Sim, todos podem: minorias políticas nas eleições de 2026

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Fonte da notícia: Portal Jota Portal Jota

Em 1860, um homem escravizado chamado Sheppard Peek constava entre as posses de William Peek, um homem branco de Crawfordville, na Geórgia, com valor estimado em 1.400 dólares, e mais de um século e meio depois a sua tataraneta, Keisha Lance Bottoms, ex-prefeita de Atlanta, foi eleita governadora do mesmo estado.[1] Na noite de 3 de novembro de 2026, ao derrotar um adversário republicano que gastou como poucas vezes se viu numa disputa estadual, Bottoms tornou-se a primeira mulher e a primeira pessoa negra a governar a Geórgia, e a primeira mulher negra eleita governadora de um estado na história dos Estados Unidos.[2]

Há seis anos, neste mesmo espaço, destacamos o trabalho de Stacey Abrams, derrotada em 2018 por cerca de 55 mil votos na disputa pelo governo da Geórgia, e que havia liderado uma luta contrarregras eleitorais que obstaculizavam o voto dos cidadãos afro-americanos mais desfavorecidos, o que resultou, segundo cálculos do Partido Democrata, em ao menos 800 mil novos eleitores registrados.

Não é demais lembrar que o estado que negou o governo a Abrams em 2018 e em 2022, e que não elegia um governador democrata desde 1998, é o mesmo que o entrega agora a Bottoms, por nove pontos de diferença[3]. Quer receber reportagens do JOTA com mais frequência? Clique aqui e selecione o JOTA como fonte de informação no Google Notícias

Os números das midterms de 2026 apontam para um avanço. Antes da votação, o Center for American Women and Politics (CAWP) já registrava recorde de 590 mulheres candidatas à Câmara dos Representantes e de 85 candidatas a governadoras,[4] e o resultado das urnas, ainda em consolidação quando este texto foi escrito, aponta para ao menos 17 mulheres à frente de governos estaduais em 2027, número recorde,[5] ao passo que o Democratic Women’s Caucus anunciou que, pela primeira vez na história, mais de cem mulheres democratas foram eleitas para a Câmara.[6]

Bottoms não foi a única a quebrar barreiras naquela noite, pois também foram eleitos os governadores negros Byron Donalds, republicano, na Flórida, e David Crowley, democrata, em Wisconsin, num país que, em 250 anos de história, só havia elegido três negros para o governo de um estado[7].

Entre as mulheres, as vitórias inéditas foram muitas: Deb Haaland, do Novo México, é a primeira mulher indígena eleita governadora nos Estados Unidos, Gina Hinojosa, que derrotou o governador Greg Abbott, será a primeira latina a governar o Texas, e Amy Acton e Marsha Blackburn, esta última republicana, são as primeiras mulheres eleitas para governar Ohio e o Tennessee, respectivamente[8] No Senado, Peggy Flanagan será a primeira mulher indígena a ocupar uma cadeira, Annie Andrews, a primeira mulher eleita pela Carolina do Sul, Juliana Stratton fará de Illinois o primeiro estado a ter, ao mesmo tempo, duas senadoras não brancas, ao lado de Tammy Duckworth[9], Abdul El-Sayed de Michigan será o primeiro senador muçulmano dos Estados Unidos e Chris Pappas será o primeiro homem abertamente gay senador.

Dois pontos merecem atenção. Primeiro, os avanços não são monopólio de um partido: a eleição de Donalds e Bottoms faz da Flórida e da Geórgia os dois primeiros estados do Sul profundo governados por pessoas negras.

Segundo, o país que teve apenas três governadores negros eleitos em toda a sua história, viu nesse ciclo o número crescer de forma abrupta. A lista é real e merece ser celebrada.

Mas ela convive com um dado incômodo: essas vitórias vieram no mesmo ciclo em que a Suprema Corte, em Louisiana v. Callais, reduziu drasticamente a proteção jurídica que garantia distritos com maioria de eleitores negros.

As vitórias simbólicas avançam pelo alto, a base institucional da representação se estreita por baixo. Em 29 de abril de 2026, por seis votos a três, a Suprema Corte julgou Louisiana v.

Callais[10] e, sem declarar inconstitucional a Seção 2 do Voting Rights Act, passou a exigir, para que se reconheça a diluição do voto de minorias no desenho dos distritos, forte inferência de que o Estado agiu com intenção discriminatória, afastando o critério de efeitos que vigorava desde Thornburg v.

Gingles, de 1986.[11] Para a ministra Elena Kagan, em voto divergente, a maioria transformou a Seção 2 em letra morta, já que provar o motivo racial do legislador é tarefa quase impossível, e os desdobramentos não tardaram: a Louisiana redesenhou o mapa e eliminou um de seus dois distritos de maioria negra, o Tennessee aprovou mapa sem o seu único distrito desse tipo, e a Corte permitiu ao Alabama usar, em 2026, o mapa legislativo de 2023, que elimina o segundo distrito de oportunidade para eleitores negros imposto pela Justiça após Allen v.

Milligan.[12] A vitória de Bottoms não contradiz esse quadro, porque eleições para governador são majoritárias, de circunscrição única, e não há mapa a desenhar.

A lição jurídica é sutil. Cargos como governador e senador dependem de coalizões amplas e de candidaturas excepcionais.

Já a representação proporcional ao peso demográfico de uma minoria depende de regras: desenho de distritos, proteção judicial contra diluição, financiamento. Quando as regras recuam, a representação passa a depender de exceções.

O que Callais ameaça é a camada de baixo, a das cadeiras legislativas, em que a representação de mulheres negras e de outras minorias depende de distritos nos quais a comunidade tenha densidade suficiente para eleger quem a represente. A Geórgia, aliás, esteve perto desse cenário, pois o governador Brian Kemp pressionou o Legislativo, neste ano, a redesenhar os mapas à luz de Callais,[13] de modo que a mesma Geórgia em que Abrams combateu o cancelamento burocrático de inscrições de eleitores vê o obstáculo deslocar-se do cadastro para o mapa, e a luta por tornar o voto um direito e não um privilégio passa a incluir a luta por quem tem a caneta do redistritamento.

JOTA PRO Poder traz previsibilidade e antecipação de riscos nas decisões dos Três Poderes Essa é uma pergunta que o Brasil deveria fazer antes de debater o voto distrital: quem terá o poder do desenho, e como isso impacta a representação das minorias?

Nosso sistema proporcional de lista aberta não tem distritos e, por isso, não conhece o gerrymandering no sentido norte-americano, mas conhece outros mecanismos pelos quais as regras decidem quem representa quem. Exemplo disso é a cota de 30% de candidaturas por gênero, a distribuição proporcional dos recursos do fundo eleitoral e do tempo de propaganda, e a contagem em dobro dos votos dados a mulheres e a pessoas negras para fins de divisão dos fundos, instrumentos que dependem de lei e de jurisprudência que também podem mudar, como mostra o caso norte-americano, em que o critério de Gingles, vigente desde 1986, foi reformulado por Callais quarenta anos depois, e em que a vitória obtida em Milligan, em 2023, teve seus efeitos práticos revertidos já em 2026.

Representação sustentável depende menos de candidaturas extraordinárias e mais de regras ordinárias que funcionem todos os anos, em todas as circunscrições. Os Estados Unidos estão aprendendo isso pela perda.

O Brasil, que ainda tem seus instrumentos em vigor, tem a chance de aprender pela preservação e pelo aperfeiçoamento deles. Se Stacey Abrams dizia que não se pode ser o que não se pode ver, as eleições de 2026 mostraram que, em muitos lugares, elas já são, e serão cada vez mais.

Resta garantir que as regras do caminho não sejam redesenhadas por quem prefere que elas não cheguem e avaliar como e por quem isso será feito no Brasil. De Lockwood a Bottoms, de Rankin a Haaland, muito se caminhou, mas muito ainda há que se caminhar, e, nas palavras da eterna Ruth Bader Ginsburg, “mulheres devem estar em todos os lugares onde as decisões estão sendo tomadas”, inclusive, e talvez principalmente, na sala em que os distritos serão desenhados.

________________________________________________________________________ [1]Ernie Suggs, “Keisha Lance Bottoms and the long road from Crawfordville to Governor’s Mansion”, AJC, 4/11/2026.

[2]Greg Bluestein, “Keisha Lance Bottoms elected Georgia governor”, AJC, 3/11/2026; Reuters, “Keisha Lance Bottoms wins Georgia race, becomes first black woman elected governor of US”, Daily Maverick, 4/11/2026. [3]Greg Bluestein, “How Keisha Lance Bottoms overcame the odds to win Georgia’s race for governor”, AJC, 5/11/2026 (vitória por nove pontos e primeira democrata eleita governadora da Geórgia desde 1998).

[4]CAWP/Rutgers, “Record Number of Women Running for U.S. House”.

[5]NBC News, “Record number of female governors elected”, 4/11/2026. [6]The Washington Post, “Democratic women surpass 100 House seats; Republican women’s ranks decline”, 4/11/2026 (trecho em Political Wire); Democratic Women’s Caucus, publicação oficial no Instagram (@demwomencaucus), 4/11/2026.

[7]Ernie Suggs, AJC, op. cit.

(nota 1), 4/11/2026 (Donalds, Crowley e os três governadores negros eleitos anteriormente: Wilder, Patrick e Moore). [8]NPR, “These 9 candidates for governor made history in the 2026 election”, 4/11/2026; Al Jazeera, “Firsts for women and minorities in US midterm elections”, 4/11/2026; ABC News, “Women make history in governor, congressional races in 2026 midterms”, 4/11/2026.

[9]ABC News, 4/11/2026; Axios, “Women ride midterm blue wave to historic gains”, 4/11/2026; ABC7 Chicago, sobre a vitória de Juliana Stratton, 4/11/2026. [10] Robinson v.

Callais, 608 U.S _____(2026) [11]Congressional Research Service, “Congressional Redistricting: High Court Narrows Voting Rights Act in Louisiana v.

Callais”, 14/5/2026; Ballotpedia, 1/5/2026; íntegra da decisão: Supreme Court of the United States, 24-109. [12]JURIST, “Louisiana approves new congressional map, dismantling majority-Black district”, junho/2026; PBS NewsHour/AP, “Louisiana passes new congressional map to eliminate majority-Black district”; Atlanta Black Star, 4/11/2026 (Alabama, decisão de 2/6/2026, e Tennessee).

[13]Greg Bluestein, “Georgia Gov. Brian Kemp says he won’t call special session to redraw maps”, AJC, 4/11/2026; Democracy Docket, convocação da sessão especial por Kemp.

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