Capivaras na rua, campos de futebol alagados e parques fechados: cheia histórica causa transtornos na represa de Guarapiranga, em São Paulo

Capivaras na rua, campos de futebol alagados e parques fechados: cheia histórica causa transtornos na represa de Guarapiranga, em São Paulo - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Segundo maior reservatório de água da Região Metropolitana de São Paulo, com produção hídrica que abastece cerca de 5 milhões de pessoas, a Represa de Guarapiranga, na Zona Sul, também utilizada para lazer e competições náuticas de milhares de paulistanos - o velejador Robert Scheidt "nasceu" ali -, atingiu na semana passada seu segundo maior nível já registrado na série histórica.

Em 26 de outubro, as réguas mostraram 97,7%, marca um pouco menor da apontada pouco mais de um mês antes, em 23 de setembro: 97,9%. Antes disso, os recordes haviam ocorrido em 2009, quando os índices chegaram a 94%, e 1983, com 96% da capacidade do reservatório.

Nesta quarta-feira (4), o manancial está com 89,8%, o menor índice em quase dois meses. Para efeito de comparação, o índice era de 40% na mesma data, 4 de novembro, há dois anos.

O principal motivo para a cheia no Guarapiranga é a quantidade de chuva. No mês passado, caíram 232 milímetros cúbicos de água, mais que o dobro da média histórica para outubro, de 114 milímetros cúbicos.

No mês anterior, foram 342 milímetros (média de 75 milímetros). Tanto setembro quanto outubro são períodos de seca, em que a represa apresenta os menores índices.

A consequência da cheia histórica e fora de hora é vista de diversas formas. O Parque da Barragem, de controle municipal, está fechado há mais de um mês.

Na segunda-feira (2), o GLOBO navegou pela região e chegou até perto de um campo de futebol quase atingido pelas águas. Não tiveram a mesma sorte a pista de caminhada e os bancos usados para descanso dos frequentadores do parque.

– Tenho mais de 50 anos de represa e poucas vezes vimos o nível desse jeito. Semana passada estava ainda mais cheio.

Para piorar, não conseguimos contato com a Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia S.A, privatizada na gestão estadual atual) —, não temos previsão dos trabalhos e abertura da comporta para o verão, a época de maior chuva — afirma o empresário Augusto Bat, dono de uma pousada na beira da represa, responsável por levar a reportagem aos locais alagados.

Além do parque, O GLOBO navegou até outro campo de futebol, de propriedade de um dos vários clubes particulares no entorno da represa. De longe, a grama parecia verde e apta a receber os jogadores, mas ao se aproximar deu para ver que o gramado estava submerso e coberto por algas, levadas pelo vento.

Ali a bola não rolará tão cedo. Campo alagado e tomado por algas na Guarapiranga

Edilson Dantas / O Globo Procurada para uma entrevista, a Emae mandou uma nota afirmando que o reservatório Guarapiranga permanece dentro dos níveis de segurança operacionais, mas não disse quais são eles.

Além disso, o órgão informa que desde 26 de outubro faz a liberação controlada de água para o rio Pinheiros, "como medida preventiva de controle de cheias, com monitoramento contínuo do reservatório e das condições meteorológicas", afirma, na nota. Perto do Parque da Barragem, as marinas que abrigam barcos, lanchas e motos aquáticas também operaram por várias semanas com a água para cima das canelas.

Dono de uma delas, o empresário André Szenttamasy, que atua na marina Fibramar desde 1974, afirma não entender a falta de interligação entre as represas da região - a outra é a Billings —, como ocorre com os cursos d´água do Sistema Cantareira. – Temos muita água, eu sou super a favor, pois onde tem água tem vida e nós trabalhamos em paz.

Mas não entendo por que esse excesso, sabe? Tendo em vista que nós nem chegamos ao período de chuvas que termina em março, como estaremos nos próximos meses? Enquanto isso, vemos a Emae jogando a água fora, para o Rio Pinheiros, e que depois será misturada ao lixo. Por que essa água não vai para as outras represas? Questiona o empresário.

Marina operando com água acima do nível Edilson Dantas/O Globo

Na frente da marina de Szenttamasy existe a Ilha dos Amores. Aos fins de semanas sem chuva, centenas de turistas, vindos com os maios variados veículos náuticos, ocupam a área para os mais variados tipos de lazer, como churrasco, samba, crianças brincando, como se fosse uma praia.

Hoje, com árvores submersas e uma exígua área seca, a brincadeira ali também está suspensa até as águas baixarem. Assim como a ilha, as outras "prainhas" da região também estão alagadas e fechadas.

Além dos humanos, outros que sofrem são os animais. Na semana passada, um casal de capivaras foi visto no canteiro central da Avenida Atlântica.

Segundo os relatos e vídeos que circularam nas redes, elas não teriam encontrado área seca na represa e se abrigaram próximo aos carros. – Eu vi o desespero das bichinhas.

Elas são curiosas, e o negócio delas é procurar pasto. Quando toda a margem do rio está cheia, o pasto fica submerso e morre, então elas vão buscando o pasto um pouco mais para cima.

Hoje, a linha d'água está mais perto da Avenida Atlântica, então elas vão buscar o pasto ali. O capim que elas comem não cresce submerso – afirma o ambientalista Cesar Pegoraro, educador e mobilizador da Fundação S.O.S.

Mata Atlântica. Capivaras sem área para pasto, na beira da Guarapiranga

Edilson Dantas / O Globo Para Pegoraro, há outros fatores que explicam a cheia atípica da Guarapiranga, além da chuva.

Na última década, a região Sul da capital, juntamente com suas franjas na Região Metropolitana, foram alvo de inúmeros processos de invasões e loteamentos clandestinos. Um deles fica no Jardim Aracati.

Em 2019, um grande terreno particular à beira da represa foi transformado em um condomínio com dezenas de casas. A primeira a chegar ali foi a infraestrutura, com asfalto e iluminação pública, mesmo não havendo licenciamentos ambientais e de obras.

Hoje, há pelo menos cem casas no espaço onde havia uma vasta floresta. – Vivemos um fenômeno complexo, que é a mudança no padrão do uso do solo aqui na região.

Isso tem se transformado em habitações populares, muitas delas irregulares, e ligadas ao crime organizado. Isso não é novidade para ninguém, nem paro o governo, todo mundo sabe.

E o que acontece é que essas habitações irregulares não têm tratamento de esgoto. Então, o que acontece é que a gente está levando mais água com sedimento e com esgoto para dentro da represa.

Há vários estudos que mostram também que o assoreamento da represa está deixando seu curso cada vez mais raso – afirma. O ambientalista alerta também para as construções fora da vista da represa, em áreas de preservação em municípios como Itapecerica da Serra e Embu.

– Esses lugares estão relativamente longe da represa, mas a água que vem sendo drenada de lá vai chegar na represa em algum momento. Então, o que você viu no Jardim Aracati ilustra perfeitamente o que acontece, por exemplo, em Itapecerica.

Temos uma bacia que está sendo ocupada em toda a sua plenitude – afirma o membro da S.O.S. Mata Atlântica.

Em nota, a SP Águas, vinculada à Secretaria do Meio Ambiente, afirma que acompanha as manobras feitas pela Emae, por meio de uma sala de situação, monitorando os níveis, as vazões e os volumes armazenados na Guarapiranga. História e conquistas

Inaugurada em 1908, a Guarapiranga foi construída para dar vazão à usina hidrelétrica de Parnahyba, hoje Edgard de Souza, em Santana do Parnaíba, na Grande São Paulo. Em 1924, a represa passou a ser utilizada também para o fornecimento de água.

Na época, a cidade contava com 580 mil moradores. Ao longo dos anos, o local passou a ser utilizado para esportes náuticos.

Um de seus expoentes é Robert Scheidt, velejador no local desde os nove anos e dono de cinco medalhas olímpicas. Com 27 quilômetros quadrados de área alagada, mais de 20 vezes o tamanho do Aterro do Flamengo, o manancial tem capacidade para armazenar mais de 170 bilhões de litros de água.

Ao todo, a represa tem 18 praias regulamentadas pela prefeitura. A mais conhecida é a Praia do Sol, que também está fechada há mais de um mês, devido à faixa de areia ainda estar tomada de água.

Além das praias, o entorno da represa conta com cinco parques, dos quais quatro são lineares. Outro ponto importante do local é a grande quantidade de aves migratórias que passam por ali, incluindo grupos que vêm do hemisfério norte.

Segundo relatório publicado este ano na Revista do Instituto Florestal, a área abriga ao longo do ano pelo menos 261 espécies de aves.

Publicação Original O Globo oglobo.globo.com
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