Israelenses fizeram nesta quarta-feira uma série de homenagens e protestos para marcar os três anos do ataque liderado pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou cerca de 1,2 mil pessoas e levou outras 251 como reféns para a Faixa de Gaza. Familiares das vítimas voltaram a cobrar a criação de uma comissão estatal de inquérito para investigar as falhas que antecederam o atentado, enquanto atos ocorreram diante do Parlamento e das casas de integrantes do governo israelense. Em Gaza, onde a guerra desencadeada pelo ataque matou mais de 74 mil palestinos, segundo o Ministério da Saúde do território, novas ofensivas de Israel deixaram pelo menos três mortos.
Três anos depois: Atentado terrorista de 7 de Outubro ecoa entre israelenses e vira tema central nas eleições O GLOBO no Mundo: Receba as notícias internacionais direto no seu celular Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Este é o primeiro aniversário do atentado desde que todos os reféns, vivos e mortos, foram devolvidos a Israel. No sul do país, famílias se reuniram em cruzamentos, abrigos antiaéreos e no local do festival de música Nova, onde mais de 350 pessoas foram mortas. Às 6h29, horário exato em que os primeiros ataques foram lançados há três anos, parentes de sobreviventes se abraçaram enquanto explosões ocorriam em Gaza. Do lado de fora do Knesset, o Parlamento israelense, manifestantes levaram carcaças queimadas de carros das vítimas. O professor Aron Troen, cuja irmã, Shachar Matias, foi morta no kibutz Holit, afirmou que nenhum representante do governo visitou sua família nos três anos desde o ataque, enquanto Gal Goren, cujos pais, Avner e Maya, foram mortos em 7 de Outubro e tiveram os corpos levados para Gaza, declarou: — Como se escrevem três anos de saudade? Como se fala sobre 1.097 dias que, na verdade, são um único dia que nunca terminou? — questionou.
Minuto de silêncio Protestos também foram realizados diante da residência do premier de Israel, Benjamin Netanyahu, em Cesareia, de sua residência oficial em Jerusalém e das casas do presidente do Knesset, Amir Ohana, em Tel Aviv, do ministro da Justiça, Yariv Levin, e do ministro da Educação, Yoav Kisch. Na praia de Trumpeldor, em Tel Aviv, manifestantes pediram uma investigação para determinar os responsáveis pelas falhas que antecederam o ataque sem precedentes em Israel. Veja antes e depois: Novas imagens de satélite expõem a destruição de três anos de guerra em Gaza No mesmo local, fileiras de figuras humanas foram dispostas para representar as mais de 1,2 mil pessoas mortas e sequestradas. Ao lado da instalação, uma mensagem dizia: “7 de Outubro: o preço da falha”.
Ao meio-dia, um minuto de silêncio organizado de forma independente foi observado em centenas de locais do país. Segundo o Conselho de Outubro, organização civil responsável pela iniciativa, mais de 500 municípios, universidades, hospitais, escolas e outras instituições aderiram voluntariamente à homenagem. Como a data não é reconhecida pelo Estado como um dia oficial de memória, sirenes não foram acionadas, mas manifestantes usaram buzinas para imitar o som. — Uma comissão de inquérito é uma obrigação para os assassinados e suas famílias. Um governo que se recusa a investigar o abandono dá continuidade a ele — disse um representante do Conselho de Outubro. Eleições em Israel As cobranças por uma investigação ganharam novo impulso depois que integrantes do Conselho divulgaram no sábado conclusões de uma apuração independente que acusa Netanyahu de ocultar informações e desconsiderar repetidos alertas antes do ataque, incluindo advertências dos chefes do Shin Bet, do Mossad e do Exército. O grupo afirmou que pretende divulgar novas revelações nos próximos dias. Em meio ao cessar-fogo: Ataque aéreo israelense atinge prédio residencial e mata ao menos cinco pessoas em Gaza As homenagens ocorrem a poucas semanas das eleições israelenses de 27 de outubro e refletem as divisões em torno de Netanyahu, de sua condução da guerra e da resistência de seu governo à abertura de uma investigação oficial. As cerimônias oficiais do governo foram realizadas em 5 de outubro, data mais próxima do aniversário do ataque segundo o calendário hebraico. O ex-premier Naftali Bennett, que pretende derrotar Netanyahu nas eleições, visitou o local do festival Nova, observou fotografias das vítimas e conversou com familiares. Gadi Eisenkot, líder do partido de oposição Yashar!, encontrou famílias em um abrigo antiaéreo onde várias pessoas foram mortas enquanto tentavam escapar do ataque. Netanyahu, por sua vez, alertou nesta quarta-feira que o Hamas pode tentar realizar um novo ataque antes da votação, mas que Israel está preparado. — Justamente porque o Hamas está tão enfraquecido, ele tentará nos desafiar com o que resta de suas forças antes das eleições — disse. — Estamos preparados para isso. Contexto: Israel eleva alerta militar antes do aniversário de 7 de outubro e ameaça ‘resposta poderosa’ a possíveis ataques O presidente israelense, Isaac Herzog, lembrou as histórias de famílias enlutadas, reféns libertados, soldados, pessoas retiradas de suas casas e voluntários que conheceu nos últimos três anos. Em publicação no X, ele escreveu: “Há histórias de perda, sobrevivência, saudade e dor. Mas também histórias de recuperação (...). Em todas elas, uma ruptura profunda e uma força imensurável estão entrelaçadas”.
Gaza entre ruínas Em Gaza, nenhuma cerimônia era esperada nesta quarta. Três anos depois do ataque, grande parte dos cerca de 2 milhões de habitantes vive em extensos e precários acampamentos de tendas, enquanto áreas das cidades foram reduzidas a escombros. Mais da metade do território permanece nas mãos dos militares israelenses. Mais de 74 mil palestinos foram mortos em Gaza, segundo o Ministério da Saúde do território.
— Testemunhamos morte, destruição e bombardeios como nunca havíamos conhecido antes — disse à Associated Press Walid Akram, morador da Cidade de Gaza que, assim como grande parte da população do território, foi deslocado pela guerra. — Nenhum país no mundo passou pelo que vivemos aqui. Uma guerra de extermínio, fome, ausência de escolas e universidades… nada restou.
Novos ataques de Israel em Gaza nesta quarta mataram ao menos três pessoas, segundo autoridades palestinas. A Defesa Civil de Gaza identificou um dos mortos como Mohamed Tamous e afirmou que ele era voluntário da agência, que funciona como um serviço de resgate de emergência subordinado ao Hamas. Em Khan Younis, o Hospital Nasser disse que um homem de 60 anos foi morto em uma ofensiva israelense.
Enquanto isso, o Hamas divulgou um comunicado exaltando o ataque de 7 de Outubro como exemplo de “heroísmo, resiliência e solidariedade nacional” e afirmou que a ofensiva recolocou a causa palestina no centro da atenção internacional. Em vídeo no Telegram, o porta-voz do braço militar do grupo, Abu Obeida, classificou o atentado como um “milagre militar” e disse que ele destruiu a doutrina de segurança de Israel. — O conflito com o inimigo não começou naquele dia, assim como seus capítulos finais ainda não foram escritos — disse, acrescentando que o sucesso da ofensiva ocorreu graças a uma “hábil dissimulação estratégica” e ao aproveitamento de ameaças e oportunidades, atribuindo parte do resultado ao “narcisismo e arrogância” de Netanyahu.
O Conselho da Paz, órgão apoiado pelos EUA, por sua vez, afirmou que uma “segurança genuína e duradoura para Israel” deve ser a base de qualquer acordo de paz. Em nota, o órgão lamentou os mortos no conflito e afirmou que a guerra deixou “feridas profundas em toda a região”. Disse, ainda, que o Conselho de Segurança da ONU lhe confiou a tarefa de garantir que Gaza “nunca mais represente uma ameaça a Israel”. Memoriais destruídos Na Cisjordânia, o Exército de Israel destruiu nesta quarta memoriais supostamente dedicados a palestinos acusados de matar israelenses ou mortos em confrontos. Na região de Jenin, soldados destruíram um monumento de pedra e retiraram cartazes em homenagem a palestinos, segundo Hala Abu Baker, porta-voz da província.
Entenda: Netanyahu processa jornais enquanto relatos de que ignorou alertas sobre o 7 de outubro dominam campanha eleitoral Em Nablus, tropas israelenses “destruíram cinco memoriais dedicados a mártires em diferentes partes da cidade” e prenderam dezenas de moradores, segundo o vice-prefeito Iyad Bakeer. Em Beit Duqqu, o Exército também destruiu a casa de um palestino acusado de matar um colono israelense no mês passado. O prefeito Nazmi Mansour disse que militares entraram na cidade às 4h e distribuíram panfletos informando que demoliriam a residência do detido. Israel afirma que a demolição das casas de palestinos acusados de realizar ataques busca impedir novas ofensivas, enquanto organizações de defesa dos direitos humanos acusam o país de impor punição coletiva às famílias. Segundo levantamento da AFP baseado em dados do Ministério da Saúde palestino, forças israelenses ou colonos mataram 1.113 palestinos na Cisjordânia desde o início da guerra em Gaza. No mesmo período, 49 israelenses, entre civis e integrantes das forças de segurança, foram mortos em ataques palestinos.
(Com AFP)
O Globo