'Só deu tempo de tirar os passageiros', diz motorista de ônibus incendiado no Rio; comerciantes relatam medo

 

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O motorista Márcio Souza, de 48 anos, da linha 111, que faz o trajeto Central - Leblon contou que seguia pela Avenida Paulo de Frontin, no sentido do Túnel Rebouças, no Rio Comprido, nesta manhã, quando, na altura da Igreja Nossa Senhora das Dores, foi abordado por dois homens portando garrafas com gasolina. Ele conta que o trânsito estava parado e que havia cerca de 20 passageiros dentro do coletivo, mas conseguiu desembarcar todos eles, antes que o veículo fosse incendiado num dos ataques de bandidos em resposta à ação da Polícia Militar em favelas controladas pelo Comando Vermelho, na área central do Rio.

— O trânsito estava parado, estava pegando uns passageiros aqui, e os dois meninos vieram andando, correndo entre os carros. Bateram no vidro da frente e pediram para abrir a porta. Só deu tempo de tirar os passageiros de dentro -- contou o profissional, que está nessa mesma linha há seis meses.

Oito homens morreram, incluindo Claudio Augusto dos Santos, o Jiló, apontado como chefe do tráfico no Morro dos Prazeres, e Leandro Silva Souza, que era morador da região e foi feito refém por traficantes. No final da manhã, uma série de ações criminosas tomou vias próximas às comunidades — Prazeres, Fallet, Fogueteiro, Coroa, Escondidinho e Paula Ramos — onde os policiais atuam.

O motorista Márcio Souza contou que já atuou em outros itinerários, mas nunca passou por sufoco semelhante. Casado e com filhos, disse que na hora pensou também na família. Mas a preocupação maior, naquele momento, foi salvar os passageiros.

— A primeira coisa que pensei na hora foi salvar os passageiros. Bem material depois o patrão corre atrás. O mais importante é a vida, que é uma só — disse.

Márcio contou que abriu as portas para os passageiros descerem e em seguida o ônibus foi incendiado. Consumido pelas chamas, o coletivo ficou só na carcaça. Bombeiros foram chamados, mas não conseguiram conter o fogo. A poucos metros dali na esquina com a Rua do Bispo, havia várias viaturas da Polícia Militar que estavam dando apoio à operação.

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A ação policial levou medo à região e fechou a maior parte do comércio, nas imediações da Praça Condessa Paulo de Frontin. Poucos comerciantes se aventuram a abrir as portas.

Comerciantes e moradores relatam tensão

Além da Paulo de Frontin, o comércio ficou fechado em boa parte da ruas Itapiru, do Bispo, Aristides Lobo, entre outras. A Escola Municipal Pereira Passos e o posto de Saúde Salles Neto, que ficam na praça Condessa Paulo de Frontin, também estão fechados.

— Hoje é um dia típico, devido à ocorrência que teve mais cedo, que a gente sabe, no Fallet, devido à morte do traficante, então a gente já sabia que hoje ia ser um dia que não seria dentro do padrão — disse a comerciante Érica Soares Cavalcante, dona de uma loja de rações para animais.

Erika contou que chegou a abrir o estabelecimento mais cedo, mas por conta da operação policial teve de fechar logo. Em seguida o ônibus da linha 111 foi incendiado bem em frente ao local onde ela guarda seu estoque, a poucos metros da loja, também na Paulo de Frontin. O medo era que as chamas atingissem o prédio, disse.

Apesar da situação dessa manhã, a comerciante diz que uma das principais preocupações do comércio local é com o que chamou de "Cracolândia", que se instalou embaixo do viaduto, em frente as lojas.

— De uns meses para cá fica aqui de frente vários moradores de rua fumando, cheirando, fazendo outras coisas, queimando fio a olho nu. Isso nos incomoda muito.

Embora não houvesse ordem de fechamento do comércio na região, uma veterinária desistiu de abrir a loja na Rua Estrela nesta quarta-feira por causa da tensão no bairro. A loja ao lado, uma petshop que oferece o serviço de banho e tosa de animais, manteve as portas abertas pela manhã para atender os clientes dos primeiros horários, mas desmarcou os demais e fechou no início da tarde.

— A situação fica muito instável, não vale a pena manter aberto. Cancelei os clientes da tarde porque a gente não sabe o que vai acontecer. A veterinária não quis nem abrir — relata o proprietário, que preferiu não se identificar.

Por volta das 9h40, antes do ônibus ser incendiado na Rua Paulo de Frontin, uma vendedora relatou que os acessos do túnel e do Morro do Fallet já estavam bloqueados.

— Eu não sabia de nada. Vim de 711 e o motorista mandou a gente descer do ônibus porque ele não poderia ir até o ponto final, na Praça do Rio Comprido. Achei estranho, mas depois soube do conflito. Eu vou embora, muito perigoso. Quanto mais tarde, pior a situação pode ficar — afirmou a vendedora.

Um homem que trabalha na região contou que chegou por volta das 8h30, de moto de aplicativo, e viu o momento em que bandidos atearam fogo em objetos para bloquear a rua.

— O bagulho está doido. Tudo pode acontecer, não dá para saber ainda. A situação está muito tensa — conta ele.

Uma moradora que não quis se identificar contou que viu na televisão o avanço da polícia na Rua Barão de Petrópolis. Com medo, ficou com os dois filhos pequenos em um restaurante local.

— Eu estou com medo de subir com as crianças e começar troca de tiro. Vi que eles (policiais) estão subindo e descendo — conta.

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