Temporais já afetam 169 municípios no RS, tiram mil pessoas de casa e trazem temor de nova tragédia

Temporais já afetam 169 municípios no RS, tiram mil pessoas de casa e trazem temor de nova tragédia

Fonte: Bandeira



Dois anos após as enchentes que destruíram cidades gaúchas, a elevação dos níveis de rios e as fortes chuvas dos últimos dias reacenderam o medo de novas tragédias no estado.

Os temporais já afetaram 169 municípios do Rio Grande do Sul e mais de mil pessoas precisaram sair de casa — são 728 desabrigados e 371 desalojados — em função das chuvas até a noite de quarta-feirs.

Segundo a Defesa Civil, os danos derivam de precipitações intensas, vendavais, granizo, deslizamentos, alagamentos e inundações.

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O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mantém para hoje o risco hidrológico muito alto para a continuidade das inundações nas bacias dos rios Taquari e Caí.

O órgão aponta que a onda de cheia segue se deslocando e pode atingir a Região Metropolitana de Porto Alegre.

— Nossa principal atenção está voltada aos rios que permanecem em cota de inundação, pois a manutenção dos níveis elevados ainda representa risco para comunidades ribeirinhas — diz o coordenador estadual de Defesa Civil, coronel Luciano Chaves Boeira.

Moradores registraram os danos que atingem o estado.

Em um vídeo que ilustra o desafio enfrentado pela população, um idoso é resgatado de um veículo submerso no município de Ciríaco, no Norte do estado.

Identificado como Osvaldo Barea, ele foi retirado pela janela do carona quando a água já cobria completamente o capô.

As imagens mostram dois homens que estavam em uma escavadeira ajudando o idoso a sair do automóvel.

A força da água também levou um ônibus que tentava atravessar uma estrada submersa e acabou arrastado pela correnteza na terça-feira em Ibiraiaras, também Norte do estado.

A Defesa Civil diz que o trecho estava alagado após o transbordamento de um rio próximo.

Já em Santa Tereza, na Serra Gaúcha, uma moradora registrou quando uma casa foi levada pela enxurrada.

Segundo a prefeitura, a estrutura foi arrastada até o Rio Taquari, que ultrapassou a cota de inundação ainda no início da manhã de quarta-feira.

Em nenhum dos casos houve feridos.

Até a manhã de quarta-feira, 18 rodovias estavam ao menos parcialmente bloqueadas em razão das chuvas.

Segundo a Defesa Civil, a tendência é que o nível do Rio Taquari continue a subir nos próximos dias à medida que a água escoe pelos seus afluentes.

Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), as áreas de instabilidade se deslocam hoje gradualmente para o norte da Região Sul, com potenciais tempestades em Santa Catarina e Paraná.

Sinal do El Niño

Para Marcelo Seluchi, meteorologista do Cemaden, as chuvas desta semana no Rio Grande do Sul representam um primeiro sinal do Super El Niño.

— As chuvas foram distribuídas ao longo de três ou quatro dias.

Isso costuma ocorrer quando há o El Niño.

As frentes frias, que vêm do Sul, tendem a ficar estacionárias na região.

Além disso, a previsão para as próximas três ou quatro semanas indica persistência de precipitações acima da média — afirma Seluchi.

Doutora em Climatologia, Karina Bruno Lima ressalta que outros fatores influenciaram as chuvas desta semana.

— A atmosfera é complexa e, mesmo no desastre de 2024, houve vários fatores se somando para tornar as chuvas tão severas.

O El Niño contribui, tornando o contexto climático mais propício, e aumenta a probabilidade dos extremos, mas nunca é o único ator, especialmente num planeta cada vez mais quente — explica a pesquisadora, que completa: — Desastres dependem também das vulnerabilidades locais; o nível de preparo, então, é também determinante para o grau dos danos.

Como mostrou o GLOBO, o estado não havia iniciado, até o mês passado, as obras dos novos sistemas de proteção contra cheias previstas pelo governo.

As estruturas, que usam desde diques e canais até soluções tecnológicas de drenagem, são complementares às já existentes, que falharam há dois anos.

O financiamento ocorrerá por meio de um fundo criado pela gestão federal.

Segundo a gestão do governador Eduardo Leite (PSD), a previsão para conclusão das obras, “em razão da sua complexidade”, é o fim de 2031.

Especialistas ressaltam, por outro lado, o alto investimento feito até aqui em mecanismos de resposta, como a modernização da Defesa Civil.

— O El Niño pode ser muito forte até o fim do ano, com chuvas excessivas no Sul.

Mas, diferentemente do que ocorreu em 2024, há agora melhor resposta do estado e dos municípios na preparação — avalia o climatologista Carlos Nobre.

Insegurança

Morador de Eldorado do Sul, na Região Metropolitana de Porto Alegre, o empresário Luis Carlos Pereira, de 54 anos, teme que o escoamento dos rios inundados no interior do estado provoque uma nova tragédia na cidade e o obrigue a deixar a casa mais uma vez.

Após as enchentes de 2024, a região onde vive foi incluída em uma política de remanejamento de residências.

Estado e prefeitura prometeram compra assistida ou subsídio para novas moradias, mas a mudança definitiva não ocorreu.

— Moramos em um bairro que faz divisa com Porto Alegre, a cerca de 400 metros da beira do Rio Jacuí.

Acredito que até sexta-feira a água esteja chegando aqui.

Com uma enchente, teríamos que sair de casa novamente — afirma.

Pereira cobra a ação de governantes, na esperança de dias melhores:

— Minha filha está em uma casa provisória até hoje.

A casa dela foi coberta pela água em 2024.

Daria para reestruturar, mas, como disseram que não podemos morar aqui, estamos aguardando as providências.

Disputa política

As inundações movimentam também o debate eleitoral no estado.

O deputado federal Luciano Zucco (PL), candidato a governador, criticou a gestão de Leite, que tenta emplacar o vice, Gabriel Souza (MDB), como sucessor.

O bolsonarista diz não ser possível “aceitar que prefeitos e cidadãos precisem ligar uns para os outros de madrugada para evacuar famílias porque a prevenção oficial falhou”.

“Nossa cobrança não é oportunismo, é indignação com o abandono.

Prevenção se faz com antecedência e investimento sério”, escreveu no X.

Já Leite disse nas redes sociais que o governo monitora a “situação em tempo real e mobiliza toda a estrutura do estado para apoiar os municípios”.