Trump diz que cooperação com Venezuela levou ao cancelamento de segundo ataque, mas mantém embarcações na região

 

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que cancelou uma segunda onda de ataques militares contra a Venezuela em razão da cooperação do país com Washington, mas disse que embarcações americanas permanecerão posicionadas na região “por motivos de segurança”. A declaração foi feita em uma publicação na rede Truth Social nesta sexta-feira, em meio a um movimento no Senado americano para restringir a capacidade do presidente de ordenar novas ações militares contra o país sul-americano sem autorização do Congresso.

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Segundo Trump, a Venezuela está “trabalhando bem” com os EUA, tanto na libertação de “grandes números” de presos políticos quanto na reconstrução de sua infraestrutura de petróleo e gás, o que teria tornado desnecessária uma nova ofensiva militar. “Por causa dessa cooperação, cancelei a segunda onda de ataques previamente esperada”, escreveu o presidente, acrescentando que todos os navios americanos permaneceriam no local “por razões de segurança”.

Foi a primeira vez que Trump mencionou publicamente a possibilidade de uma segunda onda de ataques contra a Venezuela. A declaração ocorre cerca de uma semana após o presidente ter ordenado uma operação militar que resultou na captura do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em uma ação noturna surpresa. Após a operação, Trump afirmou que os Estados Unidos passariam, na prática, a “administrar” o país e não descartou a possibilidade de um envolvimento militar prolongado.

Trump diz que cooperação da Venezuela, com libertação de presos políticos, levou ao cancelamento de uma segunda onda de ataques, mas afirma que embarcações dos EUA seguem na região

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Na quinta-feira, o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, anunciou a libertação de um “número significativo” de presos por razões políticas, incluindo cidadãos estrangeiros, a ativista Rocío San Miguel, presa em 2024 sob acusação de “traição à pátria, terrorismo e conspiração”, e o ex-candidato à Presidência Enrique Márquez. O governo venezuelano definiu a medida como um “gesto unilateral” para a “convivência pacífica”. Trump elogiou a ação, classificando-a como um “gesto muito importante e inteligente”.

O presidente americano também afirmou que Washington e Caracas estão cooperando na reconstrução da infraestrutura de petróleo e gás da Venezuela “em uma forma muito maior, melhor e mais moderna”. Trump disse ainda que se reuniria nesta sexta com executivos de grandes companhias petrolíferas na Casa Branca para incentivá-los a aumentar a produção venezuelana e fazer novos investimentos no país. Ele afirmou que “pelo menos US$ 100 bilhões” seriam investidos pela indústria, ainda que o setor tenha manifestado ceticismo quanto à disposição de aportar dezenas de bilhões de dólares ao longo de uma década.

Resistência no Senado

Embora Trump tenha afirmado que cancelaria a segunda ofensiva após sinais de cooperação com a Venezuela, a declaração do presidente foi feita apenas horas depois de o Senado americano avançar uma resolução baseada na Lei dos Poderes de Guerra que busca limitar a capacidade do presidente de conduzir novos ataques contra o país sem aprovação do Congresso. A medida foi aprovada por 52 votos a 47 para seguir adiante, com apoio de democratas e de cinco senadores republicanos.

A resolução praticamente não tem chances de se tornar lei, já que teria de ser aprovada pela Câmara dos Representantes, controlada pelos republicanos, e sancionada pelo próprio Trump. Ainda assim, o avanço do texto foi visto como um sinal de desconforto de parlamentares diante da ampliação das ações militares do governo na região.

— Se o presidente decidir colocar tropas em solo venezuelano, isso exigiria que o Congresso se manifestasse — afirmou Josh Hawley, um dos cinco senadores republicanos que votaram a favor da proposta.

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Trump reagiu ao resultado afirmando que os senadores que votaram a favor “nunca mais deveriam ser eleitos” e que a resolução “prejudica gravemente a autodefesa americana e a segurança nacional”. Democratas afirmaram que a votação representa uma rejeição à ideia de que o presidente possa, sozinho, decidir sobre o envio de tropas ao exterior sem debate ou autorização legislativa. O movimento ocorre enquanto o governo Trump avalia seus próximos passos não apenas na Venezuela, mas também em outros cenários internacionais, como a Groenlândia, citada como um possível alvo de ações mais assertivas dos EUA.

— Esta não foi apenas uma votação processual. É uma rejeição clara da ideia de que uma única pessoa pode, unilateralmente, enviar filhos e filhas americanos para o perigo sem o Congresso, sem debate — disse o líder democrata no Senado, Chuck Schumer, de Nova York.

Investida terrestre

Apesar do sinal positivo para a Venezuela, Trump indicou que a atividade militar dos EUA na região pode não ter chegado ao fim. Em entrevista à Fox News na noite de quinta-feira, o presidente afirmou que os Estados Unidos “começarão agora a atingir alvos em terra no que diz respeito aos cartéis”, referindo-se a instalações ligadas ao narcotráfico. O governo americano informou ter atacado mais de uma dúzia de embarcações que, segundo Washington, estavam envolvidas no tráfico de drogas.

A administração Trump usou o combate ao narcoterrorismo como uma das justificativas para a operação contra Maduro. Desde então, o presidente indicou que, embora os EUA considerassem usar as Forças Armadas para garantir a cooperação do governo interino em Caracas, ele esperava não precisar ordenar novas ações militares. Ainda assim, há meses ele vem sinalizando disposição para atingir instalações de produção de drogas em outros países, incluindo Colômbia e México.

— Vamos começar agora a atacar por terra os cartéis. Os cartéis estão controlando o México — disse Trump. — É muito, muito triste ver o que aconteceu nesse país.

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As declarações de Trump na quinta-feira ocorreram apesar de o presidente ter enviado sinais otimistas após uma ligação telefônica com o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, na quarta-feira. Após a conversa, Trump publicou nas redes sociais que apreciou a “ligação e o tom” de Petro. Petro, em sua própria publicação, afirmou que era mais conveniente iniciar um diálogo “do que resolver as coisas nos campos de batalha”. Os líderes concordaram em se reunir em Washington.

Também em Washington, o presidente americano deverá encontrar-se na próxima semana com María Corina Machado, líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz. Ainda à Fox News, Trump disse que estava “ansioso” para reunir-se com ela — que, em entrevista ao mesmo canal, afirmou que gostaria de entregar seu Nobel ao republicano pelo empenho dele em “devolver a democracia à Venezuela”. Quando questionado sobre isso, o presidente respondeu:

— Ouvi dizer que ela queria fazer isso. Seria uma grande honra.

No entanto, em Oslo, o Instituto Nobel declarou que é impossível transferir o prêmio. À AFP, o porta-voz da organização, Erik Aasheim, disse que “um Prêmio Nobel não pode ser revogado nem transferido a outra pessoa”. Ele acrescentou que, uma vez que o laureado é anunciado, “a decisão permanece para sempre”. Ainda assim, afirmou, o premiado “tem liberdade para fazer o que considerar apropriado com o dinheiro do prêmio”. (Com Bloomberg e AFP)