Todo mundo quer voltar aos anos 80 com IA. Mas o que existe por trás da trend?

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Fonte da notícia: O Globo O Globo

Cabelos volumosos, ombreiras, maquiagem marcada e uma estética típica dos anos 1980 tomaram conta das redes sociais nos últimos dias. A nova trend, que usa inteligência artificial para recriar como uma pessoa seria naquela década, fez as buscas pelo termo crescerem 5.000% no Google em apenas uma semana e ganhou versões estreladas por nomes como Sabrina Sato, Ana Maria Braga e Paolla Oliveira. Poucos dias antes, outro viral já havia levado famosos a aparecerem em vídeos produzidos por IA, com cortes de cabelo que nunca aconteceram.

Por que todo mundo quer se ver nos anos 80? Trend de IA viraliza nas redes Trend de IA simula famosas com cabelo curto e levanta dúvida: funciona? Para participar, bastam uma foto, alguns comandos e poucos segundos de processamento. Na tela, tudo parece simples e, muitas vezes, gratuito. Fora dela, porém, existe uma conta que não aparece na postagem. Essa conta começa longe do celular. Um levantamento da Universidade das Nações Unidas estima que, com a expansão da inteligência artificial, a pegada hídrica relacionada à eletricidade consumida pelos data centers poderá chegar, até 2030, ao equivalente às necessidades domésticas básicas anuais de água de 1,3 bilhão de pessoas na África Subsaariana. A projeção não se refere especificamente a uma trend ou a um tipo de imagem, mas ajuda a dimensionar a infraestrutura necessária para sustentar a crescente demanda por ferramentas de IA. Cada imagem gerada, afinal, depende de uma cadeia física de processamento. Especialista em tecnologia e inteligência artificial, João Paulo Batistella explica que os comandos enviados pelos usuários são processados em servidores instalados em data centers. Essas máquinas consomem eletricidade, produzem calor e precisam de sistemas de refrigeração para continuar funcionando, em alguns casos, com utilização de água. "Quando você pede uma imagem e recebe o resultado em segundos, parece que tudo aconteceu dentro do celular. Mas existe uma estrutura inteira trabalhando para entregar aquilo. Quanto mais complexa a geração e maior o número de pessoas usando ao mesmo tempo, maior também é a demanda por processamento, energia e refrigeração", afirma. É na escala que o impacto se torna mais relevante. Uma única imagem dificilmente é capaz de dimensionar o custo ambiental da inteligência artificial. O cenário muda quando milhões de pessoas fazem solicitações simultaneamente, repetem os comandos para ajustar detalhes ou geram dezenas de versões até chegar à imagem desejada. A popularização de uma trend pode, portanto, representar mais uma onda de demanda sobre uma infraestrutura que já cresce rapidamente. Segundo a Universidade das Nações Unidas, entre 80% e 90% do consumo energético relacionado à IA pode ocorrer durante a utilização dos modelos já treinados. O levantamento também aponta que uma imagem típica gerada por inteligência artificial pode exigir cerca de 1.450 vezes mais energia do que uma tarefa básica de classificação de texto. Isso não significa que uma foto produzida para uma brincadeira nas redes possa ser responsabilizada individualmente por esse impacto. O dado ajuda, porém, a mudar a percepção sobre o que acontece por trás de uma tecnologia que costuma ser apresentada como instantânea, imaterial e aparentemente sem custo. Cada interação é sustentada por máquinas, servidores, eletricidade e sistemas de refrigeração. Para Batistella, a popularização dessas ferramentas também traz uma nova dimensão para a ideia de responsabilidade digital.

"Não é uma questão de parar de usar inteligência artificial ou deixar de participar de uma trend. É entender que o digital também consome recursos no mundo físico. A responsabilidade precisa existir dos dois lados: empresas tornando essa infraestrutura mais eficiente e transparente, e usuários entendendo que gerar dez, vinte ou cinquenta versões descartáveis também tem um custo", pondera. A discussão não é, portanto, sobre deixar de brincar com a tecnologia, mas sobre reconhecer que a experiência aparentemente instantânea diante da tela tem uma infraestrutura por trás.

"A IA pode continuar fazendo parte da nossa rotina, mas não deveria ser tratada como se cada clique tivesse impacto zero", conclui o especialista.

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