtos americanos, que havia sido suspenso até 6 de fevereiro após Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, alcançar um acordo comercial com Trump em agosto do ano passado. Os maiores partidos do Parlamento Europeu anunciaram que adiariam a votação planejada sobre medidas para reduzir as tarifas da UE sobre produtos americanos.
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Em Davos nesta terça-feira, Von der Leyen afirmou que a resposta da União Europeia às ameaças do republicano será “firme, unida e proporcional”, ao mesmo tempo em que sinalizou disposição para ampliar investimentos europeus na Groenlândia e cooperar com os EUA em temas de segurança no Ártico. Já o presidente francês foi além e afirmou que a escolha atual é entre “aceitar passivamente a lei do mais forte”, levando a uma “nova abordagem colonial”, ou defender um “multilateralismo eficaz” que sirva aos interesses comuns.
Macron disse ainda que a soberania nacional e a independência são elementos centrais dessa opção e afirmou que o recente envio de militares franceses à Groenlândia fez parte desse esforço de defesa — não para “ameaçar ninguém, mas para apoiar um aliado e outro país europeu”. Segundo ele, no âmbito de sua presidência do G7, a França também pretende revitalizar o grupo como um fórum de “diálogo franco”, com o objetivo de evitar guerras comerciais, escaladas protecionistas e outras tentativas de desestabilizar a ordem global.
— Nosso objetivo no G7 é demonstrar que as principais potências do mundo ainda são capazes de chegar a um diagnóstico comum da economia global — disse.
Insatisfação doméstica
Além da crise com aliados, Trump chega ao seu primeiro ano de segundo mandato em meio à insatisfação de parte do eleitorado com o desempenho econômico do governo e com o uso do poder presidencial. Segundo pesquisa da CNN americana realizada pelo instituto SSRS, 58% dos entrevistados consideram que o início do governo Trump foi um fracasso. Mesmo dentro do Partido Republicano, cerca da metade diz que o presidente deveria fazer mais para melhorar a economia — incluindo 42% entre eleitores que se descrevem como integrantes do movimento MAGA (“Make America Great Again”, ou “Tornar a América Grande Novamente”).
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A taxa geral de aprovação de Trump está agora em 39%, com a opinião pública sobre quase todos os aspectos de sua presidência estagnada em patamares negativos. Seus índices, que giravam em torno de 48% em fevereiro do ano passado, caíram nos primeiros 100 dias do segundo mandato e, desde então, permanecem na casa dos baixos 40% ou altos 30%. Além da economia, cerca de um quarto dos que desaprovam Trump dizem fazê-lo por causa do que avaliam como uso indevido do poder presidencial ou do tratamento dado à democracia.
Uma maioria de 58% afirma que Trump foi longe demais no uso do poder da Presidência e do Executivo, acima dos 52% registrados no início do mandato. A maioria também diz que ele exagerou ao tentar mudar instituições culturais como o Smithsonian e o Kennedy Center (62%) e ao cortar programas federais (57%). Cerca de metade afirma ainda que ele foi longe demais ao alterar a forma de funcionamento do governo dos EUA. Ao mesmo tempo, diminuiu a parcela dos que acreditam que Trump mudará o país: de 52% em abril do ano passado para 41% agora.
“Mesmo que ele faça algo de bom em algumas áreas, passa a impressão de ser muito voltado para si mesmo e de não se importar com o bem comum dos nossos cidadãos”, escreveu um dos participantes da pesquisa, um eleitor independente de Oklahoma.
Em atualização.
