Foi no fim de fevereiro, em um jantar oferecido pelo então governador Cláudio Castro no Rio, que o deputado Douglas Ruas (PL) recebeu a conta mais salgada de sua primeira campanha ao Palácio Guanabara. Na ocasião, segundo pessoas presentes ao encontro, Ruas topou a sugestão de Castro de uma dobradinha eleitoral — um se lançando à sucessão estadual, outro postulando o Senado — o que os levou a uma intensa agenda de aparições públicas juntos no mês seguinte. A vinculação a Castro, que agora assombra o candidato do PL ao governo do Rio, era algo que dez em cada dez aliados já o alertavam a não fazer, receosos com o prenúncio de problemas judiciais do ex-governador. Ruas, porém, como confidenciou a interlocutores nesta campanha, pensava à época do jantar numa sobremesa que nunca chegou: receber de Castro caminho livre para sentar na cadeira de governador antes da eleição. Apuração: Acompanhe aqui todos os resultados pelo Brasil O que são votos válidos? Entenda por que modelo é usado na pesquisa eleitoral às vésperas das eleições 2026 O plano começou a dar errado no dia seguinte à renúncia de Castro ao governo, em 24 de março, quando o Tribunal Superior Eleitoral o condenou por usar a máquina estadual na campanha, e o Supremo Tribunal Federal travou a sucessão estadual. Todas as tentativas de Ruas depois disso de assumir a vaga de Castro caíram na gaveta do Judiciário. Já as várias amostras de parceria com o hoje impopular Castro, registradas entre o jantar e a renúncia, ganharam a luz do dia na campanha: desde uma foto na sede do PL, em Brasília, com o anúncio formal da chapa, até uma animada corrida na pista de atletismo do Parque RJ, em São Gonçalo, obra do governo estadual no reduto de Ruas inaugurada com show do cantor Buchecha. A despeito de ter começado sua campanha com esses tropeços, Ruas depois ganhou ritmo: nos meses seguintes, elegeu-se presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), conseguiu se aproximar do eleitor do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL) e, numa ironia da política fluminense, vestiu o figurino de candidato que nada tem a ver com governos passados. Com isso, chega ao primeiro turno de hoje como candidato competitivo contra Eduardo Paes (PSD). Embora Paes lidere as pesquisas, os mais de 30% das intenções de voto para Ruas, segundo o Datafolha, não diferem tanto do que o mesmo instituto apontava, na semana da eleição, para o próprio Castro em 2022 e para Luiz Fernando Pezão em 2014 — os últimos dois nomes que concorreram, e venceram, comandando a máquina que Ruas almejava. Antes de entrar na maré positiva, mesmo as decisões mais simples, como a de buscar o voto bolsonarista, geravam dúvidas na campanha de Ruas. Numa carreata no início da campanha, por exemplo, ele repreendeu o correligionário Carlos Jordy, candidato ao Senado, por discursos que esbarravam em “excessos” defendidos pelo bolsonarismo, como o impeachment de ministros do STF. — Não é em todo lugar que isso funciona, Jordy — alertou Ruas ao aliado à época, segundo pessoas que presenciaram a cena. Passagem pela polícia Além de ter gradativamente perdido esse embaraço e passado a colar mais sua própria imagem à de Flávio e Jair Bolsonaro, Ruas procurou se apresentar como um policial criado na periferia do “Rio real”, em contraposição ao que chamava de “Rio da novela”. Para um aliado, foi como se a “novela Ruas” rodasse todo dia o mesmo capítulo, em vez de avançar no enredo. Era uma escolha deliberada, para tentar reduzir sua taxa de desconhecimento, consequência do fracasso em assumir o governo estadual antes da eleição. Também buscava ser uma vacina contra o rótulo de “herdeiro” de Castro, que seria repetido por Paes quase com a mesma frequência. Ruas virou candidato ao governo após ser secretário estadual de Cidades, numa articulação de Castro para afagar o deputado federal Altineu Côrtes (PL). Altineu também ajudou a eleger o pai de Ruas, o Capitão Nelson (PL), à prefeitura de São Gonçalo em 2020. Ruas logo virou uma espécie de “primeiro-ministro” na gestão do pai, o que ajudou a se eleger deputado estadual. Na campanha deste ano, porém, Ruas optou por dar mais espaço ao breve intervalo, entre 2013 e 2016, no qual atuou como inspetor da Polícia Civil — cargo para o qual foi admitido na primeira chamada de um concurso público. A experiência incluiu uma passagem no Grupo Especial de Local de Crime (Gelc), na Delegacia de Homicídios de Niterói, que é responsável não pelas investigações em si, mas sim por coletar as primeiras provas em locais de assassinatos. Logo após completar o estágio probatório de três anos, Ruas foi nomeado para uma secretaria municipal em São Gonçalo e nunca mais deixou a política. Essa trajetória rendeu provocações de rivais, que acusam Ruas de ser um policial sem prisões. Ele chegou a ser requisitado de volta à Polícia Civil em 2020, na pandemia de Covid-19, quando um decreto de Castro interrompeu as cessões de policiais a outro órgãos, mas recebeu autorização para virar secretário na prefeitura do pai. — Não lembro desse decreto. Geralmente, o prefeito pede e o governador cede — minimiza Ruas. O período de Ruas na secretaria de Cidades, por sua vez, ocorreu em paralelo a aquisições de mais de R$ 9 milhões em imóveis e até a abertura de um haras, o que respingou na campanha. Essas aquisições ocorreram através de uma empresa do deputado, a Saur Construções, cujo nome é o mesmo do “Haras Saur”, empreendimento para o qual seu irmão, o vereador Nelsinho Ruas, do PL, vem adquirindo cavalos em leilões. A empresa de Ruas manteve ainda relação comercial com a pedreira da família de Altineu Côrtes, que forneceu toneladas de pedra para obras da Secretaria de Cidades, conforme revelado pelo GLOBO. Essa teia de relações levou o Ministério Público a abrir uma apuração, às vésperas da campanha, sobre um suposto enriquecimento ilícito e desvio de recursos públicos. Ruas nega quaisquer crimes e, publicamente, mostra disposição em colaborar com as investigações. Nos bastidores de sua campanha, o tom é mais ácido: a lupa que o MP jogou sobre a pasta de Cidades, tendo a colaboração do governo interino do Rio, sob o comando do desembargador Ricardo Couto, é atribuída por aliados de Ruas a uma suposta influência de Paes. O PL fluminense nunca engoliu as decisões judiciais que mantiveram Couto à frente do governo. No primeiro semestre, quando partidos como União Brasil, PP e Republicanos ainda sinalizavam uma aliança com Flávio Bolsonaro, aliados de Ruas apostaram que a cúpula desses partidos — ou seja, os caciques do Centrão nacional — se uniria ao PL para pressionar o Supremo a destravar a linha sucessória estadual. A eclosão do escândalo do Banco Master, porém, desmobilizou o grupo. No início da campanha, a sensação de que o PL havia jogado a toalha na eleição estadual era tamanha que a classe política do Rio apostava que Ruas tentaria uma reeleição na Alerj. Quando vieram as pesquisas eleitorais, porém, ficou claro que a versão “bolsonarista moderado” montada por Ruas — que repete, à sua maneira, a estratégia nacional de Flávio — tinha adesão no estado. Se não conseguiu atrair de volta as lideranças do Centrão fluminense, Ruas passou a ver esses mesmos personagens evitarem uma adesão incondicional a Paes, como chegaram a sinalizar nos primeiros dias da campanha. Também contribuiu para isso, na visão de aliados, uma característica que logo transparece ao se conversar com Ruas: o jeito de defender os próprios pontos de vista de forma enfática, algo ranzinza, mas sem subir o tom de voz, “para não gerar mal-estar”. Com essa fala inalterada, Ruas passou aos poucos a incorporar à própria campanha um pouco do conteúdo mais radical que ele antes desaconselhava ao seu entorno. Em podcasts que fazem sucesso com a direita, Ruas chegou a dizer que “aumentar a letalidade violenta” — leia-se, uma polícia que mata mais — seria uma bandeira de seu governo. Mas saber mudar o tom, sendo menos polícia e mais político, também lhe foi útil para chegar em alta ao dia da eleição, com chances de forçar um segundo turno. Em caminhadas por diferentes municípios do estado, os santinhos distribuídos por Ruas sabiam seguir o que o público queria ouvir, a exemplo da conversa com Castro no jantar de fevereiro. Em cidades da Baixada Fluminense como Belford Roxo, Duque de Caxias e Nova Iguaçu, hoje mais bolsonaristas, a propaganda entregue por Ruas, na cor verde, trazia sua imagem ao lado de Flávio, com destaque para o fato de ambos compartilharem o mesmo número de urna. Já em bairros da capital, reduto de Paes, o papel distribuído era azul — cor também encontrada no material do adversário —, e estampava apenas o rosto de Ruas. Cobertura do 1º turno Para facilitar e enriquecer a cobertura da apuração das eleições 2026, neste domingo (4), a partir das 17h, o GLOBO desenvolveu um ambiente especial com um menu que contempla os cinco cargos em disputa (presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual) e pode ser acessado pelo site e pelo aplicativo do jornal. No mapa, o leitor vê quem está liderando, quem foi eleito ou quem irá para o segundo turno em cada um dos 26 estados, no Distrito federal e nos 5.569 municípios. Também é possível conferir a votação nas zonas eleitorais, a nova divisão partidária do Congresso Nacional e das Assembleias Legislativas e a composição do Senado.
Tentando descolar da rejeição a Castro, Douglas Ruas se apresenta como novidade para escapar de vínculo com aliado
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O Globo
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