Pela primeira vez, cientistas afirmam ter usado vírus projetados por inteligência artificial para tratar um paciente humano. Pesquisadores anunciaram que administraram o vírus, conhecido como fago, a um paciente que sofria de uma infecção bacteriana mortal. Os fagos atacam bactérias, e a esperança é que este elimine os micróbios causadores da infecção. 'Estou traumatizado': médica explica como a frase virou a nova trend na psicologia O que muda na nova indicação para a vacina de meningite? Ferramenta mostra se você está com vacinação em dia A Radical Numerics, startup que criou os vírus, publicou um relatório técnico sobre eles em seu site. No entanto, a empresa se recusou a fornecer informações sobre o paciente ou os médicos responsáveis pelo estudo, alegando exigências de confidencialidade. O relatório não foi revisado por pares nem publicado em uma revista científica. Representantes da empresa afirmaram que o ensaio clínico foi autorizado pela Food and Drug Administration (FDA). — Pretendemos publicar nossas descobertas científicas por meio de pesquisas revisadas por pares, sendo que qualquer divulgação futura de detalhes clínicos estará sujeita ao consentimento apropriado — afirma Eric Nguyen, CEO da Radical Numerics. Especialistas externos receberam a notícia com curiosidade e uma postura de cautela.
— Se funcionar, será incrível — diz Michael Baym, microbiologista da Universidade de Harvard que não participou da pesquisa. Se o experimento for bem-sucedido, poderá indicar uma nova forma de usar a IA na medicina, proporcionando tratamento individualizado que visa até mesmo as infecções bacterianas mais resistentes. Embora os vírus criados por inteligência artificial sejam uma novidade, a terapia com bacteriófagos existe há mais de um século. Agora, com a resistência aos antibióticos se tornando um problema crescente em todo o mundo, o tratamento passou por um renascimento. Nos Estados Unidos e em outros países, clínicas especializadas em terapia com bacteriófagos foram abertas para ajudar pacientes que lutam contra infecções resistentes a múltiplos medicamentos. Mas esse tratamento é muito mais difícil do que tomar alguns comprimidos de penicilina. Cada tipo de fago infecta apenas um número limitado de cepas bacterianas. Assim que os médicos conseguem um, precisam analisar o vírus para verificar se ele tem chance de combater a infecção do paciente. — A busca por fagos consome um tempo consideravelmente maior — aponta Marisa Azad, médica especialista em doenças infecciosas do Hospital de Ottawa, no Canadá, que está trabalhando em colaboração com a Radical Numerics. Alguns pesquisadores estão tentando superar essa barreira buscando novas espécies de fagos no solo e na água, ampliando o arsenal médico. Mas o surgimento da IA deu aos cientistas outra ideia: projetar novos fagos, personalizados para combater a bactéria específica que infecta um paciente.
O Globo