Graziella Maso, da Motiva: meta é capacitar 1,5 mil profissionais até 2027 Divulgação
Grandes companhias têm capacitado funcionários para atuar no primeiro acolhimento e identificação de sinais de sofrimento emocional, como ansiedade e depressão, com a intenção de facilitar o encaminhamento de colegas para um auxílio profissional adequado. São os chamados “socorristas” ou embaixadores em saúde mental, que se juntam a novas ações de cuidado para a força de trabalho.
As iniciativas reafirmam os resultados apresentados este ano na 30ª edição da lista das melhores empresas para trabalhar no Brasil. Pela primeira vez na história da pesquisa, a qualidade de vida é apontada como principal motivo de permanência dos funcionários nas empresas classificadas no ranking Great Place to Work (GPTW), com 37% das respostas.
É citada antes de ter oportunidades de crescimento (33%), o fator mais valorizado no estudo durante 20 anos seguidos, e de aspectos como remuneração e benefícios (16%). “Em uma grande empresa, o sofrimento emocional quase nunca chega primeiro ao RH ou ao médico do trabalho”, avalia Renata Rivetti, pesquisadora da felicidade e do comportamento humano.
Ele aparece antes para o colega da mesa ao lado ou para o líder, que percebem mudanças de comportamento, isolamento ou uma irritação fora do padrão, explica. “Os socorristas encurtam a distância entre o primeiro sinal [de sintomas] e a ajuda profissional, funcionando como uma rede de escuta.
Não tratam e não diagnosticam, mas acolhem os colegas.” A Motiva, empresa de infraestrutura de mobilidade com 15 mil funcionários, mantém há quase dois anos uma formação para socorristas em saúde mental.
“É parte da nossa estratégia de fortalecimento da cultura de cuidado e de bem-estar dos colaboradores”, relata Graziella Maso, diretora de pessoas da empresa, que passou a integrar o ranking do GPTW em 2022. Segundo a executiva, já são mais de 600 funcionários treinados e o movimento segue em expansão.
A meta é capacitar cerca de 1,5 mil profissionais até 2027, o equivalente a cerca de 10% do quadro. “Os participantes são preparados para reconhecer sinais de sofrimento emocional, exercitar a escuta ativa e orientar os colegas sobre os canais de apoio disponíveis na companhia”, diz Maso.
Recentemente, a Motiva recebeu o selo Great People Mental Health (GPMH), certificação concedida pelo GPTW às organizações que se destacam por práticas voltadas ao bem-estar emocional e à construção de ambientes psicologicamente seguros. O sofrimento emocional quase nunca chega primeiro ao RH ou ao médico do trabalho”
Na Serasa Experian, empresa com mais de 6,5 mil funcionários no Brasil que mantém uma relação de mais de 20 anos com o GPTW, o programa de socorristas foi lançado em 2022, como uma iniciativa global do grupo de tecnologia de dados. Já são mais de 300 profissionais capacitados nos 32 países de atuação da corporação, sendo 57 voluntários no Brasil.
“O objetivo é fortalecer uma cultura de prevenção e acolhimento, fazendo com que as pessoas tenham mais segurança para falar sobre saúde mental e encontrem apoio antes que uma situação se agrave”, afirma Flávio Balestrin, vice-presidente Latam de RH da Serasa Experian. “Também buscamos ampliar o preparo das lideranças para reconhecer sinais de sofrimento e estimular conversas mais abertas.”
Na Endered, empresa dona da marca Ticket, com 3,1 mil funcionários no Brasil, apesar de não haver uma equipe formal de socorristas em saúde mental, uma das frentes de atenção é o programa batizado de “Conte comigo”, em operação desde 2015. “O programa oferece atendimento 24 horas por dia, sete dias por semana, garantindo confidencialidade em todas as interações”, afirma Tatiana Romero, diretora de RH e sustentabilidade da Edenred Brasil, que há 29 anos participa da seleção do GPTW.
Funcionários dependentes têm acesso gratuito à orientação profissional especializada, aponta. “O suporte abrange questões emocionais, sociais, financeiras e jurídicas, e pode ser acessado por um telefone 0800, WhatsApp ou e-mail”, acrescenta a executiva.
No ano passado, a iniciativa registrou 280 atendimentos, sendo a maioria (56,8%) relacionada a aconselhamentos para questões emocionais ou familiares, antes de temas jurídicos (29,5%) e assuntos financeiros (8%). Em 2026, entre janeiro e agosto, já foram 273 contatos registrados.
No período, o telefone recebeu 68,9% das solicitações, seguido pelo WhatsApp (25,6%) e o correio eletrônico (5,6%). “Os profissionais não deixam seus desafios pessoais na porta do escritório”, destaca Romero.
“Questões emocionais e familiares podem afetar a qualidade de vida das equipes e a experiência no trabalho.” Na avaliação de Michele Teixeira, diretora de gente e gestão do Grupo Equatorial, companhia do segmento de distribuição de energia que estreou no GPTW em 2025, o cuidado com as equipes pode ganhar reforço com mais ações de prevenção e promoção da saúde.
No campo do amparo físico e emocional, a companhia de 12 mil funcionários oferece sessões de psicoterapia por meio de uma plataforma on-line que contabilizou 810 atendimentos no ano passado. “Também disponibilizamos [a plataforma de bem-estar] Wellhub, que encerrou 2025 com 2,4 mil colaboradores ativos”, completa.
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