Quando perdeu para Lula em 30 de outubro de 2022, Jair Bolsonaro se trancou no Alvorada e ficou quase dois dias calado. Não ligou para o adversário.
Quando finalmente apareceu, falou por dois minutos e não reconheceu a derrota, apenas deixou Ciro Nogueira cuidar da transição. Semanas depois, o PL foi ao TSE pedir que votos de urnas antigas fossem invalidados, e saiu de lá com o pedido negado e uma multa de R$ 22,9 milhões por litigância de má-fé.
Flávio Bolsonaro não esperou dois dias. Na noite deste domingo (25/10), poucas horas depois de confirmada a vitória de Lula, disse em Brasília que é impossível reconhecer o resultado e que vai pedir a anulação da eleição.
Mirou no ministro Cristiano Zanin, acusado por ele de mudar a regra no meio do jogo para atender um ex-sócio. Em 16 de outubro, o mesmo Flávio tinha prometido aceitar qualquer resultado.
O pai deixou a dúvida no ar e entregou a briga ao partido e aos apoiadores na porta dos quartéis. O filho foi direto ao microfone.
Em 2022 a culpa era da urna eletrônica, agora é do Supremo. Muda o alvo, mas a ideia é a mesma, transformar a derrota em suspeita e a suspeita em combustível para manter a base acesa.
Até o capítulo internacional se repete, com Eduardo Bolsonaro trabalhando em Washington para que o governo Trump não reconheça a vitória de Lula. É verdade que, desta vez, há um fato concreto na mesa.
O domingo foi tumultuado. Chuvas derrubaram voos em São Paulo, faltou ônibus em capitais como São Paulo e Salvador, e a Polícia Federal abriu inquérito para entender por quê.
As duas campanhas pediram mais tempo de votação. A de Lula queria a extensão no país inteiro.
A de Flávio pediu só para estados do Sul e do Sudeste, justamente onde ele tinha vencido no primeiro turno. Zanin decidiu depois das 17h e estendeu o horário até as 19h, mas logo esclareceu que a medida só valia onde as seções ainda estavam abertas.
Na prática, a aplicação foi desigual. O ministro Nunes Marques, presidente do TSE, disse que a decisão criou dificuldades e não foi convencional, embora tenha admitido que o próprio tribunal já estudava uma prorrogação desde o meio da tarde.
Dá para discutir o procedimento, e essa discussão é legítima. Anular a eleição é outra conversa.
A Justiça Eleitoral não desfaz uma votação porque houve problemas. Ela só faz isso quando fica provado que os problemas mudaram o vencedor.
E aí a conta não fecha de jeito nenhum. Lula terminou 4,43 milhões de votos à frente.
Para essa diferença sair das duas horas extras, que valeram em cerca de 13% das urnas e tiveram pouco movimento, seria preciso uma avalanche de votos só para o petista naquele intervalo. Os números não mostram nada parecido.
Nenhuma prorrogação de duas horas fabrica uma margem desse tamanho. O argumento de Flávio perde força também por quem já assinou embaixo do resultado.
O primeiro foi justamente Nunes Marques, indicado ao Supremo por Jair Bolsonaro. Mesmo com as críticas à forma da prorrogação, ele proclamou a reeleição de Lula, disse ter absoluta segurança em todo o processo e contou que ligou para os dois candidatos.
Para Lula, falou em vitória expressiva. Para Flávio, deu os parabéns pela campanha.
Ao lado dele estavam o presidente do STF, Edson Fachin, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Logo depois, os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre, e da Câmara, Hugo Motta, reconheceram a vitória numa entrevista conjunta na sede do TSE.
Os dois fizeram campanha para Lula, mas elogiaram a Justiça Eleitoral e pediram pacificação. Alcolumbre ainda telefonou para Lula e Alckmin.
O reconhecimento veio também de quem esteve do outro lado. Marcos Pereira, presidente do Republicanos e apoiador de Flávio no segundo turno, parabenizou Lula e pediu que ele governe também para quem votou no adversário.
O PSDB de Aécio Neves fez o mesmo, avisando que seguirá na oposição. Até o governo do Chile já cumprimentou o presidente reeleito.
Fica difícil sustentar fraude quando o juiz indicado pelo seu pai, os chefes do Congresso e os próprios aliados dizem que a eleição foi limpa. Flávio ainda tropeça nas próprias escolhas.
Pedir prorrogação nos estados em que era favorito e depois chamar a prorrogação de golpe não é uma tese que convença um tribunal. Olhar para 2022 ajuda a medir o tamanho da aposta.
Naquele ano a diferença foi de 2,1 milhões de votos, menos da metade da atual, e nenhuma contestação foi adiante. Depois do silêncio do pai vieram os acampamentos, o 8 de janeiro e uma condenação por tentativa de golpe.
O filho repete o caminho em condições piores, com uma margem maior contra ele, um argumento que a própria campanha ajudou a criar e instituições que reconheceram o resultado na mesma noite. As urnas falaram, e desta vez falaram mais alto.
Metropoles