Reino Unido financiará 'vacina' contra fungo que afeta árvores e borboletas resistentes a inseticidas

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Borboletas-cauda-de-andorinha Getty Images Uma “vacina” para árvores, borboletas geneticamente modificadas e bactérias que poderão ser capazes de proteger anfíbios estão entre os 14 projetos de biotecnologia que o Reino Unido vai financiar na tentativa de ajudar espécies a enfrentar a crise climática e outras ameaças. Segundo o The Guardian, o programa de adaptação acelerada, de £ 54 milhões (cerca de R$ 370 milhões), da Advanced Research and Invention Agency (Aria) — órgão público que financia projetos de tecnologia de alto risco e alto potencial de retorno — pretende investigar aplicações da biotecnologia capazes de acelerar a evolução de espécies selvagens e ajudá-las a se adaptar a novas ameaças, como o aquecimento global e doenças. Serão 14 equipes, que receberão uma parcela inicial em subsídios ao longo dos próximos dois anos. Elas desenvolverão ferramentas para proteger espécies nativas da fauna e da flora britânicas. De acordo com Yannick Wurm, diretor do programa de adaptação acelerada da Aria, ambientes naturais do mundo estão mudando tão rapidamente devido à crise climática e à ação humana que muitas espécies já não conseguem se adaptar com rapidez suficiente. “Esta iniciativa é uma primeira exploração de como podemos aproveitar, de forma responsável, alguns dos recursos da biotecnologia para ajudar animais e plantas selvagens a superar os desafios que enfrentam”, acrescentou. Os projetos pretendem atuar em conjunto com medidas tradicionais de conservação da natureza, como reservas protegidas, oferecendo aos ambientalistas um novo conjunto de “ferramentas de precisão”, que Wurm compara às vacinas de mRNA usadas em humanos. Um dos projetos pretende impedir a disseminação da doença conhecida como morte dos freixos (tipo de árvore), uma infecção fúngica que, segundo estimativas, deve matar metade dos freixos da Grã-Bretanha, por meio da injeção de moléculas de RNA na árvore. Essas moléculas interfeririam na capacidade do fungo de infectá-la. “É como dar uma vacina à árvore”, afirmou Sarah Christofides, líder do projeto e micologista da Cardiff University. Em outro, desenvolvido pela Rothamsted Research, centro de pesquisa agrícola de 180 anos localizado em Hertfordshire, editará os genes de espécies de árvores longevas, como os carvalhos, para que elas se reproduzam em meses, em vez de décadas. A ideia é permitir que desenvolvam rapidamente respostas adaptativas à seca e a agentes patogênicos invasores. Já o projeto liderado por pesquisadores da University of Exeter usará a edição genética Crispr-Cas9 na borboleta-rabo-de-andorinha, espécie que está na lista vermelha de espécies ameaçadas do Reino Unido, para aumentar sua resistência a inseticidas amplamente utilizados nas propriedades agrícolas. A Aria foi idealizada por Dominic Cummings, ex-principal assessor de Boris Johnson, que afirmou que a agência financiaria ideias “malucas” capazes de “restaurar o lugar da Grã-Bretanha como uma superpotência científica”. Porém, o órgão, financiado com recursos públicos, tem sido alvo de críticas por suas pesquisas sobre técnicas controversas de geoengenharia e por conceder milhões a empresas de tecnologia e fundos de capital de risco dos Estados Unidos. Matt Clifford, presidente da Aria, deixou o cargo neste mês após o que um parlamentar chamou de “claro conflito de interesses”, depois de aceitar um emprego na Anthropic, desenvolvedora do chatbot de inteligência artificial Claude. Já no Congresso Mundial de Conservação da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), realizado em outubro passado, mais de 90 organizações não governamentais manifestaram preocupação de que essas tecnologias possam alterar de forma irreversível os sistemas naturais, com efeitos imprevisíveis. Para Chris Thomas, diretor fundador do Leverhulme Centre for Anthropocene Biodiversity, da University of York, projetos financiados pela Aria oferecem ferramentas potencialmente valiosas em um momento em que muitas espécies e ecossistemas enfrentam secas, agentes patogênicos e outras ameaças. As infecções causadas pelo fungo quitrídio, que afeta a pele e provocou declínios populacionais em mais de 500 espécies de anfíbios, parecem ser um “alvo particularmente relevante” para essas novas abordagens, disse Thomas, que não participa do programa da Aria. Até agora, os biólogos tiveram poucas opções para impedir a disseminação da doença na natureza. Por isso, o laboratório de pesquisa Cultivarium, de Boston, propôs um projeto em parceria com o Imperial College e a Queen Mary University of London. A iniciativa pretende modificar geneticamente uma bactéria que vive na pele dos anfíbios para que ela produza proteínas capazes de “se ligar ao agente infeccioso e interromper” a infecção, disse Henry Lee, cofundador da Cultivarium. “Não estamos modificando geneticamente o anfíbio; o que estamos tentando fazer é dar a ele uma espécie de escudo”, afirmou. Thomas, porém, alerta que o impacto dessas soluções provavelmente será “modesto” e difícil de avaliar. Embora 90 espécies de anfíbios tenham sido extintas em razão da infecção por quitrídio, outras apresentam sinais de resistência adaptativa, afirmou. Tornar determinadas espécies de um lago mais resistentes inevitavelmente afetará as espécies que não forem alvo da intervenção, acrescentou. “Pensar que essas intervenções terão um papel importante na prevenção da perda de biodiversidade provavelmente é bastante ingênuo”, disse. Para que possam ser utilizadas na natureza, as soluções não terão apenas de provar sua eficácia em laboratório, mas também obter aprovação do Department for Environment, Food and Rural Affairs (Defra), órgão que controla rigorosamente a liberação de organismos geneticamente modificados. Mais Lidas

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