Sob bombardeios, iranianos e libaneses relatam medo, exaustão e incerteza sobre o rumo da guerra: 'Está cada vez pior'
No Irã, alvo de ataques coordenados dos Estados Unidos e de Israel desde o último sábado, a população civil enfrenta explosões, cortes de eletricidade, interrupção dos serviços de internet e destruição de infraestruturas. Desde o início dos ataques, que desencadearam em uma guerra regional que levou Teerã a lançar ataques retaliatórios em todo o Oriente Médio, mais de mil pessoas morreram no país, entre civis e militares, segundo a agência oficial iraniana Irna.
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Nesta quarta-feira, as Forças Armadas de Israel deram início à 10ª onda de bombardeios contra o Irã, após a confirmação de ataques noturnos contra centrais militares do regime iraniano. A nova leva de ataques aéreos acontece simultaneamente ao aprofundamento da incursão por terra de tropas israelenses contra o sul do Líbano, em posições controladas pelo grupo xiita Hezbollah, aliado do Irã no "Eixo da Resistência", que entrou na guerra com ataques retaliatórios à morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei.
De Teerã, o jornalista Mohamed Vall, da rede catari Al Jazeera, relatou que os ataques desta quarta causaram, pelo menos, cinco mortes e que os bombardeios atingiram escolas.
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À BBC News Persa, Omid, de 20 anos, disse que as pessoas em Teerã estão começando a ficar preocupadas sobre quanto tempo irá durar esta situação.
— Eu imaginava que eles atacariam certas autoridades, como Khamenei, e que, a esta altura, já teriam terminado — contou o jovem. — Há mais presença policial nas ruas, mas elas estão vazias. Algumas lojas fecharam, principalmente as que ficam perto das regiões afetadas.
Clérigos iranianos e voluntários da Guarda Revolucionária Islâmica oram ao lado dos escombros no centro de Teerã
AFP
Além do medo de morrer, os moradores também estão preocupados com a falta de alimentos e o aumento dos preços, à medida que a guerra escala.
— Precisamos nos abastecer, porque não sabemos quanto tempo isso irá durar — afirmou Nasrin, morador de Teerã, à BBC. — Nossa preocupação é ficarmos sem produtos básicos, se não nos precavermos.
Maryam, outra moradora de Teerã, disse que os "ataques da noite passada (terça-feira) foram terríveis".
— Nossa casa balançava. Algumas pessoas saíram de Teerã, mas nós ficamos em casa — disse Maryam, de 20 anos, que mora no norte da capital iraniana. — Se não nos matarem, ficaremos aqui. Enquanto houver convocações de protestos nas ruas, sairei com minha família para participar. Fico muito feliz ao ver que essas autoridades são o alvo. Aguentaremos os ataques até todos eles morrerem.
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Um homem de 30 anos, que preferiu não revelar seu nome, afirmou estar "cansado e confuso sobre o que pode acontecer".
— Ainda consigo ouvir as explosões. Não sei se elas ainda estão acontecendo ou se agora estão apenas na minha cabeça. Não estou mais feliz [com a possibilidade de mudança de regime], não. Apenas cansado — afirmou.
Homem limpa destroços de posto policial atingido por bombardeio em Teerã
AFP
Outro homem, na faixa dos 20 anos, disse que contou "30 explosões" na terça-feira.
— Está ficando cada vez pior a cada dia. Hoje, a fumaça entrou na nossa casa. Eu só quero paz para todos nós. É muito assustador. Espero que isso não acabe voltando contra nós e nossas vidas por causa deles (as autoridades iranianas) — relatou o jovem.
Em Beirute, mais explosões
No Líbano, dezenas de pessoas foram mortas, segundo o Ministério da Saúde, em decorrência dos ataques retaliatórios israelenses contra o Hezbollah, grupo apoiado pelo Irã, em diversas áreas do país. Muitos moradores do sul do Líbano, próximo à fronteira com Israel, fugiram de suas casas.
Libaneses deslocados se reuniram ao longo da costa do Mediterrâneo, em Beirute, após fugirem de suas casas
Diego Ibarra Sanchez / The New York Times
Sem abrigos adequados para os acolher, os recém-desabrigados espalharam-se por estacionamentos, escolas e mesquitas em Beirute.
— Este país é lindo, mas precisamos de paz — disse Musa Hashem, de 50 anos, um funcionário municipal que fugiu de Dahiya com o irmão gêmeo e seus oito filhos. — Só queremos que esta guerra acabe.
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Com o aumento das preocupações sobre uma guerra mais ampla, muitas pessoas — tanto libanesas quanto sírias — começaram a se dirigir para a fronteira com a Síria, na esperança de deixar o país. Nos últimos dias, muitos fugiram não apenas com medo, mas também em profunda descrença, forçados a deixar suas casas pouco mais de um ano após um cessar-fogo que deveria ter silenciado as armas. Israel e o Hezbollah assinaram essa trégua em novembro de 2024, embora ataques israelenses quase diários tenham abalado o Líbano desde então.
— Estamos vivendo em guerra diariamente há mais de dois anos — disse Shadia Shahla, que trabalha em uma escola na vila de Tallouseh, no sul do Líbano, de onde fugiu. — Agora, uma nova guerra começou, e estamos cansados.
(Com New York Times)
