O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que a França, palco de protestos contra o aumento do custo de vida, está "em chamas" e "destroçada" pela imigração. Em uma publicação na sua plataforma social, a Truth Social, o republicano instou o país europeu a endurecer suas regras migratórias. A principal queixa dos manifestantes diz respeito ao custo de vida. Eleito com o sonho de revitalizar a França: Macron vê mandato terminar em crise sistêmica e com protestos pelo país Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp "A França está em chamas! A imigração de pessoas de um mundo completamente diferente, pessoas com ódio no coração, destruiu esse país que já foi grandioso", disse Trump , acrescentando: "Fechem as fronteiras e retomem o controle, antes que seja tarde demais!" A publicação de Trump ocorre após comentários semelhantes feitos pelo vice-presidente JD Vance no sábado. "Os liberais ocidentais importaram o terceiro mundo para a França e outros países em nome da diversidade e da compaixão. Ignoraram questões fundamentais de assimilação e compatibilidade. Foram alertados de que isso levaria a essa situação, mas não ouviram", escreveu Vance no X, acrescentando: "Rezo para que a França, um país lindo com um povo maravilhoso, interrompa essa loucura antes que mais de seus monumentos sejam queimados", acrescentou.
As manifestações, a maiores em anos, deixaram vitrines estilhaçadas, barricadas carbonizadas e prédios públicos incendiados, à margem das marchas pacíficas, por confrontos, saques e ataques a prefeituras em várias cidades. De acordo com o ministro do Interior, Laurent Nuñez, mais de 1.800 pessoas foram presas, e mais de 500 policiais, gendarmes e bombeiros ficaram feridos.
“A República não cederá nada àqueles que procuram impor a desordem e a violência”, escreveu Nuñez no X. O ministro afirmou que “os danos materiais são consideráveis” e atribuiu a violência a milhares de manifestantes de “extrema esquerda” e a “criminosos que saquearam e vandalizaram” prédios em todo o país. O caos, que as autoridades classificaram como “sem precedentes”, aumentou a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron, que fará um pronunciamento à nação às 20h no horário local (15h em Brasília).
Milhares nas ruas Em Paris, lojistas varriam cacos de vidro logo cedo, e caminhões de lixo percorriam as avenidas para recolher os escombros, segundo a rede britânica BBC. Vitrines de grifes como Ralph Lauren, Gucci e Versace foram quebradas, e muitas fachadas amanheceram pichadas com frases como “taxar os ricos” e “comer os ricos”. Os atos de sábado reuniram entre 550 mil pessoas, segundo as autoridades, e 800 mil, segundo a CGT, principal central sindical do país. Em Paris, onde a polícia contabilizou cerca de 110 mil manifestantes, foram detidas 855 pessoas, um número que a corporação classificou de “recorde”. Um manifestante morreu de ataque cardíaco durante a marcha na capital, informou a polícia de Paris, segundo o jornal britânico Guardian. Mais de 500 continuavam presas neste domingo, entre elas 171 menores de idade. Protestos violentos contra o custo de vida deixam rastro de destruição na França Um dos símbolos da destruição foi a prefeitura de Limoges, cidade no centro-oeste do país famosa por sua porcelana, um prédio do século XIX que ficou em grande parte destruído por um incêndio durante a madrugada. O prefeito local atribuiu o ataque a “uma horda selvagem”. Em Marselha, mascarados invadiram a sede do governo local e derrubaram um busto de Marianne, símbolo da República Francesa. Em Lyon, um escritório de turismo foi consumido pelas chamas. — É como se tivéssemos passado por uma guerra — disse à AFP Mehmet Ozeden, um morador de 78 anos do centro de Paris, em meio a barricadas queimadas deixadas pelos protestos. O cenário segue semanas de protestos estudantis que, em alguns momentos, também se tornaram violentos. incêndio que destruiu parte da prefeitura de Limoges Melaine Payzal / AFP A versão oficial, no entanto, é contestada. Durante os atos, líderes sindicais e manifestantes relataram agressões por parte da polícia, que usou gás lacrimogêneo e canhões de água contra a multidão. Em Paris, a BBC viu policiais da tropa de choque avançarem contra um grupo e atingirem várias pessoas com cassetetes.
Cerca de 1,5 mil lojas foram danificadas em todo o país, segundo Alexandre Bompard, presidente da Federação do Comércio e da Distribuição, que estimou à emissora LCI um prejuízo de “várias centenas de milhões de euros”.
O dono de uma loja de roupas perto da Praça da República, que pediu para não ser identificado, contou à BBC que viu pelas câmeras de segurança os saqueadores permanecerem no local por mais de uma hora e meia, sem que nenhum policial aparecesse. Para ele, os autores não eram manifestantes, mas pessoas que se aproveitaram dos protestos. Os prefeitos de Paris, Marselha e Lyon pediram uma reunião com o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, nos próximos dias. A vice-prefeita de Paris, Lamia El Aaraje, lamentou “um nível de violência que, creio, nunca tínhamos visto” na cidade. Disputa política A escalada das manifestações deu lugar a uma troca de farpas a seis meses da eleição presidencial. Lecornu responsabilizou diretamente o partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI), acusando seus dirigentes de semear a desconfiança na polícia entre os estudantes ao longo da semana. Segundo o premier, informações de inteligência indicam que os primeiros agressores, que atacaram policiais e prédios públicos antes mesmo do início dos atos oficiais, eram da “ultraesquerda”. Manifestantes marcham contra o custo de vida em Paris Geoffroy Van Der Hasselt / AFP — Por trás de tudo isso, há obviamente uma batalha política a travar. Também é hora de escolher um lado. Ou você está no campo da República, e portanto das forças da ordem, ou está do lado dos desordeiros — afirmou Lecornu, que disse que o país chegou ao “ponto sem volta”. Contexto: Protestos contra o custo de vida na França mobilizam ao menos 550 mil pessoas; governo cita 1,2 mil detidos e 150 policiais feridos O líder da LFI, Jean-Luc Mélenchon, que apoiou abertamente as mobilizações e tem chances de chegar ao segundo turno da eleição de 2027, devolveu a acusação. Nas redes sociais, afirmou que Lecornu é “responsável pelo caos”, por “incompetência ou por uma estratégia do pior para criar um partido da ordem que faça esquecer seu fracasso nas finanças públicas”. No sábado, Mélenchon já havia condenado os saques, com ressalvas: “Aqueles que compartilham nossa luta não têm nada a ver com a pilhagem, com o saque”. A líder da extrema direita, Marine Le Pen, que lidera as pesquisas para a eleição presidencial, também culpou a “ultraesquerda”. Do outro lado, a vice-prefeita socialista de Paris acusou o partido de Le Pen, a Reunião Nacional, de alimentar as tensões em torno dos protestos para impulsionar a candidatura presidencial e de agir “como um bombeiro piromaníaco”. Os organizadores esperavam que o sábado unisse os protestos estudantis que tomam o país desde setembro, por melhores condições nas escolas, a um movimento social mais amplo contra o custo de vida, impulsionado em parte pela guerra no Oriente Médio. A convocação, sob o lema “Amarelos e Jovens”, partiu do movimento dos Coletes Amarelos, que há oito anos protestou contra o aumento de um imposto sobre combustíveis.
Para Mujtaba Rahman, analista do centro de estudos Eurasia Group, o ato de sábado “não foi um protesto político no sentido estrito da palavra”, e “a maioria das verdadeiras manifestações contra os altos preços dos combustíveis e as deficiências do sistema educacional foi pacífica”. Segundo ele, “a violência veio de um setor marginal da extrema esquerda”, enquanto os saques “foram obra de gangues oportunistas dos subúrbios empobrecidos”. “Tudo isso é uma boa notícia para Marine Le Pen”, escreveu o analista no X. Com AFP e The New York Times
O Globo