Sob crescente pressão após duas novas duras derrotas eleitorais em disputas regionais, o chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, rejeitou nesta segunda-feira que fosse abandonar a liderança da União Democrática Cristã (CDU) e a coalizão governista mantida com apoio do Partido Social-Democrata (SPD). A declaração ocorre em um momento em que especulações sobre a renúncia do chanceler e uma cisão no Gabinete governista em Berlim ganham força, um dia após a principal sigla da politica alemã ser superada por partidos extremistas de direita e esquerda. 'Até o fim do ano': Extrema direita afirma ser o 'partido do povo' na Alemanha e prevê queda de chanceler Quer mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo com informações sobre 36 países — Estamos decididos a estar à altura das responsabilidades históricas enfrentadas pelo nosso país — afirmou Merz em uma coletiva de imprensa, falando em nome da coalizão governista que lidera. — Não se trata de nem mais nem menos do que o futuro democrático da Alemanha. A frente do governo alemão há 16 meses, o impopular chanceler — com aprovação gorando em torno dos 10%, segundo pesquisas recentes — atravessa um momento politicamente delicado para a sigla e o centro democrático. Há 45 dias, a CDU foi derrotada nas eleições regionais da Saxônia-Anhalt, com a sigla de extrema direita Alternativa para a Alemanha (AfD) liderando a votação, ainda com chances de se tornar a primeira representante do campo político a alcançar o Executivo desde a queda do Terceiro Reich. O partido voltou a ser o mais votado no domingo, em uma votação realizada em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, enquanto a CDU, pela primeira vez na História, não elegeu nenhum representante em um Parlamento regional, ao não reunir sequer 5% dos votos O colíder do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), Tino Chrupalla (E), e Leif-Erik Holm (D), líder da sigla em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental John MacDougall/AFP O revés histórico na pequena região no Leste do país — com cerca de 1,5 milhão de habitantes, no que outrora era parte da Alemanha Oriental — conta apenas parte da derrota conservadora nesse domingo. Em Berlim, um reduto da CDU, o partido foi superado pelo Die Linke ("A Esquerda", em tradução livre), o partido mais à esquerda no espectro político alemão, que nunca fez parte de uma coalizão governista em nível federal. Com 25% dos votos para a sigla liderada pela jurista de origem turca Elif Eralp, de 45 anos, uma formação de governo passaria por uma aliança com Os Verdes, que receberam quase 15% dos votos, e Partido Social-Democrata (SPD), com quem já colaborou em nível regional, que teve 12%.
A CDU teve 20% dos votos na capital, o que significa que a reprodução da coalizão federal, apenas com o SPD, seria insuficiente para chegar ao poder. Em um pronunciamento logo após a divulgação dos primeiros resultados projetados na noite de domingo, Merz classificou o desempenho eleitoral como um "desastre", mas disse que iria manter o plano de seguir com uma agenda de reformas. A líder do Die Linke em Berlim, Elif Eralp, comemora após vitória histórica na capital alemã Jens Schlueter/AFP Futuro incerto A manifestação rápida de Merz fez com que analistas destacassem a posição defensiva do governo diante das derrotas. O chanceler acompanhou o desenrolar das eleições em uma reunião com líderes do partido, convocada na semana passada por ele — em um movimento que foi apontado como uma tentativa do Gabinete atual de evitar dissidências. — A iniciativa extremamente precoce mostra que Merz está tentando assumir o controle da narrativa — disse cientista político Oliver Lembcke, da Universidade Ruhr de Bochum, classificando a atitude como "liderança a partir de uma posição defensiva" e uma "tentativa de impedir que um debate sobre nomes, de desfecho incerto, ganhasse força". Uma troca de liderança poderia ser um processo traumático para a coalizão CDU-SPD, que detém a maioria no Bundestag por uma quantidade mínima de cadeiras — 328 do total de 630. Antecipar uma eleição também é uma alternativa arriscada, em um momento de fortalecimento da AfD, com líderes da sigla reclamando espaço entre as forças políticas tradicionais do país. Análise: Vitória da extrema direita em eleição regional na Alemanha envia sinal a capitais europeias A copresidente da AfD, Alice Weidel, afirmou nesta segunda-feira que o partido já "substituiu" a CDU como o "partido do povo", enquanto o principal representante em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Leif-Erik Holm, afirmou que Merz não chegaria ao "fim do ano" no poder. Por hora, os principais aliados da CDU não falam abertamente em abandonar o governo. O copresidente do SPD e vice-chanceler da Alemanha, Lars Klingbeil, afirmou após as votações regionais que a sigla manteria o "compromisso com esta coalizão", apontando, porém, que "as coisas não podem continuar" no mesmo rumo. — Precisamos de debates abertos e honestos, inclusive dentro do governo, sobre o rumo das reformas — disse Klingbeil. Merz, por sua vez, não quis se pronunciar sobre quais mudanças seriam necessárias, mas disse que iria dialogar com os sócios de governo. — Quero conversar com os social-democratas, com os dois líderes do partido, sobre como vamos continuar trabalhando juntos. Mas continuar trabalhando juntos é, na minha opinião, o correto — disse o chanceler no domingo, quando defendeu que seu governo já entregou melhoras na economia. — Sabemos que tudo isso ainda não é suficiente. Sabemos que temos um grave problema de apoio, que já não conseguimos alcançar uma parcela importante da população. (Com AFP)
O Globo