Thomas Traumann: Bem-vindos a 2026, a eleição do 'hay sistema, soy contra!'

 

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A eleição do contra

O Master rachou o STF

O debate da maioridade

O fator Nikolas

A corrida de obstáculos

Dino, o fiscalista

O ministro e o sociólogo

Fique Atento – a agenda da semana

1. A eleição do contra

De um lado, políticos correm para enterrar as investigações do maior escândalo desde a Lava Jato. Do outro, uma multidão de eleitores pretende usar seus votos como vingança. Bem-vindos a 2026, a eleição do “hay sistema, soy contra!”.

A informação de que está em curso um acordão para trocar o fim da CPMI do INSS pelo enterro das investigações no Congresso do caso Master, revelada pela repórter Andréia Sadi, da GloboNews, é a faísca de um plano de queima de arquivo. As conversas para proteger políticos do PP, União Brasil, PL, PT e MDB no caso Master; a blindagem do Congresso às relações do filho do presidente Lula e da sócia do senador Flávio Bolsonaro com o lobista conhecido como “careca do INSS”; a resistência no STF a um código de ética; a aprovação do projeto que permite aos servidores da Câmara trabalharem apenas 12 dias por mês; o reajuste que pode aumentar em 76% os salários dos servidores do Senado; as armadilhas para impedir as investigações da PF sobre a distribuição das emendas parlamentares; e o comportamento exótico do ministro Dias Toffoli na condução do inquérito sobre o banqueiro Daniel Vorcaro sugerem que Brasília vive num mundo paralelo ao dos demais brasileiros. A história mostra que a realidade é teimosa.

O discurso antissistema no Brasil sempre foi monopólio da direita, de Jânio Quadros a Fernando Collor e Jair Bolsonaro, mas, para as próximas eleições, até o PT quer se dizer do contra. A principal conclusão do encontro dos 46 anos do partido neste fim de semana, em Salvador , foi a de que, para vencer as eleições de outubro, não basta enumerar os feitos do governo Lula; é preciso se mostrar antissistema. “Não tem mais essa história de Lulinha, paz e amor”, decretou em discurso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “O sistema que está aí não é nossa responsabilidade. Nós não defendemos esse modelo de produção de riqueza e de acumulação de riqueza. O PT é o partido que não aceita o sistema”, disse o presidente do partido, Edinho Silva.

É uma hipocrisia evidente que o partido que, desde 2003, governou o País por 16 anos se diga antissistema, assim como é absurdo achar que Bolsonaro, deputado federal por 27 anos e que presidiu de mãos dadas com o Centrão, se apresente contra tudo o que está aí. O relevante, no entanto, não é o cinismo dos políticos, mas o fato de eles perceberem uma saturação do eleitor com a política tradicional.

Em outubro, antes de o caso Master vir à tona, uma pesquisa Genial/Quaest já havia indicado o potencial de um candidato antissistema. Perguntados “para o Brasil hoje, qual seria o melhor resultado da eleição”, os eleitores deram as seguintes respostas:

26% alguém fora da política

24% Lula

19% Jair Bolsonaro

12% outro candidato de direita fora Bolsonaro

6% candidato de centro

5% outro candidato de esquerda fora Lula

Quatro meses depois, a imagem do sistema político brasileiro só piorou, levando de roldão, além do Congresso e do Executivo, também o STF. O vento está mudando.

2. O Master rachou o STF

O Supremo Tribunal Federal (STF)

Cristiano Mariz / Agência O Globo

O que Jair Bolsonaro uniu, o caso Master desuniu. Em 2020, os ministros do STF esqueceram anos de divergências para se unir pela sobrevivência de um Judiciário independente sob Jair Bolsonaro. Com o ex-presidente preso, a divisão dos ministros ressurgiu não por visões distintas de matérias constitucionais, mas em torno de assuntos mundanos, como sociedades em empresas, palestras cobradas e participação em convescotes com lobistas e advogados. Não é sobre a lei, é sobre ganhar mais dinheiro.

Durante a semana, os ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli — ligados, por meio de parentes, ao caso Master — aproveitaram seus votos no julgamento de duas ações sobre manifestações públicas de magistrados para deixar clara sua posição em favor de juízes poderem dar palestras e fazer outras atividades remuneradas. Desafiado publicamente, o presidente do STF, Edson Fachin, prega no deserto na defesa de um código de ética que limite a ação dos ministros.

Há dois riscos na despreocupação de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli com a opinião pública. O primeiro, como apontou no domingo o colunista Lauro Jardim, é o avanço das investigações sobre a Maridt Participações , empresa dos irmãos do ministro Toffoli. O segundo é o Senado recuar no acordo com Gilmar Mendes para elevar o quórum mínimo para o impeachment de ministros do STF.

Dividido, o STF está mais fraco.

3. O debate da maioridade

Faixa estendida no Largo do Machado em campanha contra a redução da maioridade penal

Hudson Pontes / Agência O Globo

Maior preocupação dos brasileiros, a segurança pública é um tema em que políticos de direita e de esquerda falam idiomas diferentes. Nos próximos dias, a direita vai transformar a PEC da Segurança, que originalmente pretendia aumentar a responsabilidade da Polícia Federal no combate às facções, num debate sobre a redução da maioridade penal, de 18 para 16 anos . O PT é contra a proposta, mas a ideia é amplamente majoritária mesmo entre os eleitores de Lula.

Espremido contra a parede, o novo ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, estuda um projeto obrigando o uso de câmeras corporais por todos os agentes de segurança, inclusive os PMs. O projeto começaria pelos agentes da PF, PRF e Guarda Nacional.

4. O fator Nikolas

O deputado federal Nikolas Ferreira, em comissão do Congresso

Brenno Carvalho/Agência O Globo/08-08-2023

O ex-presidente Jair Bolsonaro deve aproveitar o encontro com o deputado federal Nikolas Ferreira, no dia 21, no presídio da Papudinha, para pedir que ele seja candidato ao governo de Minas. Com o PT sem palanque forte no estado e com Nikolas como cabo eleitoral, o senador Flávio Bolsonaro tem uma rara oportunidade de reverter o atual favoritismo do presidente Lula.

Em duas entrevistas recentes a podcasts de direita, Nikolas se antecipou e descartou a proposta. Ele disse preferir a reeleição como deputado e eleger aliados no estado . Embora tenha reafirmado seu apoio a Flávio, Nikolas disse não querer carregar o peso de uma eventual derrota, como quando Eduardo Bolsonaro tentou culpá-lo pela rejeição generalizada às sanções dos EUA contra o Brasil.

Sem apoio efetivo da madrasta, Michelle, e do líder evangélico Silas Malafaia , e com o governador Tarcísio de Freitas ainda amuado, Flávio tem como único ativo ser filho de Jair Bolsonaro. Com 21,5 milhões de seguidores no Instagram, 8,9 milhões no TikTok, 5,5 milhões no X e 3,3 milhões no Facebook, Nikolas poderia dar adrenalina à campanha tanto em Minas quanto nacional.

Segundo maior colégio eleitoral, com 16,5 milhões de eleitores, Minas Gerais é o estado-pêndulo do Brasil. Desde 1955, quem ganhou em Minas acabou sendo eleito presidente. Jair Bolsonaro, que venceu no estado em 2018 e perdeu em 2022, viveu isso. Falta convencer Nikolas.

5. Corrida de obstáculos

A sugestão de Fernando Haddad para que o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Guilherme Mello, assuma uma das diretorias do Banco Central tem um caminho íngreme pela frente.

Tanto o presidente do BC, Gabriel Galípolo, quanto o ministro da Casa Civil, Rui Costa, jogam para que Lula não aceite a ideia. Se a indicação for para o Senado, a pressão contrária virá do mercado financeiro, que enxerga em Mello um economista heterodoxo.

E, se mesmo assim Mello for nomeado, há um último obstáculo: cabe ao presidente do BC decidir qual a área de cada diretor. No caso de Mello, dificilmente será uma cadeira ligada à definição da taxa de juros, como a diretoria de Política Econômica sugerida por Fernando Haddad.

6. Dino, o fiscalista

Ironicamente, os executivos da Faria Lima apreensivos, corretamente, aliás, com as contas públicas têm mais em comum com o ex-comunista Flávio Dino do que com os líderes supostamente liberais do Congresso. Ao suspender o pagamento de penduricalhos produtores de supersalários que custam R$ 20 bilhões anuais, o ministro Dino fez mais responsabilidade fiscal do que o Congresso em um ano.

Durante a semana, os mesmos parlamentares que são aplaudidos em eventos de bancos ao atacar Lula e Haddad e defender o corte de gastos aprovaram rapidamente um privilégio que concede supersalários a seus servidores e pode custar R$ 790 milhões neste ano. O fiscalismo do Congresso é tão real quanto os curupiras.

6. O ministro e o sociólogo

Contando os dias para deixar o posto, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, lançou no sábado, dia 7, um livro que retoma textos acadêmicos dos anos 1980 e 1990 para falar do futuro do capitalismo no século 21. Em "Capitalismo Superindustrial: Caminhos diversos, destino comum" (editora Zahar, 456 páginas, livro: R$ 99,90; e-book: R$ 39,90), Haddad parte da radiografia do fracasso do modelo de produção da extinta União Soviética, tema de seu mestrado em economia, para avançar sobre os conceitos de classe de Karl Marx, presentes em sua tese de doutorado em Filosofia.

O livro ganha fôlego quando chega ao século 21. Conversando com teses do francês Yann Moulier-Boutang e do grego Yanis Varoufakis, entre vários outros, Haddad registra como a revolução digital gerou uma nova classe baseada não na posse dos meios de produção, mas no conhecimento e na inovação, batizada de “cognitariado”. É o fenômeno que Haddad chama de “capitalismo superindustrial”, que incorpora a ciência como fator de produção.

É um texto de acadêmico para acadêmicos. Usando o conceito marxista de classe, Haddad afirma que existem divergências, mas não contradições entre os bilionários de hoje. “Há tensões entre os proprietários que auferem superlucros, lucros e rendas, mas a propriedade é a fonte comum de riqueza e felicidade. Quanto às classes não proprietárias — proletariado (forças produtivas), o cognitariado (forças criativas) e o precariado (forças destrutivas) —, elas não têm um solo comum a não ser pela negação. Cabe aqui a paráfrase: todas as classes proprietárias se parecem na felicidade; cada classe não proprietária é infeliz à sua maneira”.

E, pela primeira vez como político, e não como sociólogo, Haddad conclui: “Há, sim, uma contradição entre proprietários, de um lado, e não proprietários, do outro: os primeiros, naturalmente coesos; os últimos, socialmente fragmentados e dispersos. Cabe à política articulá-lo”.

7. Fique Atento – A agenda da semana

Você vai trabalhar, mas já é Carnaval no Congresso. Com sessões semipresenciais, o principal tema na Câmara será o calendário para, depois de nove meses, os deputados começarem a analisar a PEC da Segurança.

No Senado, há preocupação com as consequências da operação da Polícia Federal no fundo de pensão do Amapá, sob controle de Davi Alcolumbre.

Na terça-feira, dia 10, uma nova audiência na Justiça italiana decide se autoriza a extradição da ex-deputada bolsonarista Carla Zambelli.

Sai na quarta-feira, dia 11, a nova pesquisa presidencial Genial/Quaest.

O governo busca o melhor momento para anunciar o veto do presidente Lula aos aumentos de salário dos servidores do Congresso.

A oposição tenta impedir na Justiça a propaganda eleitoral antecipada a Lula no desfile homenagem da escola de samba Acadêmicos de Niterói, no domingo de Carnaval, dia 15.