Shakira repassa os trinta anos de carreira em show de Copacabana recheado de hits e participações especiais
Em noite de lua cheia, a Loba transbordou latinidade, empoderamento feminino e alegria no palco do Todo Mundo no Rio. O show histórico de Shakira em Copacabana irradiou tudo que suas três décadas de carreira representa. Ela dedicou a apresentação às mulheres e exaltou as latinas, exibiu seu vozeirão e seu inconfundível bailado, passeou por muitos ritmos e, das músicas mais românticas às mais explosivas, transformou o megashow numa gigante festa. Foi uma noite marcada também por sua forte integração com o Brasil, com interação em português com o público, e a esperada participação de artistas como Anitta, Caetano Veloso, Maria Bethânia e Ivete Sangalo.
Shakira em tempo real: acompanhe ao vivo a noite do show em Copacabana
Anitta, Maria Bethânia, Ivete Sangalo... Veja quem cantará com Shakira no show em Copacabana
Às 22h53, com um show de drones, a cantora começou, com atraso, seu aguardado show. Uma faixa instrumental, com beats fortes, foi aquecendo o público durante o espetáculo visual, que terminou sem que a cantora aparecesse no palco. Um “Te amo Brasil” escrito no céu ainda manteve o público com a respiração presa, mas nada de Shakira aparecer no palco. Enfim, às 23h05, os telões se iluminaram e um vídeo com a cantora recriada por IA começou de fato a noite.
“Boa noite, Rio”, disse a cantora ao longo da dançante “La fuerte”, faixa de abertura dos seus shows. Em seguida, ela fez uma convocação às mulheres latinas em “Girl like me”, ainda sob saraivada de beats, na rampa em frente ao público. Já no palco, com seu balé, ela foi de “Las de la intuición”, com citação ao seu primeiro hit, “Estoy aquí”, de mais de 30 anos atrás. Em meio à festa de som e luz, o público já havia esquecido de todo atraso.
Galerias Relacionadas
— E pensar que eu cheguei aqui (no Brasil) quando tinha 18 anos, sonhando com cantar para vocês e me apaixonar por vocês... E olha isso aqui. A vida é mágica — disse ela, admirada com a plateia a perder de vista. — Não existe melhor coisa para mim, sua lobinha, se encontrar com a sua alcateia brasileira. Rio, esta noite e sempre somos um — completou ela.
Show de Shakira em Copacabana
Alexandre Cassiano / Agência O Globo
Do rock ao reggaeton, todos os ritmos cabem na voz da colombiana
Seguindo o roteiro de seus espetáculos, chegou a hora das guitarras e do rock de “Empire” e “Inevitable”, sucesso lançado em 1998 e cantado em coro pelo público. A catarse seguiu com o reggaeton da vingança de “Te felicito”, com direito a encenação com um Ken humano e colorido espetáculo visual à la Barbie.
Num palco com 1.500 metros quadrados, o maior já montado para um Todo Mundo no Rio, a cantora deixou claro que estava realizando um sonho. Lembrou das dificuldades dos últimos tempos, após a separação do ex-marido. Mas, em um momento confessional, disse que “a vida tem formas de recompensar”.
Show de Shakira em Copacabana
Marcelo Theobald / Agência O Globo
— Nós, mulheres, cada vez que caímos nos levantamos um pouco mais sábias, um pouco mais fortes e um pouco mais resilientes. As mulheres já não choram. Por isso, esse show vai ser dedicado a todas nós — disse para citar uma autora que admira. — As mulheres sozinhas somos vulneráveis. Mas juntas somos invencíveis.
A partir daí, o show se tornou cada vez mais dançante, com clássicos como “Hips don’t lie” e “Loca”, que nunca pararam de tocar nas pistas brasileiras. A apresentação de “Chantaje”, originalmente gravada com uma colaboração com o também colombiano Maluma, iniciou com imagens dela trocando de roupa no camarim. Ao voltar ao palco, passos de salsa, rumba e reggaeton mantiveram o clima de alto astral.
Já antes de cantar um de seus sucessos mais recentes, “Soltera”, com direito a um pole dance no palco, ela fez uma citação às mães solos do Brasil.
— Neste país tem mais de 10 milhões de mães solteiras. Eu sou uma delas — lembrou.
Shakira recebe Anitta em show em Copacabana
Reprodução/Globoplay
Apresentação de ‘Choka choka” com Anitta
A aparição de Anitta para um dueto na estreia ao vivo (num show de Shakira) de “Choka choka” deu início de fato ao espetáculo que os brasileiros esperavam da colombiana - a passagem da carioca pelo palco foi breve, mas deu uma sacudida na noite, que seguiu só com a dona da noite no ska “Can't remember to forget you”, uma das antigas, recentemente recuperada para os seus shows.
Sempre funciona bem a nova versão trapeira, com baixo distorcido, de “Ojos así” - e ali em Copa, mais uma vez, esse foi um dos momentos altos do show de Shakira. Em um curioso mas esperado contraste, a sua viagem ao próprio passado a levou ao emotivo rock “Pies descalzos, sueños blancos” e ao clima de luau de “Antología” - ambas, oportunidades para a cantora se soltar e deixar um pouco os quadris de lado (e o público ir tomar uma cerveja).
Shakira e Maria Bethânia cantam juntas 'O que é, o que é?', de Gonzaguinha, em Copacabana
Reprodução/Globoplay
Outras participações especiais
Essa parte do roteiro foi perfeita para que Shakira chamasse "um dos primeiros artistas que eu conheci no Brasil" (e a quem nao poupou elogios): Caetano Veloso. Com sua banda e o reforço do violonista de Caetano, Lucas Nunes, os dois singraram por uma terna "Leãozinho", a música que Shakira costuma cantar para o filho Milan dormir. Hora de indisfarçável fofura na noite.
Mal Caetano saiu do palco, entrou a irmã, Maria Bethânia. Reverente à rainha da canção brasileira, Shakira foi mais quadris que voz (mas respeitáveis quadris de samba) em “O que é, o que é”, de Gonzaguinha. Aberta definitivamente a seção brasileira do show, teve a bateria da Unidos da Tijuca em “Objection (Tango)” e uma aparição fulminante de Ivete Sangalo, que roubou o show e instaurou o Carnaval com um "País Tropical", do ilustre morador do hotel em frente ao palco, Jorge Ben Jor.
Show de Shakira em Copacabana - Shakira e ivete
Marcelo Theobald / Agência O Globo
De volta à programação normal, Shakira sacou da manga o hit “Suerte (Whenever, wherever)”, que, em arranjo fortemente percussivo, emendou inevitavelmente em
“Waka Waka (Esto es África)”, alegre, colorida e ideal para a pausa antes do bis. Que foi exatamente o esperado, com "She Wolf" ("onde estão as lobinhas e lobinhos do Rio de Janeiro?", arriscou ela) e a grande canção da vingança, “BZRP Music Sessions #53” ("as mulhreres já não choram, as mulheres faturam") que há poucos anos fez de Shakira a rainha das pistas e do streaming.
Sem nada do caráter vanguardista, art pop, ou o peso do mito de Madonna e Lady Gaga, Shakira passou por Copacabana como a rainha da simpatia. Falante, expressando-se o tempo inteiro em português, ela fez de tudo para conquistar o público, mas com bastante previsibilidade no setlist, vídeos sem enorme criatividade e alguns intervalos que prejudicaram um pouco a fluidez do show. Entre altos e baixos, porém, a praia foi dela.
Na batida do leque, o compasso da celebração
Antes mesmo de Shakira subir ao palco, o show de leques na plateia, no ritmo da música, repetia o que se tornou um símbolo das primeiras edições do Todo Mundo no Rio. No show de abertura, com o DJ Vintage Culture, a batida do acessório era a marcação para os beats de “World, Hold On”, sucesso de Bob Sinclar. E quando a colombiana começou a entoar seus hits, a sincronia não parou mais.
O atraso para o início do espetáculo foi de cerca de uma hora. Segundo informou a produção da cantora à transmissão de TV, o adiamento ocorreu por um problema pessoal de Shakira, logo resolvido. Desde cedo, no entanto, entre criatividade, improviso e expectativa, Copacabana já era uma atração à parte, onde cada metro de areia foi ocupado por fãs dispostos a tudo para garantir um lugar — ou ao menos uma boa visão do palco. E na disputa por alguns centímetros a mais, valia subir onde fosse possível. Teve gente em árvore, em grades e até nos postos de exercícios da praia, convertidos em “camarote raiz” para escapar da multidão. Ao redor, o público se espalhava em um mar de gente que avançava da areia ao calçadão.
Show da cantora Shakira em Copacabana
Custódio Coimbra / Agência O Globo
Cidade se transforma na capital da América Latina
Na multidão em Copacabana, o que chamou atenção também foi a mistura do espanhol com o português, que virou a linguagem oficial da celebração a Shakira. Aos fãs nacionais juntaram-se verdadeiras caravanas de turistas latino-americanos entusiasmados com o baile da colombiana. Era uma efervescência cultural que já durava dias, e tinha até ambulante que abordava os clientes com um “hola, que tal”. Não foi só nesta edição do megaevento de maio, no entanto, que o “portunhol” se integrou ao burburinho da cidade. “El bla bla bla”, assim, sem acento, como dizem os hispanofalantes, tem sido resultado de uma busca cada vez maior dos latinos pelo turismo no Rio.
Argentina, Chile e Uruguai ocupam, respectivamente, o primeiro, o segundo e o quarto lugar no ranking de maiores emissores de turistas ao estado. Em 2026, só os “hermanos” já são 40,25% do total de visitantes internacionais no Rio. De janeiro a março, passearam por aqui 355.990 argentinos, de um total de 884.535 estrangeiros de diversos países, segundo dados da Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo (Embratur).
Ambulante apresenta oferta de 'camarote', papel higiênico, desodorante e café ao público da Shakira nas areias da Praia de Copacabana
Marcia Foletto / Agência O Globo
Já os desembarques oriundos de toda a América Latina no primeiro trimestre de 2026 somaram 606,7 mil, um aumento de 25,5% em comparação aos primeiros três meses de 2025, quando foram 483.434. É o que ajuda a espalhar uma profusão de sotaques em espanhol em Copacabana, Leme, Ipanema, Lapa e outros bairros do Rio.
Identificação moveu fãs do mundo inteiro às areias cariocas
No clima da identificação tanto com a bandeira latina quanto com a feminista, a professora de dança Dianela Fernández, de 20 anos, diz ter escolhido o Rio para passar as férias com o irmão, Thiago Fernández, atraída pelas paisagens. A empolgação ficou ainda maior quando percebeu que suas datas coincidiriam com as de Shakira no Todo Mundo no Rio. Nesta semana, ela era uma das dezenas de curiosos na calçada do Copacabana Palace à espera de uma aparição da Loba.
Leia aqui: 'Lobas' ocupam Copacabana e levam para a areia a força e a liberdade de Shakira
— Shakira e outras cantoras latinas não buscam mais copiar a maneira americana de fazer música. Ela leva com orgulho o nome da América Latina, com seu próprio ritmo, dança. Isso fortalece a cultura latino-americana no mundo. Além disso, a turnê Las Mujeres Ya No Lloran mostra que as mulheres não dependem de um relacionamento para se sentirem realizadas. Eu mesma foco nos meus projetos profissionais — disse a moradora de Buenos Aires, que também gosta de ouvir artistas brasileiras.
Da esquerda para direita: Chakira Torres, do Ceará; estudante Shakira Cavalcante e Dj Shak
Fotos de arquivo pessoal
A identificação musical resvala na territorial e possibilita mais intercâmbios:
— Antes, cantores se modificavam para se inserir no mercado internacional, faziam músicas em inglês. Hoje, cantam mesmo em espanhol, em português. A primeira música da Anitta que conheci foi um funk, em português — frisou.
Conheça a história de Tainá: Vendia água na areia e virou VIP em show em Copacabana
Segundo o Observatório do Turismo Carioca, da Secretaria municipal de Turismo, além do aumento no número de visitantes latino-americanos, nos últimos anos o tempo de permanência desses turistas na cidade tem aumentado. “A frequência média de permanência subiu 10,3% de 2024 para 2025”, informou.
Initial plugin text
