Trilhos insuficientes, baixa integração, custo alto: veja o que propõem Tarcísio e Haddad para desatar o nó do transporte em SP

Trilhos insuficientes, baixa integração, custo alto: veja o que propõem Tarcísio e Haddad para desatar o nó do transporte em SP - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Todos os dias, milhões de pessoas enfrentam um verdadeiro teste de resistência para circular na Região Metropolitana de São Paulo, a maior do Brasil e da América do Sul. O trânsito caótico e a superlotação nos transportes públicos refletem gargalos estruturais de um estado que, apesar de ser a locomotiva econômica do país, esbarra na dificuldade de garantir o direito de ir e vir com eficiência e dignidade, avaliam especialistas.

Com a corrida eleitoral para o governo do estado se aproximando do fim, a mobilidade desponta como um dos temas mais sensíveis e urgentes para quem assumir o Palácio dos Bandeirantes em janeiro de 2027. O GLOBO ELEIÇÕES: Participe da comunidade e saiba tudo sobre as campanhas, debates e sabatinas Aprovação, regulamentação e proibição: de Temer a Lula, como foram os oito anos das bets no Brasil O governador Tarcísio de Freitas, que disputa a reeleição pelo Republicanos, e o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, candidato do PT ao governo paulista, propõem em seus planos linhas estratégicas divergentes para desatar o nó da mobilidade. Um estudo recente do BNDES mostrou que, na Grande São Paulo, onde vivem pouco mais de 20 milhões de pessoas, 43% das que pertencem às classes D e E sequer saem de casa em um dia útil. É um índice alarmante de “imobilidade” urbana motivado principalmente por falta de renda para pagar passagens.

Transportes: mobilidade na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) Editoria de Arte Para quem consegue acessar a rede, o quadro é de saturação. Embora São Paulo tenha a maior malha de alta capacidade do país, a expansão metroferroviária é lenta, não tem acompanhado o crescimento da demanda. A atual modelagem de concessões preocupa especialistas. Oposição: Flávio chama MP do fim das bets de 'estelionato' e aponta risco de medida perder validade após a eleição Se os trilhos são insuficientes, o transporte sobre pneus também dá sinais de esgotamento. Os dados do BNDES mostram que os ônibus intermunicipais da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU) respondem por apenas 9,6% das viagens de transporte coletivo na Grande São Paulo, operando com uma frota mais velha (7,5 anos em média) que a da capital (6,3 anos). O estrangulamento logístico de transportes não poupa o interior e o litoral. Nos feriados e períodos de safra, o Sistema Anchieta-Imigrantes, por exemplo, vive o conflito permanente entre o tráfego de cargas rumo ao Porto de Santos e os carros de passeio a caminho da praia.

Passageiro se depara com portão fechado na estação de trens da CPTM em São Miguel Paulista Maria Isabel Oliveira/O Globo Projetos de ampliação de vias expressas ou terceiras faixas em curso no atual governo de Tarcísio esbarram na necessidade urgente de uma mudança de matriz de transporte, argumenta Rafael Calabria, coordenador de Mobilidade Urbana do Idec: — Com a estrutura que já temos, com dez faixas de rolamento no Anchieta-Imigrantes, é um erro categórico querer fazer uma terceira pista ou mais ampliações rodoviárias para atender o pico de feriados. O estado precisa criar urgentemente a alternativa, investindo maciçamente em ferrovias para tirar a dependência exclusiva do modelo rodoviário na descida para o litoral.

A retomada dos trens de passageiros para o interior, como o projeto do Trem Intercidades (TIC), ligando a capital a Campinas, é uma das vitrines disputadas na campanha para mitigar essa sobrecarga rodoviária. Foi licitado em 2024 pela gestão de Tarcísio com participação do governo Lula, padrinho político de Haddad, via BNDES e Novo PAC. Para especialistas, embora a expansão sobre trilhos para fora da metrópole seja vital, os projetos ainda são tímidos diante da real demanda. Os planos de Tarcísio e Haddad para os transportes divergem principalmente na participação do Estado nos investimentos. O atual governador aposta na ampliação do modelo de concessões e Parcerias Público-Privadas (PPPs). Sob o guarda-chuva do programa “SP Pra Toda Obra Nos Trilhos e Mobilidade”, Tarcísio promete formar uma rede integrada com metrô, trens metropolitanos e VLTs, além de corredores de ônibus (BRTs), a modernização de balsas litorâneas e a expansão do TIC. Projeto dos trens Intercidades (TIC) e Intermetropolitano (TIM) Editoria de Arte A atual gestão aposta na injeção de inteligência artificial (IA) e conectividade nos sistemas operacionais e de sinalização para diminuir intervalos e integrar a operação de mobilidade com os sistemas de segurança pública. Essa integração tecnológica é o principal argumento do plano de Tarcísio para responder às críticas de fragmentação da rede. Coordenação estatal Haddad baseia seu programa na ideia de que mobilidade eficiente “liberta tempo” para o cidadão e que o governo estadual deve retomar as rédeas da coordenação de todo o sistema, apesar da limitada capacidade de investimentos. Sem sugerir reestatizações drásticas, o petista foca seu programa no endurecimento da regulação das concessões vigentes sob a premissa de que “contrato vale para os dois lados”. Modelo financeiro da Linha 6-Laranja de metrô de São Paulo é uma das apostas do governador para contar com capital privado ne expansão do sistema Divulgação O ex-prefeito da capital, Haddad defende fortalecer o papel das agências reguladoras para obrigar as empresas a melhorar os serviços com multas e sanções mais rigorosas em caso de falhas operacionais como as recentes nas linhas metroviárias privadas que geraram transtornos aos passageiros. Seu plano também enfatiza a expansão do transporte sobre trilhos para conectar o interior e desafogar as rodovias, mas sem muito detalhamento. — Tarcísio busca soluções no setor privado, onde quem pode pagar tem mais eficiência. Haddad está mais perto da ideia do transporte como direito, apesar de ainda precisar apresentar pautas propositivas mais concretas para se diferenciar no setor — compara Santini, da USP.

O reflexo imediato da falta de integração e do sucateamento das redes intermunicipais de transporte coletivo é a fuga em massa de passageiros para os veículos particulares. Movidos pela ineficiência do sistema público, os cidadãos têm recorrido cada vez mais aos carros e, principalmente, às motocicletas, que tiveram um crescimento explosivo nas periferias. Pesquisas recentes mostram que os deslocamentos motorizados individuais na Grande São Paulo, impulsionados pelos aplicativos, já superam as viagens em transporte coletivo, asfixiando ainda mais a malha viária. O resultado é mais congestionamento nas ruas.

Compartilhar: WhatsApp Facebook Telegram X

Deseja ler a íntegra original na fonte jornalística?

Acessar matéria no site O Globo