Sob pressão, secretário de Comércio de Trump admite visita a ilha de Jeffrey Epstein mas nega vínculos com financista

 

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O secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, admitiu nesta terça-feira ter visitado a ilha do financista Jeffrey Epstein, que mesmo morto há quase sete anos provoca um furacão político, mas negou manter vínculos com o homem acusado de comandar uma rede de tráfico humano e abuso de menores. Ao mesmo tempo em que nomes da elite política e econômica tentam se desvencilhar dos laços passados com Epstein, a oposição democrata questiona os critérios do Departamento de Justiça para omitir (ou manter) nomes dos documentos divulgados.

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Em audiência no Senado, Lutnick afirmou que “desses milhões e milhões de documentos, talvez haja 10 e-mails que me liguem a ele ao longo de um período de 14 anos”, completando que “não tinha nenhum relacionamento” com Epstein, e que “mal teve contato” com ele. Contudo, reconheceu ter visitado a ilha do financista no Caribe — onde, de acordo com relatos das vítimas, ocorreram abusos em série — acompanhado de sua família e amigos, por volta de 2012.

— E nós almoçamos na ilha, isso é verdade, por uma hora. E saímos de lá com todos os meus filhos, minhas babás e minha esposa, todos juntos. Estávamos de férias em família — disse Lutnick. — Não me lembro a razão pela qual fizemos isso.

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Embora uma parcela da elite política, econômica e cultural dos EUA apareça nos arquivos de Epstein, disponibilizados pelo Departamento de Justiça, e que isso não configure necessariamente uma ligação com os crimes do financista, as contradições de Lutnick saltam aos olhos.

No ano passado, em entrevista ao New York Post, Lutnick disse que ele e Epstein foram vizinhos no começo do século, e que por volta de 2005, ouviu comentários inapropriados do financista durante uma visita, e que decidiu cortar laços imediatamente.

— Minha esposa e eu decidimos que eu nunca mais estaria no mesmo ambiente que aquela pessoa repugnante. Então, nunca mais estive no mesmo ambiente que ele, seja socialmente, a negócios ou mesmo em eventos filantrópicos. Aquele cara estava lá, e eu não ia porque ele é nojento — disse Lutnick ao Post, em outubro passado.

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Durante a sessão na Subcomissão de Apropriações do Senado, as inconsistências foram expostas. O democrata Jeff Merkley apontou, citando os documentos do Departamento de Justiça, ao menos oito contatos entre Lutnick e Epstein depois de 2005. Entre eles, um convite para um evento de arrecadação de fundos para a campanha de Hillary Clinton à Presidência e um pedido de coordenadas navais para a ilha de Epstein nas Ilhas Virgens Americanas.

— A questão não é que você tenha cometido qualquer delito em relação a Jeffrey Epstein, mas sim que você tenha deturpado completamente a extensão do seu relacionamento com ele perante o Congresso, o povo americano e as vítimas de seus atos criminosos e predatórios desprezíveis — afirmou o senador democrata Chris Van Hollen.

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Pressionado, Lutnick disse que “nos 14 anos seguintes, encontrei-o mais duas vezes” em períodos espaçados, incluindo depois de 2008, quando Epstein já havia se declarado culpado em processo por prostituição de uma menor de idade. O financista morreu em 2019, em uma prisão de Nova York, antes de ser julgado pelas acusações de comandar uma rede de tráfico humano e abuso de menores.

Apesar de alguma resistência dos republicanos, o líder da maioria governista no Senado, John Thune, não soou disposto a proteger Lutnick.

— A transparência é algo a que todos devemos aspirar aqui, e se houver pessoas que forem citadas ou mencionadas de alguma forma, elas terão que responder por isso — disse a repórteres, citado pelo portal Politico.

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A admissão de que ele esteve com Epstein em 2012 no Caribe, aliada a episódios como um suposto jantar com o financista e o cineasta Woody Allen em 2011, tornaram a situação de Lutnick ainda mais complicada (Lutnick nega ter se sentado com Allen e Epstein). O secretário de Comércio é um dos membros mais leais do Gabinete de Donald Trump, e está à frente do tarifaço global do republicano. Para os democratas, o tempo dele chegou ao fim.

“Durante meses, ele alegou não ter passado ‘nenhum tempo’ com Epstein. Agora, nos Arquivos Epstein, descobrimos que os dois eram sócios em negócios anos depois da primeira condenação de Epstein, com Lutnick inclusive planejando visitar a ilha particular de Epstein”, afirmou, em comunicado, o senador Adam Schiff. "Lutnick não tem o direito de ser nosso secretário de Comércio e deveria renunciar imediatamente.”

Na semana passada, o Departamento de Comércio afirmou, em declarações à rede CNN, que "Lutnick teve interações limitadas com o sr. Epstein na presença de sua esposa e nunca foi acusado de qualquer irregularidade". A Casa Branca não se pronunciou sobre a continuidade dele no cargo.

Promessa de campanha de Donald Trump, a divulgação dos milhões de documentos do processo contra o financista se tornaram uma das maiores dores de cabeça para o republicano. Sem a suposta lista de clientes recheada de rivais democratas, os e-mails, fotos e mensagens jogaram luz sobre as relações de Epstein com a elite global, incluindo o próprio Trump, cujo nome aparece algumas milhares de vezes.

No Reino Unido, as baixas já começaram, e incluíram o chefe de Gabinete do premier Keir Starmer, que enfrenta pedidos de renúncia. As menções ao ex-príncipe Andrew preocupam a família real britânica, e a realeza da Noruega tenta conter os estragos causados pela revelação dos laços entre Epstein e a princesa herdeira Mette-Marit . Nos EUA, o temor é de que o caso seja mais um golpe nas pretensões de Trump para manter a maioria no Congresso nas eleições de novembro.

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O Departamento de Justiça, responsável pela divulgação dos documentos, também está sob ataque pela falta de clareza nos critérios para omitir (ou não) nomes citados no processo. Advogados das vítimas apontam que os nomes de ao menos 47 delas não foram apagados — ao contrário do que determina a lei aprovada pelo Congresso para derrubar o sigilo — e parlamentares dizem que pessoas “provavelmente incriminadas por sua inclusão nesses arquivos” tiveram a identidade preservada.

“O FBI de Trump apagou esses arquivos em março. Os documentos que o Departamento de Justiça recebeu continham as partes ocultadas que o FBI havia feito na época. Eles precisam revelar as partes omitidas nos arquivos do FBI para que saibamos quem são os homens ricos e poderosos que estupraram meninas menores de idade", escreveu, em suas redes sociais, o deputado democrata Ro Khanna.

Todd Blanche, número dois no departamento, disse que “está comprometido com a transparência”, e que as autoridades “não têm nada a esconder”.