Trajeto, roupa, gestos: Flávio emula o pai na primeira agenda no local de facada em 2018, mas tem recepção mais morna

Trajeto, roupa, gestos: Flávio emula o pai na primeira agenda no local de facada em 2018, mas tem recepção mais morna - Foto
Fonte da notícia: O Globo O Globo

Na primeira agenda de campanha em Juiz de Fora (MG), cidade em que o pai foi vítima de uma facada durante a corrida ao Planalto em 2018, o senador e candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) decidiu reproduzir, no simbólico local, gestos e símbolos usados por Jair naquela ocasião. O ex-mandatário foi evocado no trajeto do ato, nas roupas do parlamentar e nos discursos, mas a recepção ao herdeiro, seja no público seja no engajamento, foi mais morna nesta quarta-feira.

'Baixa o dedinho' x 'vai ficar na sua cara': Elmano e Ciro batem boca durante debate no Ceará; assista De Bolsonaro e o PCO como alvos à remoção de Moraes da relatoria: A linha do tempo do inquérito das fake news O ponto escolhido para o encontro com os eleitores foi a esquina entre as ruas Halfeld e Batista Oliveira, no Centro de Juiz de Fora, exatamente onde, há oito anos, Jair acabou atacado. O ex-presidente foi vítima de um atentado durante o cumprimento de uma agenda enquanto era carregado por seguidores. O trajeto foi refeito por Flávio, que vestia uma camisa verde e amarela com os dizeres “Meu partido é o Brasil”, reproduzindo a peça usada pelo pai no episódio de 2018. Tal qual Jair, o senador também subiu nos ombros de um apoiador e foi conduzido entre a multidão que o acompanhava. — Nós, simbolicamente, chegamos até o destino onde Bolsonaro chegaria naquele 6 de setembro de 2018, quando ele levou uma facada. Isso mostra que não vamos desistir nunca. Foi uma volta simbólica, usando a mesma camisa que ele usava naquele dia, em cima dos ombros e nos braços do povo mineiro — disse Flávio. — Não pensem que, enquanto eu estava aqui no meio de vocês, não me veio a imagem de um ex-integrante do PSOL cravando a faca na barriga dele, tentando impedi-lo de ser presidente da República.

'Meu partido é o Brasil': Flávio repetiu camisa de Jair Fabiano Rocha A agenda estava inicialmente prevista para 16 de agosto, o segundo dia da campanha nas ruas autorizada pela Justiça Eleitoral. Na data marcada, no entanto, o avião do senador, que vinha de Brasília, não conseguiu pousar no aeroporto de Juiz de Fora em função do mau tempo, e o ato precisou ser cancelado. A mesma situação se repetiu nesta quarta-feira, mas o senador decidiu aterrisar em Goianá, a cerca de 40 quilômetros do destino original. Em seguida, partiu em direção ao ponto de encontro no aeroporto de Juiz de Fora. O imprevisto provocou um atraso de uma hora e meia para o início da manifestação, deixando parte dos cerca de 80 apoiadores que o esperavam insatisfeitos. Assim como o pai, Flávio foi carregado por apoiadores Fabiano Rocha Dali, ele liderou uma motociata até o Centro, mas, diferentemente do pai, percorreu o trajeto em um trio elétrico, não de moto. O comboio repetiu desde o ponto inaugural até o destino final o caminho de Jair na largada da campanha de 2022, quando disse ter “renascido” na cidade depois da facada sofrida quatro anos antes.

Flávio também decidiu visitar a Santa Casa de Misericórdia, hospital para onde o pai foi socorrido e ficou internado depois da agressão. A temperatura da manifestação, no entanto, não foi a mesma das passagem do ex-presidente pelo município. Camelôs que vendiam camisas, bonés e bandeiras do Brasil durante o ato, por exemplo, afirmaram ao GLOBO que as vendas estavam "fracas". Flávio convive com um impasse sobre como se portar diante da crise no STF Fabiano Rocha Impasse A tentativa de trazer para a campanha referências à trajetória política do pai aparece em um momento em que pesquisas como a Quaest mostram o senador em empate numérico no segundo turno com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 41% cada. O quadro também coincide com a crise institucional no Supremo Tribunal Federal (STF), alvo constante de críticas do bolsonarismo. Nas últimas semanas, a campanha de Flávio tem apostado especialmente no endurecimento de ataques ao ministro Alexandre de Moraes. O movimento ganhou tração após a quebra do sigilo da investigação sobre o Banco Master na semana passada, quando vieram à tona mensagens enviadas ao magistrado por Daniel Varcuro. Parte da equipe do senador, contudo, teme que a estratégia afaste parte do eleitorado que ainda não definiu o voto. É nesse cenário que o tema passa a representar um dilema para aliados de Flávio. Se, por um lado, a ofensiva ajuda o candidato a reafirmar sua identidade política e a falar diretamente com um eleitor que espera dele uma postura mais agressiva e parecida com a do pai, por outro os ataques envolvendo impeachment, “ditadura de Moraes” e a promessa de retirar o ministro do STF podem produzir outra leitura entre quem ainda está em dúvida. Existe a leitura, por exemplo, de que, para esse eleitor, a discussão pode passar a representar o risco de uma nova fase de conflito institucional.

A orientação, então, tem sido manter Moraes como um dos principais alvos, mas evitando que o candidato transforme a crítica ao ministro em uma contestação generalizada ao Supremo. O cálculo é preservar o poder de mobilização da pauta sem reforçar a imagem de que um eventual governo de Flávio seria marcado por uma disputa permanente com o Judiciário.

— Nós temos que defender as instituições e proteger o Supremo. Uma laranja podre não pode contaminar a mais alta Corte do país. O STF não é Alexandre de Moraes. O Judiciário não é Alexandre de Moraes, e os juízes do Brasil não são ele. O problema é ele, não é o Supremo — discursou Flávio em Juiz de Fora.

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