À medida que a polarização política se consolida como uma das principais forças das disputas eleitorais contemporâneas, os direitos das pessoas trans voltam a ocupar um lugar estratégico na fabricação de inimigos políticos. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump utiliza a proteção de crianças, os esportes femininos e os espaços de convivência das mulheres para construir uma narrativa na qual a existência trans aparece associada a uma ameaça. No Brasil, a aproximação de Flávio Bolsonaro com Trump torna essa retórica especialmente relevante para compreender os rumos da disputa política nacional.
Em uma declaração registrada em áudio, Trump afirmou: “We will not allow the transgender mutilation of your children” — “Não permitiremos a mutilação transgênero de seus filhos”, em tradução livre. Na sequência, associou seus adversários à defesa da presença de homens em competições esportivas femininas e em vestiários de meninas, além de recorrer a referências religiosas e a ataques políticos para desqualificar o campo adversário.
A escolha das palavras não é casual. Ao aproximar pessoas trans de imagens de mutilação, perigo infantil e ameaça às mulheres, o discurso reúne questões distintas em uma narrativa de medo. A complexidade das políticas de saúde, dos direitos civis e das regras esportivas desaparece diante de uma personagem construída para despertar indignação e mobilizar eleitores.
Esse mecanismo não se restringe aos Estados Unidos. Flávio Bolsonaro, apoiador contumaz de Trump e aliado do campo conservador trumpista, representa uma conexão política que merece atenção no debate brasileiro. A circulação internacional dessas agendas exige investigar como determinadas narrativas sobre gênero, família e costumes são incorporadas às disputas nacionais e como podem contribuir para transformar grupos historicamente vulnerabilizados em alvos preferenciais da mobilização eleitoral.
O problema ultrapassa as diferenças entre direita e esquerda. Quando a política passa a depender da fabricação permanente de inimigos, a divergência democrática cede espaço à desumanização. Em vez de discutir condições de vida, políticas públicas e direitos, o debate se organiza em torno de ameaças hipotéticas, frequentemente construídas pela repetição de estereótipos.
No Brasil, existem milhões de pessoas trans, com histórias, experiências, necessidades e projetos de vida muito diferentes. São pessoas que estudam, trabalham, constituem famílias, produzem conhecimento e participam da vida pública. Nenhuma delas pode ser reduzida à figura da “travesti hipotética do banheiro”, personagem abstrata que transforma a existência de uma população inteira em instrumento de pânico moral.
Independentemente dos resultados das eleições, a polarização continuará sendo um dos nossos maiores desafios. Um dos trabalhos mais importantes — e também mais difíceis — é explicar que as pessoas trans não constituem um bloco homogêneo, não podem ser resumidas a uma controvérsia sobre banheiros e não devem precisar justificar permanentemente sua existência para serem reconhecidas como sujeitos de direitos.
A pergunta central, portanto, não é apenas quem vencerá a próxima eleição, mas quais recursos discursivos serão legitimados para conquistar o poder. Quando a proteção das crianças se transforma em argumento para estigmatizar uma população inteira, precisamos perguntar quem está sendo efetivamente protegido, de qual ameaça estamos falando e quais interesses políticos se beneficiam dessa construção.
Milhões de pessoas trans não cabem na personagem inventada para produzir medo. E nenhuma democracia se fortalece quando transforma cidadãos em inimigos para mobilizar eleitores.
A disputa é também pela linguagem, pela imaginação política e pela capacidade de reconhecer a humanidade de quem foi colocado do outro lado da fronteira ideológica. O Brasil quer discutir a vida concreta das pessoas trans ou continuará importando e reproduzindo personagens imaginárias para evitar o debate sobre direitos, desigualdades e responsabilidade democrática?
O desafio que se apresenta para o Brasil, portanto, ultrapassa o calendário eleitoral. Precisamos reconstruir as condições para uma conversa pública na qual diferenças não sejam automaticamente convertidas em ameaças e na qual a dignidade humana não dependa da aprovação de uma maioria circunstancial.
Brasil 247