A família de “matrioskas” - ou melhor, de SUVs - da Caoa Chery acaba de receber seu quarto integrante. O novo Caoa Chery Tiggo 9 chega às lojas em duas versões, a combustão e híbrida plug-in (PHEV), com preços a partir de R$ 249.990.
Com espaço para sete ocupantes e um pacote de equipamentos incrementado, o SUV médio quer oferecer experiência próxima a de um carro de luxo, mas por valores mais acessíveis. Sendo assim, o Tiggo 9 se enquadra em diversos segmentos, a depender do critério de comparação.
Pelas dimensões, equipamentos e capacidade de transportar sete pessoas, o novo Caoa Chery encara o GWM Haval H9 (R$ 335.000), Jeep Commander Blackhawk (R$ 329.990), Mitsubishi Outlander PHEV (R$ 329.990) e até o Toyota SW4 SRX Platinum (R$ 424.590). Considerando o preço, o Tiggo 9 ainda concorre com SUVs de apenas cinco lugares, como Volkswagen Tiguan R-Line (R$ 299.990), BYD Song Plus Premium (R$ 299.800) e GWM Haval PHEV35 Flex (R$ 290.000).
Começando pelas dimensões, o Caoa Chery Tiggo 9 tem 4,81 metros de comprimento, 1,93 m de largura, 1,74 m de altura e 2,80 m de distância entre-eixos. Compará-lo ao Tiggo 8 é inevitável, então, o novo SUV é 9 cm maior em comprimento, 7 cm mais largo e ganha na distância entre-eixos por 9 cm.
Por fora, as versões a combustão e híbrida são praticamente idênticas. Mudam o design das rodas (sempre calçadas em pneus 245/50 R20) e o “badge” alusivo à configuração.
Somente a versão a combustão - que, segundo a marca, será a mais vendida no Brasil - está disponível com a carroceria pintada na cor cinza. Por dentro, o pacote de equipamentos é exatamente igual.
O porta-malas, cuja tampa tem acionamento motorizado, tem 148 litros quando todos os bancos estão em uso. Com a terceira fileira rebatida, o número aumenta para 819 litros, considerando o volume do assoalho até o teto.
O que corrobora para a boa capacidade é o fato de os bancos rebaterem para dentro do assoalho, liberando espaço na cabine. Há um pequeno alçapão para guardar o kit para a troca de pneu, pois o estepe está posicionado na parte inferior traseira do SUV.
O Caoa Chery Tiggo 9 tem visual tão semelhante ao do Tiggo 8 que muitas pessoas nem devem notar que se tratam de carros diferentes. Daí a comparação com as matrioskas, as famosas bonecas russas de diversos tamanhos.
Faróis de LED, lanternas traseiras interligadas e acabamento no formato de “diamantes” na grade frontal são pontos em comum. Este é o maior e mais caro SUV da Caoa Chery à venda no Brasil - e, embora tal característica não seja óbvia pelo lado de fora, o “degrau” entre estes dois utilitários está evidente na cabine.
Começo a desbravar o interior do Tiggo 9 pela parte traseira e percebo que este não é um Caoa Chery normal. O console central traz comandos para ventilação e aquecimento das extremidades, além de saídas de ar-condicionado com seletor da intensidade do vento.
Não se trata de uma zona extra, pois o display não permite escolher a temperatura, apenas a velocidade de ventilação. Há um pequeno joystick na lateral do banco do passageiro dianteiro, o que permite ao passageiro traseiro projetá-lo para frente e liberar mais espaço.
Então, além de agradar grandes famílias, o Tiggo 9 faz um aceno a quem busca um carro de proposta mais executiva. O banco traseiro pode ser projetado para frente ou para trás por comandos elétricos, assim como o ângulo de inclinação do encosto.
Para finalizar, as portas trazem cortinas que filtram a luz do sol. Pelo que custa, o Tiggo 9 é um carro bem incrementado.
Quanto ao espaço interno, pelo fato de o banco traseiro deslizar para frente e para trás, a área para as pernas é suntuosa. Mesmo com o assento todo para frente, meus joelhos - tenho 1,85 m de altura - estavam a quatro dedos das costas do banco dianteiro.
Já o espaço disponível para os pés é prejudicado pela elevação do túnel central, algo presente até no modelo híbrido, onde a tração traseira ocorre exclusivamente pelo motor elétrico ali instalado. No caso do modelo a combustão, a transferência ao eixo traseiro ocorre por cardã.
Me acomodo no banco do motorista e reparo no acabamento interno. O Tiggo 9 combina couro sintético de toque refinado, plástico preto brilhante que fica engordurado com facilidade, imitação de aço escovado e borracha.
Mesmo as portas traseiras são caprichadas e trazem iluminação ambiente, algo raro nos carros que não são oriundos da China. O painel é extremamente genérico, pois, sem o logotipo da Chery no volante, o Tiggo 9 seria confundido com qualquer outro modelo chinês.
A central multimídia de 15,6 polegadas tem boa resolução, funcionalidades inteligentes e um layout intuitivo e bonito. Já o pareamento de celulares ocorre via Android Auto e Apple CarPlay, mas vale dizer que o Tiggo 9 tem um GPS nativo.
Como em outros SUVs chineses, o gráfico da central multimídia é cristalino e bem iluminado, especialmente quando reproduz a câmera 360°, que faz uma projeção 3D do Tiggo 9 visto de fora. A tela permite acionar o assistente de estacionamento semiautônomo, que pode tanto efetuar balizas quanto parar em vagas num ângulo de 90°.
Para os comandos do ar-condicionado aparecerem, o motorista deve fazer um gesto de “arraste para cima” com a ponta do dedo na parte inferior da central multimídia, ou clicar no botão físico “AC”, no console. É um atalho bastante útil.
Neste console está o seletor de modos de condução rotativo, onde o motorista poderá selecionar o tipo de dirigibilidade mais adequado a cada situação. Tem até um modo off-road, embora um carro de proposta mais luxuosa dificilmente encare desafios maiores do que uma estrada de terra a caminho do sítio num sábado de sol.
Por fim, os bancos dianteiros oferecem massageadores e função de aquecimento e resfriamento, mas o volante multifuncional só esquenta. A versão mais barata, a AWD, é equipada com motor 2.0 TGDi turbo a gasolina de quatro cilindros, com 16 válvulas e injeção direta de combustível, que entrega 224 cv de potência e 36,7 kgfm de torque.
O câmbio é automático de oito marchas e a tração, integral. Já a opção híbrida plug-in (PHEV) do Tiggo 9 combina o motor 1.5 TGDi turbo a gasolina com outros três elétricos para entregar 428 cv e 59,2 kgfm.
Sua bateria tem 34,5 kWh de capacidade (LFP) e o câmbio (DHT) tem 3 marchas mecânicas e o resto das relações elétricas. Autoesporte teve contato com ambas num curto test-drive por São Paulo, totalizando cerca de 10 km.
Optei por dirigir primeiro a versão a combustão, incubida da tarefa de ser a mais vendida do Tiggo 9. Antes, resetei o computador de bordo e selecionei o modo Eco para extrair meus próprios resultados de consumo.
Desde os primeiros metros, ficou claro que a experiência premium passa mais pelo pacote de equipamentos e a boa variedade dos materiais do que por uma condução refinada. Na verdade, é exatamente isso que falta ao SUV.
As vibrações do motor são transmitidas à cabine, assim como o som, embora o isolamento acústico seja eficiente ao mitigar outros barulhos indesejados, como motociclistas e caminhões passando ao lado. A impressão é que falta “polimento” para garantir ao Tiggo 9 um comportamento mais suave.
O câmbio automático de oito marchas reage bem aos estímulos do pedal, reduzindo ou avançando suas relações na medida correta. Mas o esforço para carregar este corpanzil de 1.908 kg é notório, o que explica a aceleração de 0 a 100 km/h em 9,1 segundos, declarada pela fabricante.
Na cidade, por outro lado, há fôlego suficiente para encarar todos os desafios. De acordo com o Inmetro, o Caoa Chery Tiggo 9 faz 8,5 km/l na cidade e 10,9 km/l na estrada com este motor 2.0 a gasolina.
À minha frente, na tela de 10,2 polegadas, o computador de bordo marcou 11,5 km/l em um trajeto estritamente urbano, em velocidades de até 60 km/h - mas é claro que um percurso de 6 km não conta toda a história sobre o SUV. Com essa impressão positiva sobre o consumo do Tiggo 9 a combustão, mudo para a versão híbrida plug-in com motor 1.5 turbo de 428 cv e 59,2 kgfm.
E aqui, a impressão sobre sua dirigibilidade é bem mais refinada. Isso porque o Tiggo 9 se desloca em modo elétrico em velocidades citadinas, ainda que o motorista tenha selecionado a opção de mesclar os motores.
De acordo com o Inmetro, ele pode rodar até 108 km no modo puramente elétrico. Portanto, as vibrações que incomodaram na outra versão não estão mais presentes, proporcionando um rodar mais suave e silencioso.
O acerto de suspensão, independente McPherson na dianteira e multilink na traseira, é diferente por conta do peso extra que faz o SUV totalizar 2.265 kg nesta versão híbrida - consequência da bateria de 34,5 kWh. A impressão é que os amortecedores do Tiggo 9 PHEV são mais rígidos, o que transfere os impactos diretamente à cabine.
Se o arranjo da suspensão é distinto entre as versões, a direção elétrica tem comportamento bem semelhante. A diferença fica por conta das vibrações do motor a combustão, que são transferidas ao volante, algo que não ocorre quando a configuração híbrida circula em modo elétrico.
Há bastante anestesia e pouca clareza da interação do pneu com o asfalto, pois a direção é tão leve que as rodas sequer aparentam estar em contato com o chão. Quanto ao consumo nesse curto trajeto, o computador de bordo marcou 30,3 km/l com gasolina.
O motor a combustão ligou apenas para encarar subidas e retomadas de velocidade, permanecendo desligado no resto do tempo. Dá para configurar a gestão de carga pelo SOC ("State of Charge"), onde é possível utilizar o motor a combustão para recarregar a bateria.
A forma mais eficiente de recuperar a carga é plugado na tomada. O Caoa Chery Tiggo 9 tem potência de recarga de 6,6 kW em estações de corrente alternada (AC) e de 71 kW em corrente contínua (DC).
Neste último caso, a bateria vai de 30% a 80% em vinte minutos. Os freios são sempre a disco ventilados e sólidos.
Além disso, são sete modos de condução - Lama, Neve, Off-road, Areia, Eco, Normal e Sport - aos quais iremos testar em outra oportunidade, quando tivermos mais tempo ao volante do que neste primeiro contato. Entre os itens de segurança estão 10 airbags, câmera 540º com guias dinâmicas, faróis com acendimento automático, sensores de estacionamento dianteiros e traseiros, frenagem de emergência (EBA), controle de estabilidade e tração, monitoramento da pressão dos pneus (TPMS), alerta de colisão frontal (FCW), traseira (RCW), de tráfego cruzado (RCTA), assistente de permanência em faixa (ELK), frenagem automática com tráfego cruzado traseiro (RCTB), monitoramento de ponto cego (BSD) e piloto automático adaptativo (ACC).
As qualidades e defeitos do Caoa Chery Tiggo 9 estão evidentes neste primeiro contato. Por este preço, você não encontrará outro carro tão equipado nem em outras marcas chinesas, e o nível de acabamento também surpreende na comparação com os concorrentes.
Pelo lado negativo, falta fôlego e uma dirigibilidade mais apurada ao modelo movido somente a gasolina; já o PHEV tem bom consumo, mas peca pelo acerto rígido da suspensão, que falha ao filtrar as irregularidades do asfalto. Em ambos os casos, o espaço traseiro seria melhor se o túnel central intrusivo não roubasse espaço dos pés.
Mas, para quem busca “mais por menos”, estamos falando de um carro muito bem posicionado.
Valor