A startup sul-coreana FuriosaAI captou US$ 620 milhões, cerca de R$ 3,3 bilhões, para ampliar a produção de seu acelerador de inteligência artificial RNGD. A empresa espera fabricar 20 mil unidades neste ano e quase dobrar o volume em 2027, com Samsung e LG Electronics entre os principais financiadores.
O objetivo não é superar a Nvidia em desempenho. É garantir que a Coreia do Sul possa treinar e rodar modelos de inteligência artificial em chips que não dependem de uma licença de Washington.
O H20 mostrou o tamanho do risco Em abril de 2025, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos passou a exigir autorização para exportar o acelerador H20, versão que a Nvidia desenhou para o mercado chinês.
A companhia estimou em até US$ 5,5 bilhões, cerca de R$ 29 bilhões, o custo da medida no trimestre. Três meses depois, Washington liberou a venda.
Pequim reagiu e orientou grandes empresas chinesas a evitar o produto, o que empurrou a Nvidia para um vaivém que nenhum cliente aliado quer experimentar. Em agosto de 2025, a Nvidia aceitou repassar 15% da receita das vendas de chips à China ao governo americano como condição para exportar.
A licença virou pedágio, e o precedente passou a valer para qualquer comprador estrangeiro. A Nvidia concentra a maior parte do mercado de aceleradores de IA, e nenhum país tem plano de substituí-la por completo no curto prazo.
A pergunta que Seul passou a fazer é outra, sobre quanto tempo um fornecimento dura quando quem decide é um governo estrangeiro. Duas apostas coreanas
A FuriosaAI e a Rebellions são as duas principais startups de chips do país. A Rebellions incorporou em 2024 a propriedade intelectual e a equipe da Sapeon, outra iniciante do setor, e hoje concentra a aposta privada em aceleradores nacionais.
Nenhuma das duas fabrica o acelerador mais rápido do mercado, e isso não é acidente de percurso. O Rebel100, lançado no fim de 2025, tem desempenho comparável ao H200, chip que a Nvidia colocou no mercado três anos antes.
O RNGD, da Furiosa, entrega cerca de 2,25 vezes mais desempenho por watt que o A100 de 2020 nos testes apresentados pela própria empresa. A lógica repete o caminho chinês, onde volume e custo pesam mais que a corrida pelo chip mais rápido quando o objetivo é computar sem pedir licença.
A vantagem industrial de Seul A Coreia do Sul abriga duas das maiores fabricantes de memória do mundo.
A SK Hynix lidera o fornecimento de memória de alta largura de banda, a HBM, que alimenta aceleradores de IA, e a Samsung corre atrás com capacidade própria. A Samsung também opera a segunda maior fabricante de chips por encomenda do planeta, atrás apenas da taiwanesa TSMC.
A proximidade entre quem desenha o processador, quem fabrica a lógica e quem fornece a memória encurta o ciclo de produção. O mesmo raciocínio move outros governos.
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A terceira geração da Furiosa será fabricada em processo de 2 nanômetros, com arquitetura de múltiplos chips e memória HBM4 ou HBM4e, em parceria com a Broadcom. A empresa não divulgou data de lançamento.
A Broadcom entra com a arquitetura de empacotamento que encurta o desenho de aceleradores no estilo dos chips Instinct, da AMD. Meta e OpenAI já adotaram esse tipo de plataforma para processadores próprios, e a Furiosa deve seguir o mesmo caminho.
O teto está na escala. As 20 mil unidades previstas para este ano são uma fração mínima do volume que a Nvidia entrega a centros de dados, e nenhum cliente troca um fornecedor consolidado por um chip mais lento sem uma razão política.
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O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, lançado em 2024 com R$ 23 bilhões, prevê infraestrutura de computação em grande parte importada. A diferença coreana é ter fábrica, memória e capital próprio no mesmo território.
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A rodada da Furiosa é aposta, não resultado. O dinheiro paga a ampliação da produção e o desenvolvimento da terceira geração, mas a receita depende de clientes coreanos e de governos dispostos a pagar mais por um chip mais lento em troca de autonomia.
Se as cerca de 40 mil unidades previstas para 2027 saírem, a Coreia do Sul terá a primeira cadeia relevante de aceleradores fora dos Estados Unidos e da China. Se não, os US$ 620 milhões terão comprado apenas um seguro contra o próximo corte de Washington.
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