Temor de guinada heterodoxa no BC faz prêmio de inflação disparar no mercado

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Fonte da notícia: Valor Valor

O ruído em torno da possibilidade de realizar um ajuste fiscal por meio de uma redução brusca da taxa Selic e as especulações sobre os nomes que podem vir a compor a diretoria do Banco Central dispararam um alerta vermelho no mercado nesta terça-feira. Como reflexo, o mercado passou a esperar uma inflação bem mais pressionada nos próximos anos.

As taxas de inflação implícita, obtidas por meio da diferença entre os juros futuros e as taxas reais das NTN-Bs (títulos da dívida pública atrelados à inflação), disparam nos prazos curtos e intermediários nesta terça-feira, movimento que participantes do mercado creditam ao temor de uma política monetária heterodoxa — ou seja, que se distancia das diretrizes tradicionais do BC — sob o quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A medida de inflação implícita extraída da NTN-B com prazo em agosto de 2028, por exemplo, subia 0,11 ponto percentual no fim da manhã, de 6,55% para 6,66%, ao passo em que a do papel que vence em agosto de 2030 disparava 0,2 ponto, de 6,66% para 6,86%. As especulações acerca desse tema ganharam força após o colunista Lauro Jardim, de O Globo, publicar que Lula faria uma reunião com o economista André Lara Resende, um dos pais do Plano Real e que defende a necessidade de baixar a Selic a 7,5% em 12 meses a fim de reduzir o custo do serviço da dívida pública.

Em artigo publicado no Substack em setembro, Lara Resende aponta para os juros elevados no Brasil como a principal causa da constante elevação da dívida pública. Para ele, o país deveria criar um conselho para definir, de forma conjunta, metas fiscais e monetárias, de forma a trabalhar a Selic dentro de uma banda pré-estabelecida que poderia variar entre a meta de inflação de 3% e a meta mais o crescimento potencial da economia, o que resultaria em um juro básico de 5,5%.

Os 7,5% de Selic propostos por Lara Resende ainda incluiriam um “spread transitório de segurança de 2%”. Para agentes do mercado e economistas de visão ortodoxa, a proposta se resume a uma redução artificial da Selic que resultaria em uma intensa elevação dos prêmios de risco, depreciação cambial e aumento das expectativas de inflação.

Apesar de o ministro da Fazenda, Dario Durigan, ter negado que Lula se reunirá com Lara Resende, a mera especulação acerca do tema já provoca um estresse relevante no mercado de implícitas hoje. “Pessoalmente, não acredito muito que vão por esse caminho, seria muito autodestrutivo”, diz um economista de mercado, em condição de anonimato, ao comentar a proposta de Lara Resende.

Ele pontua, no entanto, que por ora é difícil ter qualquer clareza sobre as políticas econômicas do novo governo. Outro fator que leva ao ajuste forte das medidas de inflação implícita é a revisão das projeções do relatório Focus publicado hoje pelo BC, o primeiro a coletar as expectativas do mercado após o fim da eleição presidencial.

A expectativa para o IPCA de 2027 subiu de 4,34% a 4,76%, ao passo em que a inflação esperada para 2028 passou de 3,75% a 4% em 2028. Na curva de juros futuros, a deterioração das expectativas se reflete na precificação de uma elevação de quase 2 pontos percentuais da Selic ao longo de 2027, para algo em torno de 15,50%.

Para Milena Landgraf, sócia e CIO de estratégia macro da Jubarte Capital, a indefinição do governo sobre a condução da política econômica abre espaço para que o mercado especule sobre possíveis cenários. “O governo não está sentindo urgência em trazer maior clareza para a sociedade sobre qual o caminho que será tomado”, diz ela, que não vê risco iminente de uma política monetária menos dura contra a inflação, ainda que exista o risco quanto às nomeações dos novos diretores do Copom.

O nome do economista André Roncaglia para uma das cadeiras vagas na diretoria do BC também não tem sido vista com bons olhos pela Faria Lima. “O ponto principal é o de que, enquanto não tiver um direcionamento mais claro do governo, tanto em relação ao perfil dos indicados ao BC quanto ao Ministério da Fazenda e para a política fiscal, o mercado fica sem uma âncora, à deriva”, resume Landgraf.

Publicação Original Valor valor.globo.com
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