Autoridades iemenitas e estrangeiras alertam para uma possível catástrofe enquanto a milícia houthi mantém Taiz — uma das maiores cidades do Iêmen — sob cerco, deixando seus moradores com estoques cada vez menores de alimentos, água e combustível. O bloqueio entra na terceira semana em meio à intensificação da guerra entre os houthis, apoiados pelo Irã e que controlam grande parte do norte do Iêmen, e o governo iemenita, apoiado pela Arábia Saudita. Combates intensos ocorrem nos arredores de Taiz, agora cercada pelos rebeldes. Contexto: Arábia Saudita acusa Irã de incentivar escalada com houthis, que matam 4 em ataque a palácio presidencial no Iêmen Quer ler mais notícias de Mundo? Acompanhe o canal no WhatsApp Quer morar fora? Veja guia interativo do GLOBO que reúne informações sobre 36 países Em entrevistas por telefone, moradores e autoridades afirmaram que as famílias estão ficando sem alimentos e água potável e que os hospitais estão quase sem combustível e suprimentos médicos. — A situação é verdadeiramente catastrófica — relata Alhan Al-Shaibani, moradora de Taiz que vive com outras seis pessoas.
Segundo ela, sua família passou a ferver a água salgada da torneira para consumí-la. Sua mãe e sua avó, ambas diabéticas, não conseguem encontrar seus medicamentos nas farmácias da cidade. Pessoas se reúnem para revirar os escombros de um prédio destruído, após um suposto ataque com míssil contra um bairro residencial em Taiz, no oeste do Iêmen, em 20 de outubro de 2026 AHMAD AL-BASHA / AFP — O que mais me assusta é a falta de alimentos — diz, acrescentando: — Como as pessoas vão conseguir sobreviver? Veja também: Reino Unido anuncia envio de aviões militares para 'missões defensivas' na Arábia Saudita contra ataques Houthis Encontrar vegetais se tornou quase impossível. Sem gás, as famílias estão aquecendo suas refeições com lenha, carvão ou caixas de papelão. — Quem por acaso tem vegetais em casa é considerado afortunado, como se fosse da realeza — conta Al-Shaibani. Entenda: Arábia Saudita adota trabalho remoto em Riad e adia conferência de investimentos em meio à escalada de ataques dos houthis Os houthis responsabilizam seus adversários — tropas aliadas ao governo internacionalmente reconhecido — pela piora da situação em Taiz. A milícia afirma que são essas forças que bloqueiam as estradas de acesso à cidade e pede que se rendam. Questionado sobre a situação humanitária, Ahmad Ameen, governador das áreas da província controladas pelos houthis, disse que a milícia está disposta a “abrir quaisquer estradas seguras que ajudem a aliviar o sofrimento dos civis” e que tenta coordenar a entrega de alimentos. Crise humanitária Taiz é um centro cultural e intelectual situado nas montanhas do sudoeste do Iêmen. A cidade é uma área urbana densamente povoada, com centenas de milhares de habitantes, possivelmente muito mais. Rebeldes apoiados pelo Irã: Houthis voltam a atacar instalações petrolíferas e aeroporto da Arábia Saudita; FMI alerta para impacto regional e global Na terça-feira, o alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, manifestou preocupação com a situação e pediu aos houthis que permitam a entrada de ajuda humanitária na cidade. O fechamento de uma rota entre Taiz e o sul do Iêmen pela milícia “está colocando os civis em grave risco”, afirmou. Pouco depois de tomarem a capital iemenita, Sana, em 2014, os houthis avançaram por grande parte do noroeste do país e começaram a bloquear Taiz. Durante anos, combatentes aliados ao governo resistiram à milícia, fazendo com que a cidade ganhasse fama de reduto de resistência. Naquela época, apesar do cerco, moradores e comerciantes ainda conseguiam manter algum acesso ao restante do país. Em 2022, uma trégua trouxe uma paz frágil. Os combates, porém, recomeçaram neste ano, em meio à guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã e ao aumento das tensões entre os houthis e a Arábia Saudita. Guga Chacra: Empoderados, houthis humilham a Arábia Saudita Mais de 250 mil pessoas foram deslocadas no Iêmen desde agosto, segundo informou a Organização das Nações Unidas na segunda-feira. No mês passado, os houthis tomaram a costa iemenita do Mar Vermelho e, em seguida, avançaram para cercar Taiz. Uma contraofensiva das forças governamentais, apoiada por aviões de guerra sauditas, obteve avanços limitados. Os combates continuam se intensificando. Na segunda-feira, os houthis atacaram um acampamento militar no centro do país, matando dezenas de soldados. No dia seguinte, o governador da província, Awad al-Wazir, informou que o número de mortos havia subido para 73, tornando o ataque um dos mais letais do conflito até agora. Hospitais à beira do colapso A crise em Taiz começou a se agravar no início de outubro, depois que os houthis assumiram o controle da última estrada que ligava a cidade ao sul do Iêmen, explica Shayef al-Jabri, consultor do Centro Cívico de Defesa e Apoio, uma organização local sem fins lucrativos. Produtos básicos, como iogurte, começaram a desaparecer dos mercados, e a população passou a estocar gasolina e gás de cozinha, relata. Iemenitas formam fila para recarregar botijões de gás em um posto de abastecimento em Taiz, em 19 de outubro de 2026 AHMAD AL-BASHA / AFP Agora, o lixo se acumula nas ruas, e muitos caminhões que transportam água potável estão retidos em áreas de combate, acrescenta. Guerra civil no Iêmen: Houthis ameaçam com resposta 'dolorosa' se EUA intervierem na guerra Algumas famílias tentam fugir, mas as rotas para sair da cidade são perigosas. Segundo moradores e autoridades, a situação é ainda pior do que durante o cerco anterior. O médico Ilan Abdul Haq, vice-governador de Taiz para assuntos de saúde e meio ambiente, afirma que os hospitais “estão à beira de fechar”. Uma motocicleta para ao lado de um iemenita que vende garrafas de combustível à beira de uma estrada na cidade de Taiz, em 10 de outubro de 2026 AHMAD AL-BASHA / AFP Mohammed al-Faqih, diretor de qualidade e controle de infecções do hospital Al-Thawra, o principal da cidade, destaca que os estoques de combustível para alimentar os geradores estão quase esgotados, assim como os medicamentos para tratar doenças potencialmente fatais. — Se o cerco não for suspenso, esperem uma catástrofe sanitária na cidade e a morte de muitas pessoas com doenças crônicas, além de pacientes com câncer — alerta. Bombardeios: Explosões são registradas na Arábia Saudita após governo emitir alertas de segurança à população Nos arredores da cidade, os combates continuam sob intensos bombardeios houthis, diz o coronel Abdul Basit al-Baher, oficial das forças militares do governo iemenita. — Você se sente encurralado por todos os lados — ressalta. — Não há reposição de armamentos. Quando nossos estoques atuais se esgotarem, não teremos mais recursos. Ofensiva: Houthis voltam a lançar mísseis e drones contra Arábia Saudita, que promete reação 'grave' Al-Baher, no entanto, rejeitou os apelos dos houthis para que as forças adversárias admitam a derrota. — Morrer resistindo é melhor e mais honroso do que morrer se rendendo — afirma. — Viver sob o domínio da milícia é, por si só, uma forma de morte.
O Globo