Iniciativas de transição energética são importantes não apenas para reduzir emissões de gases do efeito estufa que elevam a temperatura média do planeta. O tema também é essencial para promover inclusão econômica e social em comunidades locais, principalmente em regiões como a Amazônia.
Durante o evento “Transição Energética – a conta da mudança: quem paga, quem ganha e quem pode ficar para trás”, realizado pelos jornais Valor Econômico e o Globo em Belém, capital do Pará, nesta quarta-feira (4), executivos, empresários e especialistas em desenvolvimento destacaram os desafios e as oportunidades envolvidas no processo de mudar a matriz energética para fontes renováveis.
Segundo o gerente de regulação da distribuidora de energia elétrica Equatorial Pará, Gustavo Tavares, o acesso à energia é um dos primeiros passos à cidadania das pessoas, o que impõe ao processo de transição energética o entendimento de que nenhuma família deve ser negligenciada nos esforços de limpar as matrizes energéticas.
Nesse sentido, ele destacou que a Equatorial Pará tem feito o trabalho de cruzar os seus dados com os governos para identificar as famílias que precisam se beneficiar de tarifas sociais. A companhia, atualmente, atende 3 milhões de clientes no Pará, dentre os quais 1 milhão estão elegíveis a tarifas sociais.
Mas ele afirma que, pelo menos, mais 70 mil famílias estão mapeadas para que possam ser incluídas nesse sistema. “Trabalhamos em duas linhas principais.
A primeira é levar acesso à energia a todos e ainda há muita gente a ser atendida. A segunda etapa é oferecer condição de pagamento acessível”, disse Tavares no painel "Custos da transição e seus impactos sociais".
Eugênio Pantoja, gerente sênior de relações externas de B&A e diretor-técnico do Fundo Hydro, comentou que a empresa tem direcionado esforços para mudar a sua própria matriz energética e que, em meio ao processo, conduz programas de responsabilidade social para integrar a população das comunidades locais ao processo.
Um deles é o Programa Corredor, que estimula o desenvolvimento inclusivo com atividades de baixo carbono e positivo para a biodiversidade na Amazônia brasileira. O programa atua estrategicamente ao longo da região do mineroduto de bauxita na região das cidades de Paragominas e Barcarena, no Pará.
Energia de sementes de açaí Pantoja também contou que o Fundo Hydro iniciou um projeto para comprar sementes de açaí, que costumeiramente são jogadas nas ruas de cidades amazônicas como lixo, para aproveitar o insumo como fonte de energia para suas caldeiras.
Empresas de médio porte coletam os caroços do açaí e vendem para a empresa, numa ação que ajuda simultaneamente a limpar a matriz energética da companhia e a gerar uma nova frente de negócio local. “É uma oportunidade de transformar um resíduo em um novo negócio.
Retira do ambiente o que era um problema e se transforma em uma oportunidade”, comentou Pantoja. Fatima Chamma, CEO da Chamma da Amazônia, produtora de perfumes e cosméticos, destacou que a transição energética precisa ser pensada para ajudar toda a cadeia produtiva da Amazônia, o que ajudará a elevar a qualidade de vida local.
“A transição energética tem que interferir na cadeia produtiva para ajudar na melhoria logística e na qualidade dos produtos. Gastamos muito com fretes altíssimos e o custo de energia”, disse Chamma.
“A transição energética precisa ser compartilhada. E uma das maneiras é dar apoio para micro e pequenas empresas aprenderem a se financiar” e operar, acrescentou.
Para Chamma, a transição energética precisa ser pensada e executada junto com outras prioridades estratégicas, como a melhoria das infraestruturas locais, para o desenvolvimento de uma indústria sustentável a partir dos produtos da bioeconomia amazônica. “Temos um potencial maravilhoso.
Acredito que vamos sair desse estigma de mero distribuidor de insumos”, disse. “Mas tem que pensar na cadeia toda para que todos cresçam.
Por exemplo as embalagens que trazemos de fora precisam começar a ser produzidas aqui”, adicionou. “Não adianta gerar energia limpa sem melhorar as condições do povo.”
Valor